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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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ENTREVISTA COM O ATOR JORGE LUCAS

Por Lise Bianchini
Aluna do 5º período de Letras - Campus Rebouças
Professora de inglês

Os Negros, uma das principais peças do polêmico autor francês Jean Genet (1910-1986), está em cartaz no CCBB sob a direção de Luis Antonio Pilar. Escrita em 1958, tem o traço estilístico do autor: a desconstrução e a ruptura com cânones e mitos. O palco tem uma divisão peculiar e ajuda a incitar o desconforto. O espectador constrói seu próprio sentido, sendo levado a questionar sua visão de mundo. Fico contente em testemunhar uma montagem importante de ser pensada e fora dos moldes festivos de peças montadas para a sociedade do espetáculo. As imagens ficam como que soltas, à disposição do lado subjetivo do observador; essa liberdade de pensamento reflexivo talvez seja um dos elementos mais marcantes da montagem. A narrativa quebra a linearidade cronológica: atores em posição de confronto, incitando o desconforto, o cenário subdividido, as máscaras (temos todos as nossas), signos do discurso desordenado e a proposta moderna de choque, na tentativa de despertar o homem do narcotizante mundo de imagens e, quando somados, resultam em um belo trabalho.

O diretor Rainer Werner Fassbinder adaptou para o cinema o romance Querelle (1947). A opressão, o desnível de poder aquisitivo e suas conseqüências são elementos sempre presentes na obra subversiva de Genet. Uma das exigências do autor é que a peça seja encenada por negros, alguns com máscaras brancas. A rainha, no confronto final do julgamento de um assassinato, nos deixa a questionar a ordem da justiça e do poder. No elenco, Jorge Lucas, Sergio Menezes, Iléa Ferraz, Maurício Gonçalves, Maria Ceiça, Romeu Evaristo, Patrícia Costa, Nívia Helen, Sarito Rodrigues, Deoclides Gouvêa, Jozé Araújo, Audri da Anunciação e Lincoln Oliveira.

Jorge Lucas

O Rede de Letras entrevistou JORGE LUCAS, que faz o papel do juiz. Assim, passemos às respostas do ator.

Como foi o trabalho de criação do personagem?

Criar um personagem é sempre um trabalho solitário, desgastante e rígido. Exige muita concentração, sensibilidade e humildade. Ceder às exigências de um texto pronto, aos caprichos de um diretor e ao conjunto, pois não se deve destoar do todo da encenação, esta tem uma unidade. Baseei-me em antigos filmes de época, aqueles filmões hollywoodianos, anos 40. Muitas pinturas, muito estudo particular sobre a corte francesa, suas maneiras e manias. Ouvi muito a nossa assistente de direção, Brigitte Bentolila, que é francesa, e fui, aos poucos, desenvolvendo um ser que fosse fisicamente diferente de mim. A primeira alteração física foi a barriga. A famosa barriga do poder, da abastância, da usura, dos celerados dominadores. Dessa barriga, posso quase afirmar, nasceu o juiz. Jamais poderia concebê-lo sem a barriga. Ele tem cólicas insuportáveis, ele coça o umbigo demoradamente, e ele é uma figura nojenta. Não há psicologismo nesse personagem. Ele representa uma figura arquetípica. Ele é o juiz da corte francesa que assiste ao espetáculo apresentado pelos negros fedorentos e que, logo em seguida, irá julgar um crime gravíssimo. Ele não sente culpa, nem remorso, não se emociona com qualquer discurso feito pelos negros. Ele é uma máscara, e como tal, vive sua fantasia/realidade até o fim.

E a construção estética da obra?

É um espetáculo aberto e fechado. Esteticamente, ele abre-se a várias interpretações de personagens, leituras de texto, criação de cenário e figurino, iluminação, música. Porém, é impossível deixar de destacar a força da mensagem, ou seja, não há muito, aliás, não há nada a se criar. Fazendo-se uma leitura inteligente do texto, ele fecha-se, e só permite uma determinada criação estética. Foi o que aconteceu com esse espetáculo. Conseguimos entender a fechamento do texto, e abrimo-lo para a nossa visão estética. Como todo texto absurdo, e esse em especial, um grande poema aberto/fechado, é difícil não se emocionar diante de tanta teatralidade existente no texto e na possível realização do mesmo. É um texto que se abre ao teatral, ajuda a brincadeira, incita a fantasia, o jogo é de bola rápida o tempo todo, a estética é nervosa com diversas informações cabíveis acontecendo ao mesmo tempo, nada é gratuito. Tudo se reveza e se completa e se soma, num todo anárquico. Cabe a quem assiste ao espetáculo, permanecê-lo aberto, ou fechá-lo.

Vocês ensaiaram muito? Como atriz/ator, os ensaios acrescentam ou desgastam?

Foram 50 dias de ensaio para mim, pois não peguei as leituras de mesa, fato, aliás, que agradeço, pois pude criar a partir da audição do texto, ou seja, meu entendimento veio em cena já, e a história me foi contada por meus colegas. Qualquer processo de ensaio desgasta, mas acrescenta muito. Aprendemos demais vendo outros colegas criando seus universos. Com uma semana para a estréia, todos queríamos estrear, ninguém suportava mais os ensaios, mas eles ainda eram necessários para os ajustes finais.

A construção da dramaturgia de Jean Genet é algo intrigante. Por ser a ruptura de mitos. Como foi essa construção? Do teatro do absurdo e de Sartre, há muito de existencialismo e a proposta de que o espectador construa um sentido próprio a respeito da obra. Quais elementos estéticos vocês utilizaram para chegar nessa proposta?

Mais do que intrigante, considero esse autor um dos mais difíceis. Aparentemente, ele é ilógico, mas há uma ternura em seu alinhavar de idéias emocionante. Nenhuma palavra, nem intenção estão ali por acaso. Seus personagens têm nomes ideais, e representam idéias, e suas idéias são ideais. Acho isso fantástico! Genet brinda a quem o encara com uma obra mitologicamente moderna. Tudo se encaixa em algum momento do todo, nada está ali por acaso. Os personagens e as situações propostas estão encadeados, eles não têm o direito de independer-se, ao contrário, para a existência e realidade de um no jogo, o outro precisa estar e ser real, existir com todas as suas forças. É uma dramaturgia de elos.


Imagens da peça

O ator Jorge Lucas no papel de "Juiz"
A corte

Endereço para correspondência:
bianchini91@hotmail.com