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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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ALESSANDRO MANZONI - OBRA

Profª  Gilda Korff Dieguez
Professora titular e coordenadora do projeto Rede de Letras

Alessandro Manzoni

Alessandro Manzoni permaneceu afastado da polêmica entre os neoclássicos e românticos. Por outro lado, a sua teoria sobre a verdade poética o havia levado a um impasse, com o rigor lógico e moral, do qual ele só consegue sair desligando-se da poesia e recolhendo-se na historiografia, ao que foi adquirindo gosto graças à influência de Claude Fauriel. Assim, tendo colocado a religião católica como "ponto de partida e término de todas as questões morais" (carta a D. Saluzzo), Manzoni teve como fonte de motivação dois grandes temas: a própria religião e a História.

Escritos religiosos

Inicialmente, Manzoni dá início a uma composição de doze "Hinos" sacros, para celebrar as festividades do ano litúrgico. Deles só publicará quatro, em 1815: "La Resurreizione", "Il nome di Maria", "Natale" e "La Passione". Mais tarde, em 1822, publicaria "La Pentecoste". Embora o gênero não tenha sido novo, a produção serviu para que o escritor abandonasse a produção precedente e ao lirismo próprio da literatura italiana, desde Petrarca, voltando-se para uma visão objetiva, marcada pela alternância entre os planos humano e divino, isto é, com uma dúplice representação da realidade, que irá marcar a estrutura de suas obras futuras. Não há, porém, traços de misticismo, alheios ao espírito do escritor.

A escrita de "La Passione" foi interrompida pelos acontecimentos políticos de 1814 e 1815, fazendo com que Manzoni voltasse o olhar para a História, como ela se desenrolava. Assim, escreve a ode "Março de 1821", onde coloca o tema patriótico na perspectiva cristã do julgamento de Deus, protetor dos povos e inimigo dos usurpadores. Falta ao poema, no entanto, a análise dos acontecimentos, já que obscuros e imprevisíveis.

A ode "Il cinque maggio" ("O cinco de maio"), escrita em três dias, quando é anunciada a morte de Napoleão, traduz uma meditação sobre um destino excepcional de um homem, não tendo o caráter de celebração épica sobre fatos memoráveis. Enquadra-se, pois, como mais uma manifestação divina na intervenção da História. Para alguns, como Sthendal, "uma obra-prima", a ode fez com que o autor fosse conhecido por toda a Europa, embora ele próprio a ela fizesse grandes censuras, pelo estilo.

Após superar a crise por que atravessara em 1817, Manzoni escreveu "Observações sobre a moral católica", na qual condena a obra do escritor Sismondi, para quem a decadência espiritual dos italianos, após a experiência das "Comunas", teria sido a influência da moral e da religião católicas. Abrindo uma polêmica cortês, Manzoni produziu uma obra considerada "medíocre", com o único mérito de tentar conciliar a razão e a fé, as "Observações", no entanto, servirão como uma prévia do que irá desenvolver posteriormente em sua obra, principalmente no tocante à temática do dinheiro e da tirania, a violência e a maledicência.

A história como instrumento

Entre 1816 e 1819, Manzoni escreve "Il conde di Carmagnola", uma tragédia sobre um "condottiere" do século XV, durante o período de ocupação e de guerras em Veneza. Apesar da visão histórica equivocada, o interessante da peça é o lugar que o autor reserva para si mesmo (à feitura de Schlegel) entre os atores, a fim de sublinhar o sentido da ação e de corrigir as interpretações dos espectadores. Esse procedimento de tutela sobre o espectador aparecerá, mais tarde, em seu romance, sob a forma de ficção de um autor anônimo.

