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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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RECONSTRUÇÃO DE UM AMOR

Lise Bianchini
Aluna do 3º período de Letras – Campus Rebouças
Professora e monitora de Teoria da Literatura

Filme "Reconstrução de um amor"

"Não há arte revolucionária sem uma forma revolucionária."
Mayakovsky

O título já nos dá uma pista: afinal, só podemos reconstruir o que foi um dia destruído. A imagem granulada e o enquadramento proposto, cortando a face na sua razão, cresce, ganhando potencial semântico dentro da proposta da dicotomia razão/emoção. "O que atrapalha a emoção é a razão", nos diz Freud.

O casal de amantes viajaria para ROMA que, se lida ao contrário, é AMOR. Um certo tom documentário contrasta com a quebra da linearidade narrativa, característica do universo da cultura de massa. Imagens panorâmicas com alvos de guerra clamam uma reflexão mais elaborada. Há algo muito comum entre o amor e morte, já que nunca estamos prontos e nem sabemos quando vai acontecer. Entretanto somos os únicos seres com consciência de ambos. A música, de tom profundo e já inserida no repertório, ajuda e lembra a indústria do medo que a guerra alimenta em favor do poder maniqueísta estabelecido.

Na abertura e no fechamento, o ilusionismo com a fumaça que condensa (metáfora) e desloca (metonímia). Fumaça lembra evaporação, água. Hibris: o estado amorfo e devir do ser, longe do sólido e perverso universo da ratio ideológica. São características intensas o choque do desencontro cronológico e o erotismo, ora sutil, ora à flor da pele, e o sonho confortável do amor ideal. A personagem que metaforiza o desejo se hospeda em um quarto de hotel (descompromisso) numero 1245: falta o numero 3, que representa a perfeição. Aparece também muito maquiada e, por vezes, seu gestual parece ensaiado para seduzir, mas, frente às incertezas, se apresenta "de cara lavada" e dilacerada.

O caminho é sem volta, sem porta, nem janela. Mas, principalmente, sem memória. Com tantas biografias em alta no consumo, só me resta questionar os registros que temos de uma historia mal contada. Com a perda do objeto de contemplação aurático, deveríamos estar aptos a despir os segredos que são da ambiência do sagrado. Num movimento perverso e moribundo, o fim da utopia desencadeou uma migração do olhar para o consumo. Os relacionamentos cada vez mais frágeis se liquefazem e tomam características de mercadorias, que podem ser trocadas e avaliadas. Em sua forma mais mundana, a sociedade nostálgica de unicidade cria o culto a mitos meteóricos, que favorecem o consumo (rodas de leitura, autógrafos, revistas, culto a celebridades, etc.).

Talvez seja essa uma boa oportunidade para o sujeito alienado, cercado pela ansiedade nascida do fim da existência reflexiva, de exercitar o olhar subjetivo, degustar o prazer estético, podendo assim se afastar dos performáticos e especulares relacionamentos voyeristas que se apresentam diariamente a nossa frente.

SINOPSE:
O BELO DINAMARQUÊS Alex (Nikolai Lie Kaas) tem um breve encontro noturno com Aimée (Marie Bonnevie). Ambos têm outros relacionamentos – Alex com uma namorada devotada (também representada por Bonnevie), que passa a misturar os papéis de mentor e amante. O caso de amor irá modificar para sempre a vida dos dois amantes. Depois do relacionamento, o mundo de Alex deixa de existir: seus amigos não mais se lembram dele, o apartamento desaparece. A trama, na verdade, esconde outras indagações mais profundas, que o filme apresenta em um tom psicológico e abstrato.
O filme ganhou a "Palma de Ouro" de fotografia, que ficou sob a responsabilidade de Manuel Claro.

Título original: Reconstruction
Gênero: drama / romance
Ano: 2003
Prigem: Dinamarca
Duração: 90 min.
Diretor: Christoffer Boe
Elenco: Nikolaj Lie Kaas, Maria Bonnevie e Krister Henriksson

E-mails para a coluna:
teacher8@globo.com