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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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QUASE DOIS IRMÃOS

Lise Bianchini
Aluna do 5º período de Letras – Campus Rebouças
Professora de inglês

Na comemoração dos vinte anos do fim da ditadura, alguns filmes me chamaram a atenção. O primeiro deles, Quase dois irmãos, com argumento, produção e direção de LÚCIA MURAT, levantou algumas questões importantes para serem pensadas. A discrepância do poder aquisitivo, a sociedade de exclusão, universos bem díspares que dialogam através da música, a indiferença civil de hoje são algumas das questões: uma proposta que alegrou os mais politizados e outros pela bela montagem, fotografia e escolha de locações e de elenco.

Embora haja um campo de contato com a arte via música, o diálogo é frágil e mesmo numa época de resistência e tentativa de unificação social, as classes não se misturavam. Qual seria a motivação de uma garota de classe média alta, moradora da zona sul, em freqüentar bailes funk e alimentar um envolvimento afetivo com traficantes? Segundo a Ana Flor que representa a personagem Juliana, transgredir.

Fomos brindados com a pré-estréia organizada pelo departamento de Cinema da Estácio de Sá, campus Rio Comprido. Com lotação esgotada e um público participativo, o debate contou com a presença da diretora LÚCIA MURAT, os atores Renato Souza, Ana Flor, Flavio Bauraqui e o crítico de cinema Marcelo Augusto.

Lançado também, recentemente, Bom dia Noite, italiano, com direção de produção LUIGI LAGRASTA, traz um outro ângulo do mofo e bolor da ditadura. Através de um personagem, o escritor aponta a arte como saída da opressão. Ingmar Bergman, em O sétimo selo, de lirismo ótico e densidade mais expressionista, já havia apontado para esse caminho.

Vivemos hoje a ditadura financeira e a opressão social de forma visceral. Um retrato fiel dessa situação pode ser visto a qualquer hora nas ruas da cidade. Um levante tecnológico que culminou na mais alta perversidade e alienação. Relacionamentos superficiais, que pouco saem da esfera do consumo, identidades fragmentadas, articulações tantas que mal sabemos o que as pessoas são ou em que realmente acreditam. A letargia afetiva e o vão que reina nesse abismo existencial ficaram lindamente narrados no filme Irmãos, do Francês Patrice Chéreau, com uma temporalidade mais reflexiva, retratando também o fim da intimidade. O cinema tem algo que me fascina: autonomia de narrativa. Poucos fazem, com tamanha maestria, poesia através da câmera que devora os sentidos, ambientando o espectador em um monólogo interior através de imagens encadeadas em que o espaço reflexivo repleto de discurso metonímico vai sendo absorvido.

A queda – as últimas horas de Hitler (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel, deixou a desejar no plano conteudístico e aflora no plano formal. Como toda construção estética, se digna a uma construção ética, o lócus dialoga na horizontal com o pathos. Devo dizer que violência com espetáculo pouco me fascina, além de deixar o espectador com a ilusão de imortalidade, visto a banalização da morte em detrimento do Ser simbólico. Muito bem montado, atores de valor, mas uma proposta meramente repetitiva.

As pré-estréias vêm sendo freqüentadas cada vez mais por um público ávido de conhecimento, na contramão de quem desacredita do potencial da massa. Fico feliz em constatar esse interesse crescente pela Sétima Arte e aguardo ansiosamente o próximo evento organizado pelo departamento de Cinema da Estácio.

Imagens de "Quase Dois Irmãos"

Ficha Técnica

País:
Brasil

Ano:
2005

Duração:
102 minutos

Estúdio:
Taiga Filmes, Videofilmes e TS Productions.

Distribuição:
Imovision

Direção:
Lúcia Murat

Roteiro:
Lúcia Murat e Paulo Lins

Produção:
Aílton Franco e Branca Murat

Música:
Naná Vasconcellos

Fotografia:
Jacob Sarmento Solitrenick

Edição:
Mair Tavares

Elenco:
Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Shünemann, Antônio Pompeo, Maria Flor, Fernando Alves Pinto, Babu Santana, Renato de Souza, Marieta Severo, Luís Melodia.

E-mails para a coluna:
teacher8@globo.com