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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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PRATA DA CASA

Por Lise Bianchini
Aluna do 5º período de Letras - Campus Rebouças
Professora de inglês

A peça Os Negros, de Jean Genet, tem merecido críticas favoráveis e tem sido saudada como uma das peças mais importantes da temporada. No elenco, está Sarita Rodrigues, no papel de "Dodói": ela é aluna do primeiro período de Letras (Campus Rebouças) e nos concedeu esta entrevista, falando de seu trabalho e de sua percepção sobre o Teatro.

Você poderia nos falar um pouco da montagem do espetáculo? Sempre há curiosidade de saber sobre o processo.

Nesse espetáculo, tivemos a sorte de trabalhar com uma equipe muito harmoniosa e diversificada.O diretor, Pilar, já tinha trabalhado com esse texto há 15 anos, tinha um profundo conhecimento do texto e, então, sabia exatamente o que queria.Teve a grande sorte de ter como diretora assistente uma francesa argelina, que está no Brasil há 6 anos e com sua vivência e experiência profissional rica só veio somar. Teve a "sacação" de escolher atores vindos de várias escolas de teatro, com experiências bem diferentes e que já estão na estrada há um bom tempo.Toda essa "mistura" mais o que Genet propõe, no início do texto, contribuíram para a estética do trabalho.

E sua leitura de Genet? Ele sempre foi um autor provocativo...


Quanto à grandiosidade desse autor, já parte do título Os Negros, onde o público pensa que vai encontrar um tema voltado para o movimento negro ou que vai discutir somente a questão racional. Dá-se esse nome, por ser uma exigência do autor: esse texto tem que ser dito por treze atores negros. Esse poder de denunciar é dado a nós, os negros, sem ranso, sem pena, aproveitando a oportunidade de representar e relatar algumas insatisfações. A discussão não é sobre o que é ser negro, ou branco, ou amarelo, ou rosa. A discussão é mais profunda: é sobre as barbaridades do homem através de uma linguagem metafórica. O palco é dividido em dois espaços. A corte fica acima e os negros, abaixo.O metateatro também está presente, quando encenamos ritualisticamente um assassinato de uma branca, que será julgado perante essa corte, onde os atores negros estão mascarados, que é uma forma de romper com os mitos. Analisa, também, o comportamento do homem diante da diferença racial, o opressor e o oprimido, o velho e o novo, o consciente e o inconsciente, o bem e o mal, a vida e a morte, a ilusão e a realidade; esses conflitos são colocados com uma poesia, que naturalmente leva o público a pensar ou a se incomodar de alguma forma com os preconceitos sociais e políticos.

Foi difícil trabalhar o texto?

Com todos esses conflitos, Genet criou um imaginário metafórico, com uma estrutura de relações e analogias, e uma violência e crueldade que provocam seqüências ritmadas. Nesse sentido, a direção teve o cuidado de seguir as características do texto e acrescentou imagens, através de objetos cênicos e gestuais, para "clarear" ou "frisar" alguns conceitos encontrados. Foram usados, também, elementos de paródia e de alegoria. Tive muita dificuldade para compreender isso no texto. Mas tudo vai se encaixando, é um grande quebra-cabeça que, a cada dia, vai tomando uma forma. Os estudos, as pesquisas são primordiais, porque, em algum momento, serão útéis. Por isso, os ensaios são fundamentais: é o espaço que o ator tem para experimentar, arriscar, propor e errar. Essa fase é um momento muito solitário do ator, com o diretor e a obra. Já com a presença da platéia, o ator tem a autonomia de aproveitar a contribuição dela e acrescentar no personagem: aí é só prazer!

Sobre a sua personagem: você poderia falar um pouco sobre ela?

O personagem que faço é a Dodói; ela é a sucessora da Mãe África, funcionando dramaticamente como elo entre os conhecimentos místicos da cultura afro com os demais negros do grupo, vivendo sob o signo da dualidade; portanto, tive a preocupação de trabalhar essa característica. Nenhum personagem é psicológico, facilitando, assim, uma ruptura, permitindo ir do grotesco ao sublime.

A crítica tem reagido muito favoravelmente à apresentação do grupo, à montagem. E o público, como reage?

A reação do público é muito esquisita, porque, às vezes, fica constrangido e reage sorrindo em momentos que o riso não cabe. Em outros momentos, onde não tem texto e é só um movimento do personagem, ele cai na gargalhada, sem ter motivo. E ainda tem aquele que sai no meio do espetáculo. A maravilha desse texto é que não se tem que gostar, tem que se sentir incomodado e esse objetivo é atingido. Vê-se uma curiosidade, um número crescente de espectadores negros, que é um público que está sempre à margem e que nunca tinha ido ao teatro. Essa receptividade é muito importante, porque estimula e motiva meu trabalho de atriz.

E como você vê o teatro atualmente, no Brasil?

O grande problema do teatro, no Brasil, é a falta de interesse de investir na cultura, favorecendo os interesses próprios. Dinheiro tem, mas a corrupção já faz parte da nossa história, infelizmente. Fazer esse povo pensar não é interessante. Essa montagem caiu como uma luva, tem muito a ver com o nosso momento vergonhoso do Brasil, onde o homem que está no poder não tem o mínimo de decência e conduta moral perante o povo.

Endereço para correspondência:
bianchini91@hotmail.com