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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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PADRE VIEIRA, POR ALFREDO BOSI

Maria Paula Seixas da Silva
Aluna do 5º período de Letras - Campus Niterói

Alfredo Bosi

Padre Antônio Vieira

Trabalho que toma por base o texto "Vieira ou a cruz da desigualdade". In BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. O que falaremos aqui diz respeito, mais precisamente, às páginas 127 (iniciando no terceiro parágrafo) a 134 (até o terceiro parágrafo).

Nessas páginas, Alfredo Bosi fala dos sermões, que são tomados para análise dos ideais do padre jesuíta Antônio Vieira. Primeiramente, é importante falarmos dos seus sermões. Assim, observemos o que Celso Pedro Luft, em seu Dicionário de literatura portuguesa e brasileira, diz:

"Entre os sermões de Vieira, monumento maior da Literatura Barroca, merecem destaque: o sermão pelo Bom Sucesso das Ramas de Portugal contra as de Holanda (1640), 'o mais veemente e extraordinário que jamais se ouviu em púlpito cristão' (Pe. Raynal); o Sermão do Mandato (1650), sobre o amor místico de Cristo, um dos mais formosos e perfeitos da língua portuguesa; o Sermão de Santo Antônio aos peixes (1654), documento da imaginação criadora e do poder satírico de Vieira, simbolizando os vícios dos colonos maranhenses em peixes como o pregador, o voador, o polvo; o Sermão da Sexagésima (1655), violentíssimo libelo contra a linguagem gongórica ou cultista, e em particular contra a dos rivais dominicanos (especialmente Frei Domingos de S. Tomás)". (LUFT, 1967: 396)

Os seus sermões possuem uma estrutura clássica, segundo também Luft, que explica, maravilhosamente bem:

"A estrutura dos sermões é clássica; tema, texto bíblico a servir de base à peça; intróito, exposição do plano; invocação, geralmente a Nossa Senhora; argumentação, corpo ou desenvolvimento da matéria segundo o plano prévio, com reforço de 'exemplos', sentenças (principalmente da Bíblia e dos Santos padres); peroração, ou conclusão". (LUFT, 1967: 396)

E, por fim, a respeito dos sermões, pode-se notar a simplicidade, clareza, fluência, originalidade e rica imaginação presente nos mesmos. E a simplicidade foi marca constante do pregador, como ele mesmo afirmava:

"Se gostas de afetação e pompa de palavras, e do estilo que chamam culto, não me leias! (...) valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido' (no Prólogo do Autor, que abre os Sermões). 'Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo: muito distinto, muito claro' (do Sermão da Sexagésima)." (LUFT, 1967: 397)

Vieira foi um gênio do Barroco, pois exprimiu, genialmente, a sua época. O seu sermonário e as suas cartas são a suma de seiscentos? Seus costume, suas idéias, anseios e preferências, ambições e desenganos, glórias e humilhações, tudo isso aí está portentosamente expresso por esse mago verbal, um dos maiores mestres da língua, se não o maior.

Dizemos acima que Vieira foi um gênio do Barroco, assim é relevante falarmos sobre esse movimento que se deu na arquitetura, nas artes plásticas, nos efeitos teatrais da escultura, na música e na literatura, que é o nosso estudo aqui. Assim, segundo, a Enciclopédia Barsa:

"A palavra 'barroco', de origem portuguesa, foi aplicada à arte do século XVII ou, mais exatamente, à arte produzida no Ocidente entre a última década do século XVI e a primeira metade do século XVIII. O barroco foi uma reação contra o espírito renascentista, impregnado de clareza e ordem, e ocorreu logo após o aparecimento do maneirismo, que de certo modo o anuncia. Levado a suas últimas mais exuberantes conseqüências, toma o nome de rococó, estilo contra o qual reagiria, em fins do século XVIII, o neoclassicismo." (BARSA, V. 2, 1997: 355).

Em relação ao padre Antônio Vieira, a Enciclopédia Barsa diz:

"A religiosidade de Vieira é medieval, mas sua consciência é pós-renascentista, atenta aos fatos econômicos e políticos. Essa contradição imprime força e interesse a seu estilo, em que as tensões entre os mistérios originais e a demonstração racional o tornam um dos modelos mais fascinantes da literatura barroca. (...) Nesses dois gêneros a matriz estilística é a mesma, e a linguagem resultante se caracteriza pelas mesmas qualidades de exatidão, propriedade, elegância e destreza no jogo de palavras. A um tom geral de grandeza e acrescenta sempre funcionalidade". (BARSA, V. 14, 1997: 378).

