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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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Um fato Verídico

Vinicius da Silva

Vou lhes contar não uma mentira, nem mesmo um sonho, apenas um fato verídico de outrora que aconteceu na feira livre de Acari.

Entre oito e nove horas da manhã, João e José conversavam dentro do carro.

João: – Será que vai dar certo?

José: – Fique tranqüilo, vai dar tudo certo.

João: – E se alguém descobrir?

José: – Ninguém vai descobrir antes da nossa fuga. O plano é perfeito.

João: – Não sei, não, hein!

José: – Pode confiar no seu "broder"!!

José estendeu a mão. O outro, depois de alguns olhares de desconfiança, acabou respondendo ao amigo José com aquele forte aperto de mão.

José: – Esse é o meu amigo!! Você sabe que eu nunca te coloquei em furada.

João: – Vai ficar aí falando?! Acelere este carro!

José: – É assim que se fala! Vamos ganhar uma grana maneira.

João: – Feira de Acari, aí vamos nós!

Estacionaram o carro – um fusca 68 de lataria enferrujada e com um buraco no chão do carona – numa esquina com pouquíssimo movimento. Em seguida, João colocou um toca-fitas dentro da gaiola, escondendo-o na comida do passarinho amarelo. Mal chegaram à feira de Acari, eles ligaram o toca-fitas e cobriram a gaiola com um pano branco.

João: – Não estou ouvindo nada.

José: – Calma, meu amigo.

À medida que andavam por entre a multidão, aumentavam os admiradores da cantoria do passarinho escondido no pano branco. E logo, João e José pararam num canto e anunciaram a venda da ave. Não demorou nem dez segundos para aparecer o primeiro suposto comprador, e mais outro, mais outro,..., e acabou virando um leilão.

José: – Qual o seu nome?

Vítor: – Vítor.

José: – Aqui galera! O Vítor dará trezentos e dez reais, quem dá mais?

Fulano: – Trezentos e cinqüenta.

Cicrano: – Trezentos e oitenta.

A belíssima "cantoria da ave" instigava as propostas de compra.

Beltrano: – Eu dou quinhentos reais.

José: – Quem dá mais? Quem dá mais?... Quem dá mais?... vendido por quinhentos reais para o ?

Manoel: – Seu Manoel.

José: – Vendido por quinhentos reais para o seu Manoel.

João e José mostraram um sorriso oblíquo. Manoel entregou-lhes o dinheiro e pegou a gaiola.

José: – Não tire agora o pano branco, senão o canário irá parar de cantar.

Manoel: – Mas não é Sabiá?

José: – Eu disse Sabiá? Devo estar ficando maluco. É um canário amarelo cubano.

Fulano: – Mas é o que, afinal de contas, sabiá ou canário?

João: – Não!! É canário amarelo argentino... oh perdão!

José: – Chileno.

João: – Canário amarelo chileno.

Cicrano: – Vocês não tinham dito que era cubano?

José: – Não é argentino, cubano e nem sabiá! O passarinho que está ali dentro é Canário Amarelo Chileno.

Manoel: – Deixa eu tirar o pano.

João e José: – Não!!

José: – Se você tirar o pano, ele vai parar de cantar, você quer que ele pare de cantar?

Manoel: – Não.

Todos pararam por um instante para ouvir "a cantoria do Canário Amarelo Chileno". José contou o dinheiro. João puxou o amigo pelo braço:

José: – Já está tarde, tenho que ir embora! Foi um prazer fazer negócio com o senhor. Olha seu Manoel, não tire este pano antes do final da tarde.

João e José saíram em passos rápidos. Enquanto isso, o passarinho ficou cantando sem intervalos. A curiosidade de vê-lo cantar, forçou seu Manoel a remover o pano branco, e descobrir que a ave cantava de bico fechado.

Manoel: Que porcaria é essa?

Não demorou muito para descobrirem um toca-fitas dentro da comida do sabiá.

Manoel: – Eu fui enganado.

Cicrano: – E pior que isso é uma rolinha pintada de amarelo.

O Português Manoel, junto de outros conhecidos, correu a fim de capturar os sujeitos de maus bofes. Mas já era tarde, João e José estavam bem longe, graças ao fusquinha que não enguiçou, pois percebeu a gravidade da situação.

Hoje, os amigos João e José dão gargalhadas quando lembram desse fato, mas ainda sentem-se inquietos, pois, poderão encontrar o enganado português Manoel.

Convém lembrar ainda, meu caro leitor, que esse caso não foi fruto de minhas ações, e que mesmo assim sinto-me integrante de tal experiência, quer pelos enganados, quer pelos enganadores. E você, leitor, não sentiu a mesma coisa?

Ah! Em tempo: os nomes são fictícios.