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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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A RODA VIVA DO CHICO

Sérgio Granja
Aluno do 5º período de Letras – Campus Rebouças
Autor do romance Louco D'Aldeia em dois tempos (Record, 1996)

"Roda Viva" evoca, talvez, a roda da fortuna ao sabor das moiras que tecem, dobam e podam o fio do destino, pontuando o nascimento, o crescimento, o azar, o amor, o êxito, a frustração, a doença, a morte de cada um de nós. É o que poderia estar sendo dito nestes versos: "A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda viva / E carrega o destino pra lá".

Quiçá faça referência à roda viva do cotidiano na megalópole, à roda que tritura, ao ritmo alucinante do corre-corre diário, à luta pela sobrevivência na selva de pedra, ao salve-se-quem-puder da concorrência, às apostas na loteria do mercado. É o que se poderia depreender deste fragmento: "Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu".

Pode ser que reviva as imagens fabulosas, os encantamentos e os espantos da infância, ou o acontecimento do primeiro amor. É o que nos poderia sugerir o refrão: "Roda mundo, roda-gigante / Rodamoinho, roda pião / O tempo rodou num instante / Nas voltas do meu coração".

Quem sabe, seja apenas um canto de desalento: "No peito a saudade cativa / Faz força pro tempo parar / Mas eis que chega a roda viva / E carrega a saudade pra lá". (Note-se que cativa tem aqui um duplo sentido: saudade que está prisioneira ou saudade que seduz?)

E é essa multiplicidade de leituras que nos permite fruir a letra da música trinta e tantos anos decorridos. Mas "Roda Viva" também pode ser recepcionada com seu pano de fundo – o contexto político e cultural de véspera de meia-oito –, como mimese do espírito de seu tempo.

 

Que tempo era esse? A sociedade se recuperava do golpe militar de 64. Havia uma espécie de nostalgia da liberdade. A música popular brasileira explodia nas paradas de sucesso com Nara Leão e Elis Regina. O teatro encenava musicais e peças engajadas: Opinião, com Maria Bethânia cantando "Carcará" ("pega, mata, come"); Liberdade, Liberdade, com Paulo Autran. O movimento cine-clubista recuperava público para o cinema novo, que questionava o golpe com O desafio, de Paulo César Sarraceni. Na poesia, Thiago de Mello desafiava o regime com Faz escuro mas eu canto, e João Cabral de Melo Neto consagrava a temática social com Morte e vida severina. Era como se fosse uma retomada da efervescência política e cultural do ínicio dos anos 60 – em condições históricas adversas. E esse ambiente preparava o movimento contestatório de 68.

Que diz a letra de 1967? Que houve um tempo feliz, emocionante: "Roda mundo, roda-gigante / Rodamoinho, roda pião / O tempo rodou num instante / Nas voltas do meu coração". Mas que esse tempo sofreu uma interrupção abrupta, castradora: "O samba, a viola, a roseira / Um dia a fogueira queimou / Foi tudo ilusão passageira / Que a brisa primeira levou". E que isso gera inconformismo: "A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que sente / O quanto deixou de cumprir".

Aqui, como nas fogueiras da inquisão ou nas queimadas de livros na Alemanha hitlerista, aqui também, "um dia a fogueira queimou". E a interdição se instalou: "Não posso fazer serenata / A roda de samba acabou". Não obstante, a ousadia da resistência marca presença: "A gente toma a iniciativa / Viola na rua, a cantar". E é reprimida: "Mas eis que chega a roda viva / E carrega a viola pra lá".

Assim, por esse viés, "Roda Viva" pode ser apreciada como um lamento que capta a subjetividade de um momento histórico.

E-mails para a coluna:
sergiogranja@hotmail.com