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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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FICÇÃO, IMAGEM E IMAGINÁRIO NA CRÔNICA DE LIMA BARRETO

Márcia Cristina Valdivia
Graduada em 2003/2 – Campus Méier
Mestranda em Literatura Brasileira - UFRJ

Lima Barreto

Resumo
É com base na literatura de crônicas de Lima Barreto que este ensaio propõe um enfoque do escritor cuja visão crítica transcenda à sua faceta de autor enquanto importante cronista do mundo urbano carioca – em que são ressaltados os valores documentais de suas crônicas – e corajoso defensor das causas populares. Ou, ainda, a insistência em enquadrar a obra de Lima Barreto segundo uma natureza biográfica, deixando-se de lado um dado importante: a ficção que permeia o seu trabalho como cronista:

Uma análise mais detalhada mostraria que as
crônicas referentes à vida no subúrbio são,
freqüentemente, próximas do ficcional,
crônicas-narrativas. São histórias nas quais
os habitantes anônimos são tratados antes
como personagens.
(Beatriz Resende)

Esse ensaio propõe uma abordagem que se dispõe ao rastreamento de uma visão ficcional das crônicas de Lima Barreto; uma busca que ressalte a composição do imaginário do escritor-cronista, num processo de escrita que envolve a crônica a partir do choque entre uma administração pública efetivamente voltada para um processo de transformação da cidade e o recurso memorialista como marca de resistência, o símbolo do não-apagamento da história. Ou seja, a instrumentação da crônica como marca de resistência, a preocupação com o escrever/ inscrever a cidade para que ela não se perca. Pois que o nosso cronista bem sabe do risco de, junto com o "desaparecimento" da cidade, esta levar consigo a identidade daquele que a habita. Assim, o cronista, sempre em estado de alerta, dispara: "De uma hora para outra, a antiga cidade (do Rio de Janeiro) desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia". (apud Sevcenko, 1989: 25).

Advém desse conflito, entre a transformação da cidade versus recuperação pela memória, uma narrativa com base no registro da imagem da cidade, mas que, no entanto, é intimamente arrebatada pelo universo imaginário do autor – pois pautada por um olhar inexoravelmente contaminado pelas vivências subjetivas do indivíduo Lima Barreto.

Seguindo nesse diapasão, ratifica-se o conceito de que "imagem e imaginário correspondem à capacidade cognitiva do homem de produzir informação em todas as suas relações sociais" (Ferrara, 2000: 118). Desse modo, desvela-se a escritura de um cronista apaixonado pela sua cidade, que estabelece tal escritura a partir de um jogo de imagens na qual se projetam as impressões subjetivas de um eu que se condói para com o outro, que, como ele, também se vê à margem do processo de "civilização" por que passa o Rio de Janeiro no início do século XX, que implica na transformação radical e vertiginosa da cidade, cujo papel é de representar o país por via de seu "panorama moderno". Ou, mais adequadamente, um simulacro da cidade moderna – porque cenário de um Rio de Janeiro moderno ajustado compulsoriamente ao molde europeu da belle époque, incidindo num esquema equivocado de um modelo de modernidade ajustado "no modernismo do subdesenvolvimento" (Marshall Berman, 1986: 186). Idéia que se harmoniza com o comentário de Renato Cordeiro Gomes:

Depois de consolidada a república, assiste-se no início deste século a um aceleramento sem precedentes do ritmo de vida da sociedade carioca e à implementação do projeto modernizador da capital federal. [...] Era preciso construir um palco ilusionista para representar os tempos modernos com todos os seus aparatos [...] O Rio, assim, civilizava-se sob patrocínio do poder, das elites aburguesadas. [...] Acompanhar o progresso significava colocar-se no mesmo paradigma dos padrões e ritmos da economia européia.
(Gomes, 1994: 104).

Nesse processo de modernização "pelo alto" – em que o progresso social do povo brasileiro se faz mediante um reformismo que exclui inteiramente a participação popular – é que se insere a crônica de cunho crítico de Lima Barreto, que não suprime o elemento ficção do seu texto (se refletirmos sobre a questão da subjetividade do olhar na formação do imaginário do autor, no que tange à reprodução da imagem do espaço urbano). Uma composição na qual vemos a produção de um texto em que o povo atua como personagem:

O texto eventualmente toma a feição de crônica-narrativa, geralmente versões criadas de um fato real, ou ainda de crônicas-depoimento, espécie de memórias do dia-a-dia, e algumas crônicas-poéticas, criadas a partir da visão das ruas ou da natureza da cidade que o flâneur contempla. (Resende, 1993: 98).

Caricatura de Lima Barreto

Diante desse quadro, faz-se bastante oportuna a remissão ao texto de Lucrecia D'Alessio Ferrara, no qual ela trata do tema da cidade amalgamado aos fatores imagem e imaginário, ao dizer que "o significado criado pela unidade imagem/imaginário não é outro senão a real percepção da experiência urbana travestida no uso do espaço e seus lugares". (Ferrara, 2000: 117) – ou seja, é a percepção do real em consonância com um sentimento subjetivo, produto de uma vivência que subordina a imagem (o fato) ao imaginário (a maneira singular como o cronista vê e descreve esse fato).

