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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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COMO SÃO AS COISAS!

Prof. Claudio Cezar Henriques
Professor de Língua Portuguesa do Curso de Letras - Campus Niterói
Professor titular da UERJ e ex-centroavante reserva do SEM

O Desafio do Alvorada

Alvorada era o nome de um time de futebol de campo que tentava se firmar no bairro do Andaraí e adjacências nos idos da década de 60. Congregava moradores e trabalhadores das redondezas das ruas Dona Maria, Santa Luzia, Almirante Cândido do Brasil, rivalizando com um outro projeto de time, igualmente modesto, o SEM, isto é, o Sociedade Esportiva Maracanã – assim mesmo, no masculino: baluarte dos moradores da rua Dona Zulmira, da praça Niterói e da Felipe Camarão.

No emblema, o SEM ostentava, impávido sobre um fundo branco, o desenho do estádio Mário Filho bordado em verde vivo. O Alvorada era vermelho e branco, mas seu escudo era mais simples. Continha apenas as três letras indicativas do seu nome: Alvorada Futebol Clube.

Nas disputas entre ambos, uma rivalidade sadia que se caracterizava por resultados equilibrados e até pela "cessão temporária" de algum de seus candidatos a craque para um jogo importante. Isso fazia do centroavante Luisinho o jogador mais cobiçado da região. Era veloz o artilheiro, apesar de franzino e fumante. Seu pai acumulava as funções de auxiliar técnico e roupeiro do Alvorada e tinha o carinho da rapaziada que todo domingo se encontrava em Del Castilho, no campo da fábrica de tecidos que hoje não existe mais.

O técnico do Alvorada era o saudoso Carlos Gerente, misto de manager, estrategista, boleiro, vaselina e motorista de táxi. Imaginando vôos mais altos, o Gerente achou que já era hora de pensar em inscrever seu time no campeonato do Departamento Autônomo, espécie de divisão de elite do futebol amador do Rio naquela época.

Para tanto, nada melhor do que marcar um amistoso com o Confiança, bicho-papão da "grande região bairropolitana de Vila Isabel". O campo do Confiança, na rua Silva Teles, tinha uma pequena e simpática arquibancada de madeira, com uma cobertura que lembrava de longe aquela dos estadinhos interioranos: um telhado inclinado formando ângulos que favorecessem o escoamento da água e algumas vigas de madeira para sua sustentação. Hoje, o Confiança abriga os ensaios da escola de samba do Salgueiro, e não sei se o futebol por lá só se restringe agora aos campos de futebol de salão.

O Gerente marcou o tal jogo para uma sexta-feira de manhã e sua expectativa era mesmo de que começaria ali uma nova fase para o Alvorada. Juiz e bandeirinhas com uniformes da Federação. Arquibancadas com um bom público. A animação era geral. No entanto, bastou a entrada dos dois times no campo de terra – porque grama mesmo só nas beiradas das quatro linhas – para dar mostra do que poderia ser aquele confronto. De um lado, jogadores adultos de porte físico adulto, com toda a pinta de que se preparavam fisicamente para jogar futebol. Era o Confiança. Do outro lado, jogadores também adultos, mas de porte adolescente – sem nenhum jeito de que tinham no físico a sua melhor qualidade. Era o Alvorada.

Foi só o juiz apitar o começo do jogo para se ver que o Confiança não daria a menor confiança (óbvio que eu não ia perder o trocadilho) para o Alvorada (neste caso, sem trocadilho). Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito a zero no primeiro tempo. Parecia que era só dar nova saída que a bola já estava na área do time visitante, naquele dia um saco de pancadas digno de levantar qualquer candidato a rebaixamento do futebol atual.

No intervalo, o técnico do Confiança perguntava para um dirigente: "Quem marcou esse jogo não sabia que o time deles era tão fraco?" Em seguida combinou com os jogadores uma inversão de funções: "Os zagueiros passam a jogar no ataque, e os atacantes viram beques. Sai o goleiro titular e entra o terceiro reserva. Vamos aproveitar o segundo tempo para aprimorar a parte física."

Nos camarins (?) do Alvorada, a desolação era total. Todos sabiam do poderio do adversário, mas levar oito gols só em 45 minutos era uma humilhação. Alguém sugeriu que o time não voltasse para o segundo tempo, alegando uma indisposição intestinal coletiva – isso até justificaria o placar. "Não! Precisamos manter a dignidade!" – disse o Gerente. "Vamos voltar para o segundo tempo com duas modificações: trocamos o goleiro, que está cansado, e entra o Português no lugar do Paraíba."

Quando se preparavam para voltar a campo, os jogadores do Alvorada ouviram então a maior lição de persistência e de lógica de suas vidas. Carlos Gerente reuniu o grupo e disse: "Pessoal. Nem tudo está perdido. Pensem bem. Se eles fizeram oito gols no primeiro tempo, por que nós também não podemos fazer oito gols no segundo? Vamos lá, que ainda dá."

Final de jogo: 13 a 1, gol do Luisinho, é claro. "Não falei que o segundo tempo ia ser diferente? Foi só 5 a 1 para eles. Resultado possível até em clássicos."

O Alvorada reviu seus planos e continuou a fazer suas peladas de várzea durante algum tempo. O Confiança ganhou outros títulos no futebol amador, até ser extinto o campeonato do Departamento Autônomo. Quanto ao SEM, sabe-se que durou bem menos. No início dos anos 70 só lhe restavam as velhas camisas desbotadas e um caderno de anotações com todas as 25 partidas que disputou.

Fiquem bem!

Fonte: Folha da Vila, nº 1: junho de 2005, p. 6.

Endereço para correspondência:
claudioc@alternex.com.br