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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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ESCREVER ROTEIRO É UMA ARTE MENOR?

Francisco Malta
Graduado 2004/1 – Campus Rebouças
Ator

Escrever roteiro é uma coisa que não tem nada a ver com literatura. Assim como nem todo cinema é arte, nem todo texto é literário. Dizem que a arte imita a vida e vice-versa. Relação de amor e ódio, portanto, essa, para alguns escritores.

O Brasil é considerado o país do folhetim, o único país em que um escritor escreve uma média de um roteiro de filme por semana, para nossas amadas telenovelas; mesmo assim, é sempre visto como menor, por escrever exclusivamente com a função de entretenimento. A telenovela foi, desde o nascimento, uma expressão popular. O mesmo não se pode dizer da literatura, que só adquiriu certa popularidade com o folhetim.

Questionado pela revista Cult sobre "O que significa escrever para as classes populares num país com tantas desigualdades, mas numa emissora na qual a Baixada Fluminense se torna um lugar aprazível?" o autor Agnaldo Silva respondeu:
"Significa não ser preconceituoso, falar sobre tudo, mas com linguagem popular. Veja, Shakespeare, que nos parece tão sofisticado, era popular! É dizer o profundo com simplicidade. É não achar que o povo é burro. Os intelectuais acham que o povo tem de ser orientado e ensinado. Eu acho que o povo não precisa disso."

Todo roteiro possui começo, meio e fim. Toda história segue um trajeto. Essas estruturas lineares não são as únicas formas de escrita que o audiovisual pode alcançar. Ao contrário, a ousadia da subversão dos códigos, misturando sonho com realidade, representa um dos fascínios dessa linguagem.

Não existe uma receita para contar uma história; cada trama é uma trama, cada narrativa exige um modelo a ser contado. Escrever, seja para cinema ou TV, exige arte, técnica e conhecimento. No Brasil, ainda não existe nenhuma escola que se destine à formação de roteiristas, embora o mercado seja cada vez mais amplo. Noventa por cento dos profissionais são autodidatas; essa falha na formação profissional é uma lacuna que sempre prejudica o resultado final.

É função do roteirista ultrapassar os limites humanos, gerando interpretações infinitas, tanto em relação à imagem quanto ao sentido de sua narrativa. Escrever não é simplesmente reproduzir idéias já pré-estabelecidas. É orgânico, algo inquieto, tanto em relação à construção das personagens, quanto à construção das falas. Por trás de uma narrativa, há uma vivência individual e uma visão de mundo que vêm à tona quando se constrói uma trama.

Quem melhor nos apresenta uma definição é Jean-Claude Carrièrre, ao declarar: "o romancista escreve, enquanto o roteirista trama, narra e descreve".

Eternizar um instante do relato em forma de imagens em movimento e, com elas, imortalizar saberes, olhares, visões para o fenômeno humano: este tem sido o papel do roteirista, seja de cinema ou da televisão. E quanto a isso, é preciso ter apenas sensibilidade.

E-mails para a coluna:
franciscomalta@hotmail.com