Mais tarde escreveu "A Carta" – escrita em francês e publicada em 1823, na verdade essa carta responde a Victor Chauvet, que formulara críticas à sua peça teatral, baseando-se no abandono das unidades de tempo e espaço. Anterior ao famoso "Prefácio de Cromwell", de Victor Hugo, a "Carta" contém vários elementos importantes, tais como a defesa de uma poesia, tendo como objeto a "verdade histórica" (e não a "invenção de fatos", por ele considerado o que há de vulgar no trabalho do espírito humano), defendendo o papel de que a poesia deveria tratar daquilo que "foi mais ou menos silenciado pela história". Do mesmo modo, Manzoni defende a idéia de que a poesia deveria se dirigir a um público maior que o das classes privilegiadas, restabelecendo a história dos que foram omitidos pela historiografia oficial, a "multidão esparsa e sem nome".

Essa tendência de evocar os humildes também estará presente em "Adelchi", peça teatral composta em 1820, que seria publicada dois anos mais tarde. Baseado nas pesquisas históricas de Fauriel e Augustin Thierry sobre a história medieval, a peça se baseia no antagonismo insolúvel de raça e classe entre os povos conquistadores e as populações subjugadas: enquanto estes constituiriam a burguesia, os outros, conquistadores, a aristocracia. A ação tem por cenário a guerra travada entre Carlos Magno e Desidério, rei dos lombardos, que sucumbe ante as tropas carolíngeas. O protagonista é Adelchi, filho do rei, e, em meio a traições e covardias, ele é o único a prever a catástrofe dos lombardos, por ter consciência da injustiça da causa que defende, em fidelidade ao pai. Tanto ele como Ermengarda (esposa reudiada de Carlos Magno) encontrarão a morte como libertação do mundo repleto de violência: serão eles os humildes, simbolicamente, que não encontram a felicidade no mundo.

A peça, celebrada por Goethe (juntamente com a outra tragédia escrita por Manzoni e sua "Carta") como "o nascimento de uma nova escola dramática", foi a última do autor, que então passou a se dedicar a seu romance, iniciado em 1821, quando, tentando fugir da atmosfera de Milão, recolhera-se a Brusaglio, levando consigo "A história de Milão", de Ripamonti (um autor do século XVII), os tratados de economia de Gioia e os romances de Walter Scott.

O romance

Escrita entre 1821 e 1823, mas não publicada na época, a primeira versão do romance tem por título Fermo e Lucia, nome dos dois protagonistas. Mais tarde, Fermo tornar-se-á Renzo. Em 1824, Manzoni recomeça a trabalhar a obra, terminando a segunda versão em 1827, publicando-a imediatamente. Pouco depois, faz uma terceira versão, mais minuciosa em termos formais, baseado no que ele considera a "verdadeira língua italiana": o dialeto da classe média florentina. Essa última revisão irá se concluir apenas em 1840.

O romance se baseia em um manuscrito anônimo do século XVII, dando continuidade ao que ele defendera na "Carta": uma obra em que a invenção complete a história, sem com ela, contudo, estabelecer concorrência: uma "epopéia dos humildes", como foi denominada. "Promessi sposi" não é uma obra de pura diversão, pois Manzoni excluía a possibilidade lúdica da arte: a sua construção atende ao modelo da busca da verdade.

Os protagonistas da narrativa são dois camponeses iletrados e a ação se desenrola entre 1628 e 1632, na Lombardia, sob dominação espanhola. Os noivos, que não puderam casar por conta de um impedimento gerado por um fidalgo de província, devasso e tirânico, vão vivenciar uma série de aventuras dolorosas, obrigados a fugir e a separarem-se. Quando toda a perspectiva do reencontro estaria distante, uma epidemia de peste, acrescida de outras calamidades históricas, como a fome e a guerra, elimina o perseguidor, permitindo aos noivos, finalmente, o enlace.