Nesse contexto, figura a imagem de uma sociedade elitista, que é rechaçada pelo escritor, conforme mostra o fragmento abaixo retirado da crônica "O Trem dos Subúrbios":

Quando há mais de vinte anos fui morar nos subúrbios, o trem me irritava. A presunção, o pedantismo, a arrogância e o desdém em que olhavam as minhas roupas desfiadas e verdoengas, sacudiam-me os nervos e davam-me ânimos de revolta.(Barreto, 1961: 245)

Ou, ainda, a viagem do imaginário de Lima Barreto que transita por caminhos oníricos, captados, por exemplo, na composição do autor, de um quadro impressionista a partir do acesso daquele a um álbum de desenhos:

Nas mãos de um amigo e em casa dele, certa ocasião vi um álbum de desenhos [...] Dos desenhos, aquele que mais me feriu e impressionou, foi o que representa um carro de segunda classe [...] Aquelas caras tristes, tangidas pela miséria, oprimidas pelo exaustivo trabalho diário; aquele cachimbar de melancolias [...] O que me impressionou mais, foi toda a ambiência de resignação perante a miséria, o sofrimento e a opressão que o trabalho árduo e pouco remunerador traz às almas. (Ibidem: 242).

É válido, ainda, ressaltar a presença do binômio imagem/ imaginário na crônica de Lima Barreto, por via do desmascaramento direto do embuste da cidade moderna – cujo modernismo de fachada se dá através de uma política que prega o "bota-abaixo" como panacéia para os males sociais:

Essas gentes novas, e o espírito frívolo delas, que têm ultimamente invadido este meu Rio de Janeiro, vão aos poucos, matando o que ele tinha de verdadeiramente belo. À parte a violação da natureza, grandiosa, majestosa [...] pode-se ver nas suas novas construções como esses adventícios e o seu feitio mental se apartam da terra em que elas se erguem ou são mandadas erguer. [...] O que não se faz com o tempo, o tempo nunca ou quase nunca respeita... (Barreto, 1961: 93).

A "crônica-crítica" de Lima Barreto, em geral, registra a cena obscena; o enfoque da urbe que se moderniza e que quer ocultar a realidade de uma cidade composta por trabalhadores e pobres – estes constituindo o quadro de desvalidos do poder público.

A reforma que o então prefeito Pereira Passos copia do modelo parisiense – implantada por Georges-Eugène Haussman, prefeito de Paris, entre 1853 e 1870 – visa exclusivamente atender às questões políticas, sem nenhuma preocupação de estruturação social que ampare o cidadão comum, o povo:

Era preciso [...] findar com a imagem da cidade insalubre e insegura, com uma enorme população de gente rude plantada bem no seu âmago, vivendo no maior desconforto, imundície e promiscuidade [...] Somente oferecendo ao mundo uma imagem de plena credibilidade era possível drenar para o Brasil uma parcela proporcional da fartura, conforto e prosperidade em que já chafurdava o mundo civilizado. [...] Acompanhar o progresso significava somente uma coisa: alinhar-se com os padrões e o ritmo de desdobramento da economia européia .(Sevcenko, 1989: 41)

E é justamente esse desinteresse afrontoso do poder governamental que Lima Barreto não perdoa. Deste modo, ele elabora, a partir de um olhar oblíquo, uma escrita que se destaca pelo fator imaginário – permeada pelo trinômio bizarro, ironia e linguagem ferina, no qual todos esse elementos têm, entre outras, a missão de realçar, pelo ridículo, a condição de caos e abandono dos subúrbios por parte do público:

O Senhor doutor Carlos Sampaio é um excelente prefeito, melhor do que ele só o Senhor de Frontin. [...] Para mim, Sua Excelência é um grande prefeito, não há dúvida alguma; mas de uma cidade da Zambézia ou da Conchinchina. [...] Vê-se bem que a principal preocupação do atual governador do Rio de Janeiro é dividi-lo em duas cidades: uma será a européia e a outra, a indígena. [...] dia pela manhã, quando vou dar meu passeio filosófico e higiênico, pelos arredores da minha casa suburbana tropeço nos caldeirões da rua principal da localidade de minha residência, rua essa que foi calçada há pelo menos cinqüenta anos [...] Lembro-me dos silhares dos caminhos romanos e do asfalto com que a Prefeitura Municipal está cobrindo os areais desertos de Copacabana . Por que será que ela não reserva um pouquinho dos seus cuidados para essa útil rua das minhas vizinhanças, que até é caminho de defuntos para o cemitério de Inhaúma? Justos céus! (Barreto, 1961: 116)

Em suma, cidade, imagem e imaginário interagem na crítica da obra de Lima Barreto através da concepção de seus julgamentos, que se apresentam numa linguagem formal incomum, assinalada pelo desvio da regra geral, com o abandono das formas clássicas. É a essa visão peculiar, marcada pela captura da imagem e sua transformação em um texto ficcional trabalhado pelo imaginário – dada a visão peculiar com a qual o autor nos informa as ocorrências políticas e sociais da cidade – que se deve a originalidade excepcional da crônica literária do autor. Seu deslocamento formal é configurado por uma expressão literária genuinamente singular, que tem como meta atingir uma crítica social de caráter popular e, ao mesmo tempo política em tempos de austeridade. Lima Barreto ratifica seu brilhantismo crítico por denotar claramente uma conscientização quanto ao caráter equivocado do pensamento político brasileiro da época.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETO, Lima Feiras e Mafuás. In: BARBOSA, Francisco de Assis (Org.). Obras de Lima Barreto. 2ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1961.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

COUTINHO, Carlos Nelson.. In: O significado de Lima Barreto em Nossa Literatura _____ Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre idéias e formas. BH: Oficina de Livros, 1990, pp. 69-115.

FERRARA, Lucrecia D'Alessio. Os significados urbanos. São Paulo: EDUSP/FAPESP, 2000, pp. 115-131.

GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana.
Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. RJ: Ed. UFRJ; Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.

SEVCENKO, Nicolau. "A inserção compulsória do Brasil na Belle Époque". In: _____ Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 3ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1989, pp. 25-77.

Endereço para correspondência:
mvaldivia@ig.com.br