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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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SHANGRI-LÁ

José Ronaldo Mendes
Graduado em 2002/2 – Campus Rebouças
Professor (Mutum, MG) e advogado

Vive-se, hoje, um momento de revolução comportamental muito peculiar. Revolução, não, pois toda revolução tem por condição sine qua non uma ideologia substancial inserida em seu meio, ratificando-a. Encontramo-nos numa época carnavalizante, em que a futilidade alia-se à alienação do saber e ambas desfilam por entre mentes imberbes.

Estamos em uma Shangri-lá às avessas: uma legião de homens e mulheres de idade avançada fisicamente, contudo psicologicamente atolados no espaço infantil, pueril. Não que o resgate da infância seja ruim – o que não é –, mas o que ocorre hodiernamente é uma total anulação da maturidade, uma eterna e contínua nostalgia. O período da infância está por demais se prolongando, fazendo com que a irresponsabilidade se perpetue.

Essa irresponsabilidade começa pelos inúmeros casais de adolescentes que unem suas almas em uma família sem consciência, gerando uma prole sem planejamento familiar, diga-se de passagem, e que, justamente por serem crianças, não sabem educar as próprias crianças que desse enlace são produzidas, criando-se, assim, um negativo ciclo vital, de falta de perspectiva e sobre-vida.

Temos, ainda, os garotos de 40 e 50 anos que se vestem com roupas "transadas", usam gírias da moda, "curtem" o som da hora e saem com seus amigos adolescentes, 20 ou 30 anos mais novos para "azararem" as gatinhas, programa "irado": uma nova versão dos palhaços de circo internacional, que fertilizavam o imaginário infantil de outrora.

E a quantidade de balzaquianas ou moças na idade da loba que ficam a cantar melodias de garotos ou trios juvenis, vazios como estômago de sem-teto, ou, pior: temas de apresentadoras de tv e o fazem histéricas e empolgadas, babando todos os "babies" que podem alcançar sua libido hormonal insaciável? Isso, sem levar em conta a quantidade de plásticas estéticas e sem ética que está sendo realizada ultimamente. As vovós da sociedade estão entrando numa mirabolante máquina cirúrgica que as transforma em "barbies" prontas para serem re-consumidas, uma vez mais. Mas o pior mesmo é que as meninas pré-adolescentes já estão se utilizando do artifício desse maquinário também.

A respeito dos novos produtos fabricados para os novos velhos, então nem se fala. São bichinhos virtuais, jogos eletrônicos das mais variadas espécies e toda uma gama de aparatos tecnológicos que deveriam ser destinados para a garotada, mas que, por um lapso de seriedade e pela falta de uma complexa experiência de vida, desvia-se e redireciona-se para os pais, criando-se assim um verdadeiro contingente de "crianções".

Era de se esperar uma sociedade mais preocupada com o saber, com experiências consistentes, que pudessem ser utilizadas para a construção de caracteres sólidos e dignos. Ao contrário, temos um consumismo baseado na ideologia estética dominante, que permeia todo o desejo coletivo, e tal condição não permite amalgamar consciência nenhuma, não há meios de se fazer brotar uma noção, por menor que seja, de responsabilidade. É impossível, dessa forma, existir uma experiência consistente que possa ser reunida em uma vivência rica e o que resta, o que sobra, o que se constrói é uma cidade a la Sims com blocos Lego.

Temos que, para reverter essa situação, voltar nossos olhos para o passado e dele tirar os exemplos que edificaram famílias duradouras e homens cujas experiências serviam de exemplo para toda uma nação, sem, no entanto, nos prendermos aos mesmos erros que foram cometidos àquela época (autoritarismo, intolerância, desrespeito, opressão exacerbada e outros). Hoje o amadurecimento é descartável e instantâneo como uma goma de mascar...


E-mails para a coluna:
zeromendes@hotmail.com