Para Renzo, a ação desencadeará um percurso itinerante, da cidade ao campo, assumindo um caráter de perda de identidade e de raízes, que determina uma crise dos valores passados, ou de uma promessa libertária de mudança do status social. Apesar da trama, o romance não é uma representação literária do amor. Ao contrário, Manzoni concentra-se nos episódios sociais, de natureza historiográfica, analisando-os e sobre eles dissertando. Na verdade, os protagonistas tentam, no próprio terreno da ação, decifrar a história, embora impedidos pela pouca instrução: enquanto Lucia mantém sua fé cega na Providência, Renzo retira alguns ensinamentos de sua aventura.

Os noivos é um romance em que o leitor não tem livre acesso à imaginação, já que o autor "regula" a ação e a ilusão, obrigando-o, igualmente, a focar o seu presente histórico (não apenas o da ação narrativa do romance). São muitos os episódios, de maior ou menor monta, que dão à obra um caráter de "poema da loucura humana", como também foi classificada a obra. A forte ironia manzoniana para com os fracos e medíocres, associada a uma visão ideológica progressista, permitiu que essa obra fosse objeto de estudo por parte de Gramsci, o famoso ideólogo italiano, nela realçando a atualidade.

Com Os noivos, a obra de Manzoni praticamente se encerra. Recolhido à historiografia, renunciando à poesia, o escritor escreve depois Del romanzo storico e in genere de componimenti misti di storia e d'invenzione (escrito a partir de 1839), em que defende o predomínio da verdade histórica. Em 1829, começara a sua Storia della colonna infame, publicada em 1832, em que Manzoni reconstrói os mecanismos que levaram dois juízes, em Milão, em 1630, a condenarem ao suplício dois inocentes, como propagadores da peste.

Nos seus últimos anos de vida, Manzoni voltou à história, com o ensaio La rivoluzione francese del 1789 e la rivoluzione italiana del 1859, que ficou inacabado, tendo sido publicado em 1889, tentando demonstrar que o papado não foi o elemento da desintegração italiana. Seus derradeiros anos foram dedicados à filologia, tendo como objeto a "questão da língua", debatida na Itália desde o Renascimento, em que preconiza o emprego do toscano, como língua oficial. Desta forma, Manzoni deu sua contribuição à unificação italiana, por haver percebido que a uniformização da língua seria um elemento importante para a realização da unidade política italiana, que viria pouco depois.

Trecho de "Storia della colonna infame", publicada em 1832.

"(...) O barbeiro Giangiacomo Mora preparava e vendia um unguento contra a peste; um dos mil específicos que tinham e deviam ter crédito, enquanto fazia tal matança um mal de que não se conhece o remédio, e num século em que a medicina ainda aprendera tão pouco a não afirmar, e tão pouco ensinara a não acreditar. Poucos dias antes de ser preso, Piazza havia pedido esse unguento ao barbeiro; este prometera que iria preparar-lho; e tendo-o depois encontrado no Carrobio, na manhã do mesmo dia em que foi preso, dissera-lhe que o pote já estava pronto, e que fosse buscá-lo. Pretendiam de Piazza uma história de unguentos, de conluios, da Via della Vetra: aquelas circunstâncias tão recentes serviram-lhe de matéria para compor uma: se se pode chamar compor o associar a muitas circunstâncias reais uma invenção incompatível com elas.

No dia seguinte, a 26 de junho, Piazza é conduzido perante os inquiridores, e o auditor intima-o: Que diga de acordo com o que extrajudicialmente me confessou a mim, e também na presença do Notário Balbiano, se sabe quem é o fabricante dos unguentos, com os quais tantas vezes se encontraram ungidas as portas e as paredes das casas e as fechaduras desta cidade.(...)"

Tradução de José Colaço Barreiros

NOTA:
Conforme já enfatizamos, nesta obra de Alessandro Manzoni, a história trata do relato de um assassinato judiciário: dois inocentes foram condenados, por juízes de Milão, ao suplício, por terem sido acusados de haverem propagado a peste. A obra reforça a tese da responsabilidade total dos indivíduos, que não pode ser atenuada pelo álibi das falhas das instituições ou pelo condicionamento histórico.

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