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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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CINEMA: O NASCIMENTO DE UMA LINGUAGEM

Lise Bianchini
Aluna do 3º período de Letras – Campus Rebouças
Professora e monitora de Teoria da Literatura

Na remota Grécia, onde Dionísio era adorado livremente, o artista já vinha com a consciência política costurada em seu trabalho. Era a maneira de o homem se compreender como humano. Da helenização à apolinização, o nascimento da tragédia, dando voz ao poder, no momento em que a Grécia entrava em declínio Roma, dava ao povo a diversão do Coliseu: quanto mais miserável, mais diversão era oferecida, como um meio de causar distração e para que não fosse notada a realidade da pobreza e declínio de um império. As distrações visuais já funcionavam como meio de manipulação da massa. Do contato com a dor real, a melancolia e a miséria humana, pode-se encontrar a beleza real, podemos nos compreender através da arte. Parece que hoje se busca mais proteção (religião) do que a cura (arte, psicanálise).

Somos os únicos com consciência da morte e possuímos a capacidade de produzir de forma criativa, o que nos diferencia dos outros animais. O trabalho mecânico rouba de nós a qualidade humana. Traçando um paralelo entre a produção artística de hoje e o movimento construtivista que veio a influenciar o Concretismo no Brasil, na década de cinqüenta, fica em voga uma matriz mais politizada. O cinema, como linguagem e expressão do pensamento do homem metropolitano, pode tanto denunciar a discrepância quanto cumprir a função fenomenológica e progressista, factual e fortalecida por imagens. O imaginário popular fica condensado aos flashes que darão apoio aos interesses do poder.

Despido do véu da inocência, o público se questionaria e poderia compreender melhor seu universo, se não houvesse uma carência no repertório, impossibilitando qualquer choque ou ligação entre elementos visuais que levem a conclusões pessoais, à construção do conhecimento. A arte literária baseia-se na percepção da alma por si mesma e em si mesma, disse Hegel. Houve uma perda da aura, do hic et nunc, a eternidade a serviço do homem. A superação da morte nas imagens eternas na verdade é o avesso de uma realidade. O réquiem de Mallarmé na reação da "arte pela arte", a busca da arte pura, da linha pura de Matissé...

O que era objeto de culto passou a ser maldito. Em 1912, Gleizes e Metzinger escreveram uma frase que foi muito repetida: "Que o quadro não imite nada e apresente sem disfarce sua raison d'êtere": a tentativa utópica de uma produção artística que não tivesse um ponto de partida já existente, mas fosse nova e tivesse a força no seu estilo. "Para que nunca precisemos ir ao cemitério jogar flores aos pés da Gioconda". (Marinetti)

"A medida em que restringe o papel da aura, o cinema constrói artificialmente, fora do estúdio, a 'personalidade' do ator: o culto da 'estrela', que favorece o capitalismo dos produtores cinematográficos, protege essa magia da personalidade, que há muito já está reduzida ao encanto podre de seu valor mercantil". (Walter Benjamim)

Os mitos eternos e amorfos da antiga Grécia foram inspiração para produção artística, levando o homem a se compreender através da arte; hoje, meteóricos, compartimentados e de forma reduzida. O capital vem em seu modo mais perverso utilizando a forma mais antiga de controle: a culpa e o medo. A negação do prazer em favor de uma adoração aos corpos atléticos, usando a memória coletiva na direção da real intenção: o consumo. A banalização do medo, do sexo e outros valores através de uma linguagem imagística, com poder de persuasão ainda não equiparado com nenhuma outra via.

Contar histórias sempre foi a forma de registro da memória do homem: isso se dava frontalmente, ao redor da fogueira, nas festas, nos bares e prostíbulos. Receber essas histórias de uma máquina, ao invés de um ser de sangue quente, tem um efeito tangencial. Os relacionamentos deixaram de ser frontais e passaram a resvalar em alguma tecnologia; como esse recurso implica em investimento financeiro, ficamos à mercê da voz do poder.

O caráter repressivo da sociedade que se aliena, que assassina populações inteiras e nem olha para as conseqüências da colonização predatória (um fato redundante), fica amenizado pelo poder do espetáculo das imagens fantásticas que vêm substituir a fantasia. "Na Alemanha, nos filmes mais irrefletidos do período democrático, já estava presente paz sepulcral da ditadura." (Horkheimer e Adorno). O poder de se fazer acreditar que o mundo fora das salas de espetáculo é a fantasia e o mundo do fantástico, dos espetáculos, é a verdade, pela institucionalização de uma cultura singular e hiperbólica usada para a vantagem da minoria governante e a desaculturação do terceiro mundo, rouba a identidade e a liberdade criativa massificando e matando aos poucos o que poderia ter sido uma nação com mentalidade própria.

O filme era silencioso, mas nunca foi mudo. A imagem fala, na fotografia, a escrita da luz e tem sua conotação. Nada mais mimético e verossímil do que a produção em escala infinita de imagens fotográficas. No século XV, Gutemberg criava a imprensa e sua primeira obra a ser reproduzida em escara industrial foi a Bíblia. Seu poder de persuasão não precisa ser discutido, mas o acesso ao conhecimento passou então a ser irrestrito, não fosse o fato da maioria analfabeta. Se olharmos para a imagem, como objeto de leitura, estaremos novamente com a mesma problemática: os analfabetos do universo imagético. A alternância de planos tem um efeito de sentido, o discurso técnico-narrativo vai se delineando, através de elementos sinestésicos que dialogam, orquestrados pelo diretor, e leva a uma experiência da alma, não necessariamente religiosa. "A nova gramática da narração por imagens" como objeto de leitura e exploração ideal também carece de um suporte cultural que, muito convenientemente, nos foi roubado.

"O poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar."

("O albatroz" - As Flores do Mal - Charles Baudelaire)

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