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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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O MOTOBOY

Evandro Luiz Gevú da Silva

Um motoboy foi entregar uma encomenda no centro da cidade; era um dia calmo de sábado, desses dias ensolarados em que a melhor coisa a fazer é ir à praia e descansar, ou simplesmente ler um livro. Mas nossa personagem tinha mesmo é que trabalhar. Filho mais velho de Dona Maria, coube-lhe a responsabilidade da casa. Era ainda muito novo para tamanha responsabilidade, mas não se intimidou. Além de trabalhar como motoboy, vigiava e lavava carros da rua e, assim, se virava.

Ele trafegava ziguezagueando por entre os poucos automóveis daquele dia calmo e, como um raio, chegou ao seu destino. Saíra de casa com um nó no estômago. Passava das dez da manhã e encontrava-se vesgo de fome. Então, para driblar esse mal-estar, dirigiu-se a uma padaria, entrou e foi logo para a seção dos pães doces. Sacou do bolso a carteira, mirou mais uma vez o balcão na intenção de escolher o maior e mais recheado pão doce e, sem que tivesse chances para mais nenhum pensamento, percebeu um toque no ombro. Instantaneamente virou-se, tratava-se de uma mulher de aparência miserável, com uma criança dormindo em seu ombro e receitas médicas na mão. A pobre implorava que lhe ajudasse na compra dos medicamentos para a filhinha, dizia-se mãe solteira e desempregada.

O Motoboy coçou a cabeça. Estava dividido entre saciar a própria fome ou fazer a caridade àquela mulher e sua filha. Decidido, tomou-a pela mão e foram à drogaria mais próxima e, com os parcos recursos de que dispunha, comprou os remédios, sobrando apenas o da gasolina. O pobre rapaz ficou durinho de dar pena, mas com o coração satisfeito, trazia no peito a convicção de que um dia Deus lhe compensaria em dobro por aquele gesto, tão incomum em nossos dias. Despediu-se da menina e da mulher e foi concluir o serviço de entrega num dos prédios da Rio Branco.

Retornando à motocicleta, colocou o capacete, acionou a moto numa única pedalada e preparou-se para partir. Porém ... êpa! lá estava à sua frente a mesma mulher de minutos atrás, com a mão estendida e a mesma voz miserável. Será que não lhe havia reconhecido? E não havia, mesmo!

O pobre rapaz, tomado pela surpresa e revolta, lentamente retirou o capacete, até ser finalmente reconhecido. A mulher, agora, com olhar frio e cínico, deu-lhe as costas e seguiu sabe lá Deus pra onde...