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EDIÇÃO 2 5 de setembro de 2003
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HOMENAGEM A HAROLDO DE CAMPOS

por Gilda Korff Dieguez (*)


"Mementomomentomonumental matéria evêntica desventrada do tempo"
Haroldo de Campos - "Galáxias"


No sábado, dia 17 de agosto, abrindo a página da Internet, deparei-me com a notícia do falecimento de Haroldo de Campos. Entre a perplexidade diante do acontecimento e a constatação de que a matéria havia sido colocada na coluna "Divertimento e Artes", face a face com o paradoxo, pus-me a refletir, mais uma vez, sobre o sentido da Literatura em nosso país.

"Que país é este?", já escrevia o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, verso que ecoou pelo Brasil na voz do carismático Renato Russo.

Aguardei os jornais do dia, em busca de matérias, mas pouco vi. E mais aguardei, tentando - ainda com generosa boa vontade - imaginar que a surpresa os havia deixado sem ação. Alguns foram mais generosos, dedicando análises panorâmicas (sempre superficiais), de uma página, para uma obra capaz de se confundir com a vida; outros silenciaram solenemente. Ao final de uma semana, fui obrigada a constatar aquilo que os olhos não queriam perceber: não vivemos numa "sociedade dos poetas mortos", mas numa "sociedade morta, que mata os poetas". E pus-me a lembrar do traficante Uê, também morto pouco antes, na sua condenação carcerária: ele havia sido mais contemplado pela mídia, prestimosa e empenhada no combate à violência, que dedicou ampla cobertura à matéria. E por uma cadeia associativa, pus-me a lembrar, então, que João Cabral de Melo Neto atravessou a sombra do mesmo descuido (ou será descaso?). Três nomes interligados, pela condenação. Mas os poetas nada praticaram contra a sociedade; no entanto, são condenados à sombria noite do esquecimento. Ou da ignorância.

"Que país é este?": parece ser a pergunta que não quer calar.

Talvez os mais jovens não tenham a dimensão da perda. Silenciado por longos anos, por conta das "patrulhas ideológicas", políticas ou estéticas, o nome de Haroldo de Campos nunca teve grande repercussão no Brasil, salvo no meio de uma intelectualidade seleta. Não era popular, nem queria sê-lo: a sua ânsia era a imortalidade, não o imediato deste maltrapilho cotidiano brasileiro, que chegou ao "fome zero" do conhecimento: ninguém mais "devora" livros, ninguém tem "sede" de saber. Desgraçadamente, aos poucos a nossa cultura transforma-se no frenesi abastardado do "pocotismo" também mental. O Brasil só faz demonstrar que não merece seus poetas.

Haroldo de Campos, com sua "mundigrafia", não cabia no tamanho do Brasil, assim como João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade: eram maiores. A dimensão de Haroldo está impressa em suas "Galáxias": a sua visão era infinita, na busca do plural, na elipse barroca e labiríntica do pensamento: ou, como define o título de um de seus livros, "xadrez de estrelas". Mas, como provou Einstein, infelizmente o universo é curvo e finito. E Haroldo morreu.

Grandes poetas não morrem: como dizia um outro gigante da nossa literatura, Guimarães Rosa: "ficam encantados". O encantamento, talvez, venha das palavras que deixam impressas. E assim o fez Haroldo de Campos, numa obra inesgotável em direção ao "resultado estelar" (de que tratava Mallarmé, no desafio do lance de dados poéticos), nas idéias, erudição, criatividade, invenção e ruptura. "Um Papai Noel do Sul", como o descreveu Cabrera Infante: Haroldo de Campos trazia em cada poema um presente encantatório, como costuma ocorrer no período natalino. Sim, porque os poemas são um "dever do pensamento", "uma alquimia", ou , como dizia Roland Barthes, uma "trapaça salutar": um presente à inteligência e à sensibilidade - qualidades que nos tornam humanos.
Mas o Brasil anda embrutecido pela lei da sobrevivência, aviltado pela voragem do lucros, empobrecido na cultura, corrompido pelos "podres poderes". O efeito é a miopia, a inversão dos valores, o embrutecimento e, como efeito final desta cadeia negativa, a violência imperante. E o esquecimento, o descuido, o descaso, a ignorância, o desconhecimento, o silêncio, são formas brutais de uma violência simbólica.

Haroldo de Campos, "fome de forma", nos deixa mais tristemente órfãos, na nossa "forma de fome".

(*) Gilda Korff Dieguez é Professora Titular da Universidade Estácio de Sá e possui Doutorado em Ciência da Literatura (Teoria).


Leia o resumo biográfico - Haroldo de Campos