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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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TÓPICOS SAUSSURIANOS (OU A LINGÜÍSTICA SAUSSURIANA POR UM APRENDIZ)

Sérgio Granja
Aluno do 5º período de Letras - Campus Rebouças
Autor do romance Louco D'Aldeia em dois tempos (Record, 1996)


Ferdinand de Saussure

Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, na Suíssa, em 26 de novembre de 1857. Morreu, também em Genebra, em 27 de fevereiro de 1913.

O seu Cours de linguistique générale foi publicado como obra póstuma, em 1916, sendo editado por dois de seus discípulos, Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de um terceiro, A. Riedlinger, com base em anotações que eles e outros sete alunos fizeram em sala de aula das exposições orais do mestre.

Foram três os cursos de lingüística que Saussure ministrou na Universidade de Genebra e que serviram de base para o livro: o primeiro, foi de 16 de janeiro a 3 de julho de 1907; o segundo, da primeira semana de novembro de 1908 a 24 de julho de 1909; o terceiro, de 28 de outubro de 1910 a 4 de julho de 1911.

Vejamos alguns dos tópicos mais relevantes do pensamento saussuriano.

Langue versus Parole

Língua versus fala (discurso) é a dicotomia basilar da lingüística saussuriana. Fundamenta-se na oposição social/ individual, extraída da Sociologia: a língua é da esfera social, ao passo que a fala é da esfera individual.

Para o mestre genebrino, linguagem é a faculdade que o indivíduo tem de falar uma língua.

Ele diz que "a língua é para nós a linguagem menos a fala. É o conjunto dos hábitos lingüísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender". [CLG, p. 92]

A língua é, simultaneamente:

- um acervo lingüístico;
- uma instituição social; e
- uma realidade sistemática e funcional.

Como acervo lingüístico, a língua é uma realidade psíquica formada de significados e imagens acústicas. É, nas palavras de Saussure, "mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos". [CLG, p. 27]

A língua traz em si toda a experiência histórica acumulada pelos povos que nela se expressam.

No caso do português, Saussurre o considerava um dialeto do espanhol:
"É difícil dizer em que consiste a diferença entre uma língua e um dialeto. Freqüentes vezes, um dialeto tem o nome de língua porque produziu uma literatura; é o caso do português e do holandês." [CLG, p. 235]

Em seus oito séculos de história, enriquecendo-se com sua expansão para a América, a África e, em menor escala, a Ásia, o português acumulou um extraordinário acervo lingüístico e literário, que o constituiu como língua.

Como instituição social, a língua "é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos". [CLG, p. 17] "Ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade". [CLG, p. 22]

A língua "não está completa em nenhum [indivíduo], e só na massa ela existe de modo completo" [CLG, p. 21] Ela se impõe de forma coercitiva ao indivíduo, o qual, "por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la". [CLG, p. 22]

Como realidade sistemática e funcional, a língua é "um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas". [CLG, p. 18] Para Saussure, na língua, "de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica". [CLG, p. 23]

Em oposição à língua (homogênea), há a fala que, para Saussure, "é um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distingüir:

1º) as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal;
2º) o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações". [CLG, p. 22]

Para o lingüista suíço, língua e fala são coisas distintas, e a prova disso é que "um homem privado do uso da fala conserva a língua, contanto que compreenda os signos vocais que ouve". [CLG, p. 22]

Para Saussure, língua e fala "se implicam mutuamente". "A língua é necessária para que a fala seja inteligível". E a fala "é necessária para que a língua se estabeleça". [CLG, p. 27]

"É a fala que faz evoluir a língua: são impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos lingüísticos". [CLG, p. 27]

Mas é a língua (e não a fala) que deve ser privilegiada como objeto de estudo da lingüística, porque "a faculdade – natural ou não – de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade". Enfim, porque "é a língua que faz a unidade da linguagem". [CLG, p. 18]

Sincronia versus Diacronia

Saussure considera que "foi necessário, primeiro, escolher entre a língua e a fala; agora, estamos na encruzilhada dos caminhos que conduzem, um à diacronia, outro à sincronia". [CLG, p. 114]

E propõe, esquematicamente, "a forma racional que deve assumir o estudo lingüístico" [CLG, p. 115]:

1. linguagem
1.1. língua
1.1.1. sincronia
1.1.2. diacronia
1.2. fala

Saussure indica os dois eixos que "todas as ciências deveriam ter interesse em assinalar":

"1º O eixo das simultaneidades, concernente às relações entre coisas coexistentes, de onde toda intervenção do tempo se exclui, e 2º O eixo das sucessões, sobre os quais não se pode considerar mais do que uma coisa por vez, mas onde estão situadas todas as coisas do primeiro eixo com suas respectivas transformações." [CLG, p. 95]

