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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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A QUE PONTO CHEGOU A MÚSICA?

Alexandre Coleti
Aluno do 1º período de Letras – Campus Rebouças
Músico

Platão nos mostra a fundamental importância que a música possuía na construção – e edificação – integral da alma das pessoas. Na construção da sua República, ele chega à conclusão de que os cidadãos, sobretudo os futuros guerreiros e guardiões da cidade, ainda crianças, deveriam ser criados, instruídos e educados pela música, juntamente com a ginástica. Ou seja, a música como fator doutrinador, objetivando explorar profundamente o ser, e trazer consigo toda sensibilidade à tona, em contraste e complemento à coragem e dureza adquiridas pela ginástica.

À época já se dizia que uma alma boa, pela sua excelência, permite ao corpo ser o melhor possível, chegando à perfeição. A educação pela música era sinônimo de uma vida harmoniosa e mais respeitosa para com o próximo, com a natureza. À música atribuía-se inclusive o "poder" de tornar uma pessoa dita "inútil e rude" em uma pessoa proveitosa e doce, assim como quem amolece ferro. Segundo reza a mitologia grega, conta-se que o deus Museo, filho de Eumolpo, de tão grande musicista que era, quando tocava chegava a curar doenças.

Um outro ponto significantivo, que merece nota, é a música-arte, instrumento da mímesis e da catarse, baseada nos fundamentos aristotélicos, e, portanto, uma valiosa forma de conhecimento. Imputa-se à música como sendo um dos mais ricos meios de se representar e/ou imitar o mundo real, ou ao menos considerá-la a mais completa das formas de expressão da arte, pois é a única que consegue reunir, ao mesmo tempo, os três elementos: a linguagem, o ritmo e a harmonia.

Ainda no que toca à música-arte, e sua notória contribuição, remetamo-nos ao período marcado pelos grandes compositores clássicos, transgressores por excelência, com suas magníficas sonatas, sinfonias e óperas. O classicismo foi um período marcado pela criação da música como uma arte abstrata – período esse em que a maior preocupação era em dar à música pureza total, alcançando-se o prazer no simples ato de ouvi-la. A perfeição da forma era tida como ideal estético, que era atingida por meio da abstração completa dos artistas, resultando em composições primorosas e atemporais, perpetuadas para todo o sempre. Portanto, é inegável a impossibilidade de uma comparação com o cenário atual no qual a música se encontra. Refiro-me à música e sua funcionalidade, no que tange à educação, ao social, à reflexão, e, por que não, ao crescimento espiritual.

A música perdeu quase todo seu valor cultural e educacional; basta dizer que foi praticamente extinta a disciplina de música das grades curriculares das escolas. E a culpa é de quem?

Hoje, infelizmente, presenciamos a sua total banalização: a música sintonizada na maioria das rádios e, também, a mais vendida nas lojas – escutada pela maioria dos nossos jovens – atinge as diversas camadas da sociedade, não pertencendo somente à mais desinformada, ou se preferir, desprivilegiada (isto mostra o seu crescente poder de atuação). Com isso, a música transformou-se em um eficiente produto de manipulação social. Sendo assim, tende a nivelar a população por baixo, com uma música adaptada, condensada e de fácil assimilação, quando não vulgar. Tão raramente traz algo de novo, mas talvez isso aconteça não por falta de tentativas ou inexistência, e, sim, pela falta de interesse e ética por parte das gravadoras, pois a música em si, e todo music business, como próprio termo em inglês traduz bem, virou produto de consumo – puro negócio. O mercado fonográfico é de um nepotismo vergonhoso. Desgraçadamente, a nossa música vem sendo severamente castigada, destacam-se as "éguinhas", os "tigrões", as "popozudas" (?), dentre várias outras espécies e personalidades. Pode até soar como galhofa, mas é a mais crua realidade.
Resta aos apreciadores da boa música viverem seus momentos de profunda nostalgia, daqueles tempos bons que não voltam mais.


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alexandrecoleti@aol.com