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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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"Televisão e sociedade: do Big Brother à TV Universitária"

Felipe Pena
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002.
132 p.

Poderá parecer estranho que um aluno de Letras faça uma resenha sobre um livro tratando de televisão. Afinal, o assunto é específico – ou parece ser – da esfera da Comunicação Social. Mas o prof. Felipe Pena, para os que não sabem, fez o seu Mestrado e o Doutorado em Letras, pela PUC-Rio, o que significa que seu olhar vem contaminado por uma aproximação em relação às temáticas trabalhadas por nossa área de estudos. Não é sem razão, pois, que assuntos como a literatura infantil, ou mesmo os mitos, fazem parte de seu leque de preocupações, variadas e múltiplas, como é a cena contemporânea da cultura, capitaneada pela TV.

O livro, em si, é dividido em dois grandes blocos. A primeira parte, de ensaios críticos, contempla aspectos interessantes da atualidade. Não me lembro de haver lido uma análise tão perfeita daquela personagem, famosa em todo o Brasil, que foi o ganhador do primeiro BBB, Kleber "Bambam", comparado, na obra, ao personagem do filme O Náufrago, interpretado pelo ator Tom Hanks, pelo traço comum a ambos: a solidão.

Não faltarão, ao longo dessa primeira parte da obra, análises sobre o foco central de sua investigação: a TV. Assim, passando pelo Canal Universitário, pela figura do repórter, ou mesmo pela dramaturgia de um programa como Linha Direta, as mudanças operadas no veículo são pensadas, trabalhadas, desvendadas. Mas, sem dúvida, é o texto sobre Rousseau o que mais ênfase recebe por parte do autor, visto como "herói épico de seu tempo".

Primeiro, cabe entender que o sentido da heroicidade épica dá-se pela exemplaridade existencial do filósofo, na trajetória a caminho do saber enciclopédico. Extraindo do binômio vida-obra a sustentação para o desenvolvimento das idéias, o autor salienta o conceito de educação, como fundamental para a compreensão do processo. No desenrolar da "batalha pedagógica pela civilização", nas palavras do autor, Rousseau foi fervoroso defensor da noção de que a bondade natural do homem é deformada pela sociedade, vindo a gerar um dos mitos tão caros à nossa sociedade: o "bom selvagem".

Boa parte de nossa literatura, desde a época do descobrimento, vem marcada por esse conceito, como se estuda em Literatura Brasileira, vindo a animar, entre outros, o nosso "Indianismo", que envolveu nomes tão famosos como Gonçalves Dias e José de Alencar. A renovação das instituições sociais, como defendia o filósofo, fundada no contrato social, é tema dos mais importantes em nossos dias, no resgate da ética, numa época em que tudo parece negar o pensamento deste que, na leitura do autor, foi um "herói de seu tempo".

Mas a viagem pela obra do Prof. Felipe Pena não acaba por aí: a segunda parte, uma coletânea de artigos publicados em jornais, trata de assuntos igualmente diversificados na temática. Alguns deles dizem respeito diretamente a nós, alunos, como é o caso do artigo "Universidade Estácio de Sá: a unidade na diversidade", ou "A literatura no universo infantil", ou, ainda, "Por um ensino humanista e técnico". É bom ressaltar que o leque de provocações não se esgota apenas nesses três títulos aqui presentes: há muito mais. Porém, como enfatizamos no início, o olhar é definido sempre pela nossa área de preocupações – no caso, o campo das Letras.

O texto sobre a Universidade Estácio de Sá trata de um ruidoso caso, gravado na memória de todos, que foi a "aprovação" do analfabeto no Vestibular, mostrado a todo o Brasil pelo programa "Fantástico". Colocando o "bonde nos trilhos", em meio ao devastador aproveitamento "marketeiro", o prof. Felipe lembra certas angulações, que foram "esquecidas" pela mídia, como a diversidade e o sentido plural comportados (ou que deveriam ser) por qualquer instituição de ensino, tanto mais em nosso país. Ou, como salientamos acima: uma "batalha pedagógica pela civilização", como queria Rousseau, ainda está por ser realizada.

Por fim, encerrando a obra, o universo da literatura infantil é tratado, com bastante perspicácia (a título de análise de obra da escritora Livia Garcia-Roza), em análise que pondera as distinções entre o universo do adulto e o da criança, num país, como o Brasil, marcado que é por diferenças de toda a natureza. Nesse aspecto, esquecidos, que estamos, da realidade, quando pensamos em "literatura infantil", nos ocorre sempre o mundo maravilhoso das brancas-de-neve, ou das cinderelas-com-sapatinhos-de-cristal. Mas nem sempre esse é o mundo das crianças: violência, traumas, separações constituem-se em experiências hoje vividas desde a mais tenra idade. Assim, recordando a faceta esquecida, o prof. Felipe Pena, com o olhar de um repórter, aguça nossos sentidos para uma realidade que, muitas vezes, é esquecida, nos permitindo, então, pensar outras facetas do fazer-literário.

Com a agilidade própria daqueles que dominam a linguagem da mídia, com o olhar atento e atual, o livro do prof. Felipe Pena é, no mínimo, uma aprendizagem para aqueles que estão acostumados à TV e não percebem o que se esconde atrás do veículo. Vale a pena conferir.

Texto de José Maurício da Silva

Cartas para a coluna: jmjornalista@uol.com.br