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EDIÇÃO 16 1º de agosto de 2005
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O HOMEM DO SEBO

Cláudia Delgado de Moraes
Aluna do 1° período de Letras - Campus Méier

Livros, por Van Gogh

José Amâncio Vasconcelos era dono de um sebo na Rua do Riachuelo, a Mata-cavalos de Assis, e fazia do local sua casa e seu sustento, mais casa que sustento; os livros pareciam não despertar interesse a ninguém.

Homem muito circunspecto, de rígidos hábitos, olhar embaciado, cara amarelecida e um tanto encovada, o corpo sempre metido num terno preto e à cabeça vinha-lhe cobrir um velho chapéu panamá. Seus vizinhos o tinham em alta conta, apesar de o considerarem um tanto assim... esquisitão. Nunca saía de casa, exceto aos domingos, quando ia tomar a fresca lá para os lados do antigo Pharoux: retornava tão seco quanto antes, o mundo parecia não lhe agradar.

Sua loja, um primor. Trazia o sebo muito bem arrumado, os livros meticulosamente dispostos em prateleiras imaculadas de pó e organizados por gêneros: os épicos à esquerda de quem entra, os romances em estantes negras ao lado do balcão, no fundo reservava um espaço para os populares, os best-sellers, e a estes não dava muita atenção. A lírica ocupava um lugar de destaque: Amâncio, um homem sonhador. Mantinha uma estante no meio do estabelecimento com os livros de auto-ajuda, que se multiplicavam numa velocidade espantosa: todos já haviam descoberto o enigma do queijo.

Como vivia sozinho, era José Amâncio seu próprio cozinheiro e, não sendo dado aos prazeres da mesa, contentava-se com ralas sopas de batatas; vez em quando, um mingau de aveia.

Certo dia, sem saber muito bem o porquê, Casa Grande e Senzala pareceu-lhe palatável e, depois de muito fitá-lo, decidiu ceder aos desejos estomacais, pai de todos os desejos: com precisão cirúrgica, arrancou-lhe duas páginas e, sorvendo-as em pequenos pedaços, experimentou uma sensação que jamais sonhara: sua boca era doce, o sangue tomava corpo em suas artérias, os olhos distinguiam cores: diria que agora poderia ouvir estrelas.

Tomou gosto pela coisa. Renovava-se. Os vizinhos lhe notaram a fisionomia bem disposta, o corpo agora ereto, os olhos faiscantes e deram-no por apaixonado. José Amâncio nada contava, apenas sorria enigmático e seguia seu curso: alimentar-se de literatura, literalmente.

Seguia um pequeno ritual: pela manhã, umas folhas épicas, precisava de vigor e rigidez. À tardinha, regozijava-se com Florbela Espanca e se muito excitado à noite ficasse, lançava mão de uns Pessoa, perdera a conta de quantas Tabacaria havia ingerido. Se curioso, uns bons tascos de Houaiss aplacavam-lhe o apetite metalingüístico; se sorumbático, um Shakespeare, um Moliére. Nas horas de melancolia, era Machado quem vinha-lhe animar. Evitava, porém, o realismo: certa feita, Zola lhe fez mal.

Os domingos reservava-os para a Filosofia: ia de Proudhon a Durkhein, de Kierkegaard a Epicuro, beliscava um Comte, seu apetite não tinha posturas ideológicas: era um homem livre, a palavra vinha-lhe alimentar. Construía sua alimentação com Barthes, Lukács e nenhum formalista lhe escapou. Os moralistas espanhóis, estes lhe causavam uma certa lassidão.

Quando seu estômago ansiava por um tempero brasileiro, socorria-lhe Gilberto Freyre, seu cúmplice e iniciador; umas poucas páginas de Graciliano; duas orelhas de Amado, Tenda dos Milagres, inesquecível, um manancial de prazer.

Belo dia, quis experimentar uma nova sensação: comeu um Brida que há muito o divisava cabisbaixo. Bastou meia página e o ventre revirava-lhe por inteiro. Resignado, comeu duas folhas de Rinaldo Delamare, atentando para o capítulo das cólicas nos bebês.

O sebo ia aos poucos sendo devorado e os vizinhos de balcão nem se davam conta: feito os clientes, criam que os livros não foram feitos para eles, exemplares velhos não lhes chamavam atenção. Inda assim, Amâncio todos os dias polia as prateleiras, afastava moscas do balcão, era um homem higiênico, só comia após lavar as mãos.

Em uma de suas arrumações, descobriu dentro de uma caixa, uma bíblia sagrada de que mal lembrava. Foi desejo à primeira vista: a Bíblia o tentava e ele não resistiu, deveria comê-la. Não que tivesse pudores religiosos ou doutrinadores, era ateu, agnóstico e filho de Iansã – certa feita comera Gustavo Corção e até apreciou – e tampouco o fato de a Bíblia ser considerada um livro consagrado o incomodava: livros são livros e sua sacralização se dá é na cabeça do leitor. O motivo era mesmo de paladar: não se sentia bem com compilações, comia um de cada vez, a mistura pesava-lhe o estômago. Porém, algo o incitava: ele ante-sentia o sabor augusto e virginal do Novo Testamento. Sem mais delongas, arrancou diversas páginas e devorou-as.

Encontraram-lhe o corpo três dias depois, já putrefato e com os vermes a romper-lhe a carne. Alguém percebeu um Augusto dos Anjos desfolhando-se sozinho. Houve quem tivesse escutado umas risadas, mas o fato nunca foi comprovado.