Bosi reflete sobre o conceito de universalismo, que se divide: primeiro, em um sistema nacional-mercantil, o que podemos relacionar a Vieira como um homem político, isto é, um homem de estado; e, segundo, o universalismo como proposta de fraternidade contidas no Evangelho, associando a Vieira como um homem religioso, que ele era. No sistema nacional-mercantil estava firmado que todos tinham que pagar impostos, pois como as propostas de fraternidade contidas no Evangelho pregavam, todos eram iguais perante Deus, e que serão medidos pela mesma medida. E, Vieira ainda faz uma analogia dando o exemplo da chuva, que cai para todos sem fazer distinção, isto é, da mesma maneira como o celeste trata e olha os que aqui na terra estão. E podemos comprovar o que fora dito com este trecho: "A analogia com os fenômenos cósmicos? A chuva que cai igualmente sobre os justos e injustos? Conduz Vieira a um singular desdobramento do exemplo escolhido." (BOSI, 1992: 128)

Alfredo Bosi mostra que podemos observar o quão Pe. Vieira utilizava o discurso indireto para falar, fazendo uso de metáforas:

"Entra, a partir da última frase, uma severa advertência, quase uma ameaça aos grandes deste mundo: 'O que importa é que os montes se igualem com os vales, pois os montes são a quem ameaçam principalmente os raios, e reparta-se por todos o peso, para que fique leve a todos'". (BOSI, 1992: 129)

E esse grande orador sacro tenta através disso alertar aos nobres, como se pode comprovar com este trecho de Bosi: "Vieira, contrapondo a justiça de cima à injustiça de baixo, não só afirma que a lei da igualdade é superior ao acaso da desigualdade, como exorta os homens a mudarem o estado em que vivem, abandonando 'o que são para chegarem a ser o que devem'".(BOSI, 1992: 129).

Bosi segue refletindo sobre o discurso utilizado por Vieira, o que comprova o quanto ele pregava pela igualdade entre os homens; fato observável neste fragmento do próprio Vieira utilizado por Bosi para comprovar o que fora dito a respeito do discurso utilizado pelo padre jesuíta: "Deixem de ser o que são, para serem o que é necessário, e iguale a necessidade os que desigualou a fortuna." (BOSI, 1992: 130).

Em seu texto "Vieira ou a cruz da desigualdade", Bosi ressalta a importância de observarmos o valor filológico das palavras utilizadas por Vieira, isto é, saber o valor delas na época em que foram empregadas; o que podemos constatar com o conceito da palavra 'povo' que mudou ao longo do tempo, assim para compreendermos bem a mensagem desse grande escritor luso-brasileiro é imprescindível e necessário estarmos atentos para essa questão. Observemos como Bosi discorre sobre esse ponto:

"Para ler com exatidão filológica a passagem acima, é preciso perguntar, antes de mais nada, o que Vieira entendia pelo termo 'povo', ou, mais especificamente, por Terceiro Estado. A consulta a outros sermões seus pregados em Portugal dá uma resposta ampla quanto à extensão do conceito; e negativa, quanto à sua compreensão." (BOSI, 1992: 130).

Bosi reflete sobre a idéia de Vieira em relação à grande ostentação praticada pela Igreja e pelos sacerdotes: "Protestos semelhantes Vieira os lança contra os sacerdotes que adornam os templos de Lisboa com ouro, prata e gemas preciosas, quando, dentro e fora desses teatros de pompa, a vida não concorda com a crença; antes, desmente-a e a destrói".(BOSI, 1992: 132). Vieira diz que "É fé morta, mas embalsamada" (BOSI, 1992: 132), o que nos leva a pensar que, segundo Vieira, para se ter fé não se necessita de riquezas materiais. E Vieira diz que algumas coisas são pura ilusão.

E muita ostentação se reduz a nada quando não há o primordial, o essencial, que é a fé, como se observa neste fragmento: "As alegorias barrocas da Glória, que o palácio e a catedral ostentam em toda a sua magnificência, esvaziam-se de qualquer significado religioso quando representam apenas a opulência iníqua, e não a fé cujos poderes pretendiam exaltar" (BOSI, 1992: 132).

"A velha proposta escolástica da justiça distributiva aqui reforça taticamente as lutas do estrato mercantil, judaico ou não, mas também adverte aos detentores do privilégio que o trabalho das mãos estava sendo tão explorado quanto no regime da servidão". (BOSI, 1992: 134). Nessa passagem vemos que Vieira prega a universalidade, e a não observância da procedência do capital.

Logo, podemos concluir que Vieira condena o dinheiro vindo da exploração do Terceiro Estado, porém apóia a relação mercantil entre judeus ou não, isto é, dinheiro de procedência de não-cristãos, como a Inglaterra e a Holanda estavam fazendo, pois sem isso Portugal estava perdendo excelentes oportunidades de negócios, ou seja, de crescer economicamente.

BIBLIOGRAFIA:

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário de literatura portuguesa e brasileira. Porto Alegre: Globo, 1967.

Nova Enciclopédia Barsa. Encyclopaideia Britaninica do Brasil Publicações Ltda.
Rio de Janeiro. São Paulo, 1997. V. 2 (p. 355) e V. 14 (p.378).

Endereço para correspondência:
mariapaulaseixas@hotmail.com