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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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"ELE ME BEBEU"

Felipe Coelho da Costa
Aluno do 2º período de Letras - Campus Rebouças

Análise do conto de Clarice Lispector "Ele me bebeu"

No conto "Ele me bebeu", percebemos que Aurélia e Serjoca não possuem sobrenome, enquanto Affonso possui, que é "Carvalho". Vivemos em uma sociedade de "castas" e uma das formas de se ter uma posição social é ter um sobrenome respeitado. Affonso era industrial, possuía capital. Não são citadas as ocupações de Aurélia. Serjoca era maquilador, profissão um tanto quanto marginalizada, profissão que a sociedade associa a homossexuais. Aliás, o fato do nome de Serjoca ser no diminutivo pode significar que ele é um dos menores, é um oprimido. Ele é avarento (o texto diz "Era duro para soltar dinheiro") e não tinha maneiras refinadas, atrapalhando-se ao comer o scargot e as ostras, que são refeições tidas como "sofisticadas". Claro que todos esses conceitos são extremamente relativos: só têm significação se imersos em uma sociedade capitalista.

Aurélia tinha calos. Os calos são metáforas da prisão. Os pés ficam presos, apertados e acabam por "calejar". Os calos não aparecem, mas incomodam um bocado. Assim é a libido, a pulsão sexual. Aurélia tem uma pulsão sexual latente. Deseja Affonso pela sua "cara máscula", mas é prisioneira de si mesma, na medida que esconde suas imperfeições. Fica linda quando maquilada, mas não fala muito com Affonso, deixa que seu amigo Serjoca roube a atenção. Canaliza sua libido para a estética e sofre por falta de parceiros sexuais. Talvez seja egocêntrica demais, porém o egocentrismo é uma característica presente em todo ser humano.

A Escola de Frankfurt vem nos trazer o conceito de "indústria cultural" (Adorno). Daí podemos extender o conceito à "indústria do entretenimento". A música pop, por exemplo, seria uma maneira de angariar capital e não do artista extravasar sua dor. No texto, temos referências a elementos da indústria do entretenimento, como estabelecimentos com grife. Percebemos isso através da boate "Number One", restaurante "Albamar", hotel "Copacabana Palace". Não se fala dos estabelecimentos de modo genérico, como um hotel, um restaurante ou uma boate, mas citam-se seus nomes, fazendo uma alusão à sua importância social.

Nota-se, em uma sociedade de massa, que a diversidade, a diferença tende a extinguir-se. As diferenças são "satanizadas", consideradas defeitos. Serjoca se auto-intitula um "errado", por não saber comer ostras. Claro que "errado" dá-nos uma conotação maior, remete ao comportamento social de Serjoca. Aurélia também é marginalizada, almeja não possuir defeitos físicos, como calos e mau-hálito. Deseja ser "kitsch", isto é, apenas um rosto, uma face maquilada e, por isso, bela. Serjoca nada mais é do que sua bengala. Estão unidos pelas fraquezas.

Dentro do apartamento de Affonso, havia escultura de "Bruno Giorgi". Daí percebemos algo curioso: os artistas são considerados transgressores, usam habilidades técnicas para transformar o meio em que vivem, para relativizar o poder. Porém a arte pode ser sacralizada, e até se tornar sinônimo de riqueza. Affonso Carvalho não tem nada de marginal. A escultura referida é uma demonstração de que seu patrimônio é extenso. A escultura referida não está ali apenas para ser olhada criticamente: está denunciando o "comércio de artes", a valorização comercial da arte, que faz com que iletrados artísticos tenham em casa grandes obras.

Affonso possui um Mercedes. O automóvel é uma forma de "proteção". A rua é o local onde o poder se dilui. Nela, todos têm o mesmo valor, são iguais, igualmente poderosos. Não sem razão "chovem", na atualidade, carros blindados, ruas particulares e condomínios fechados e shopping centers: são tentativas de o poder locomover-se em espaços coletivos, mantendo-se a posição.

Por fim, percebe-se que Serjoca e Aurélia são personagens noturnos. O texto diz que "Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates". Temos nessas orações dois conceitos. A percepção de que a vida das personagens está associada à noite. As boates com suas luzes, as ruas com sua penumbra, os locais feitos apenas para "diversão" são quase uma necessidade para pessoas que vivem à "sombra" da sociedade. O segundo conceito seria o fato de o texto classificar como "amizade", os jantares em boates, mostrando a superficialidade da relação das personagens.

Endereço para correspondência:
zuzuangel2000@yahoo.com.br