"É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência, diacrônico tudo que diz respeito às evoluções." [CLG, p. 96]

Sincronia designa "um estado da língua". Diacronia designa "uma fase de evolução". [CLG, p. 96]

Para a Lingüística, tal distinção é imperiosa, porque "a língua constitui um sistema de valores puros que nada determina fora do estado momentâneo de seus termos". [CLG, p. 95]

Saussure privilegia a lingüística sincrônica, porque "a língua é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica". [CLG, p. 102]

Estabelecendo um paralelo entre sincronia e diacronia, o mestre genebrino estabelece as diferenças metodológicas:
"A sincronia conhece somente uma perspectiva, a das pessoas que falam, e todo o seu método consiste em recolher-lhes o testemunho".

"A lingüística diacrônica , pelo contrário, deve distinguir duas perspectivas: uma prospectiva, que acompanha o curso do tempo, e outra retrospectiva, que faça o mesmo em sentido contrário".

"O estudo sincrônico não tem por objeto tudo quanto seja simultâneo, mas somente o conjunto dos fatos correspondentes a cada língua", dialeto ou subdialeto. (Saussure sugere a substituição do termo sincrônico por idiossincrônico.)

A lingüística diacrônica opera numa perspectiva oposta, pois "é justamente a sucessão dos fatos diacrônicos e sua multiplicação espacial que cria a diversidade dos idiomas". [CLG, p. 106]

O lingüista suíço repete: "enquanto a Lingüística sincrônica só admite uma única perspectiva, a dos falantes, e por conseguinte um único método, a Lingüística diacrônica supõe, conjuntamente, uma perspectiva prospectiva, que acompanha o curso do tempo, e uma perspectiva retrospectiva, que o remonta". [CLG, p. 247]

O mestre genebrino esclarece que "enquanto a prospecção se reduz a uma simples narração e se funda inteiramente na crítica dos documentos, a retrospecção exige um método reconstrutivo, que se apoia na comparação". [CLG, p. 248]

Concluindo que "o método retrospectivo nos faz, portanto, penetrar o passado de uma língua para além dos mais antigos documentos". [CLG, p. 248]

Na perspectiva da lingüística saussuriana, "tudo quanto seja diacrônico na língua, não o é senão pela fala. É na fala que se acha o germe de todas as modificações: cada uma delas é lançada, a princípio, por um certo número de indivíduos, antes de entrar em uso". [CLG, p. 115]

"Mas todas as inovações da fala não têm o mesmo êxito e, enquanto permanecem individuais, não há por que levá-las em conta, pois o que estudamos é a língua; elas só entram em nosso campo de observação no momento em que a coletividade as acolhe." [CLG, p. 115]

Para a lingüística saussuriana, "o único objeto real da Lingüística é a vida normal e regular de um idioma já constituído". [CLG. p. 86]

"À sincronia pertence tudo o que se chama 'gramática geral', pois é somente pelos estados de língua que se estabelecem as diferentes relações que incumbem à gramática." [CLG, p. 117]

Saussure adverte, contudo, que "a noção de estado de língua não pode ser senão aproximativa" [CLG, p. 118], pois, "na prática, um estado de língua não é um ponto, mas um espaço de tempo, mais ou menos longo, durante o qual a soma de modificações ocorridas é mínima". [CLG, p. 117-118]

Relações Sintagmáticas versus Relações Paradigmáticas

Segundo Saussure, "num estado de língua, tudo se baseia em relações". [CLG, p. 142] E explicita: "tudo o que compõe um estado de língua pode ser reduzido a uma teoria dos sintagmas e a uma teoria das associações". [CLG, p. 158]

Saussure considera que, "de um lado, no discurso, os termos estabelecem entre si, em virtude de seu encadeamento, relações baseadas no caráter linear da língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo. Estes se alinham um após outro na cadeia da fala. Tais combinações, que se apóiam na extenção, podem ser chamadas de sintagmas". [CLG, p. 142]

"Por outro lado, fora do discurso, as palavras que oferecem algo de comum se associam na memória e assim se formam grupos", segundo o lingüista suíço. "Essas coordenações", observa, "não têm por base a extenção; sua rede está no cérebro; elas fazem parte desse tesouro interior que constitui a língua de cada indivíduo. Chama-las-emos relações associativas." [CLG, p. 143]

"A relação sintagmática existe in praesentia; repousa em dois ou mais termos igualmente presentes numa série efetiva. Ao contrário, a relação associativa une termos in absentia numa série mnemônica virtual." [CLG, p. 143]

"O sintagma se compõe sempre de duas ou mais unidades consecutivas", explica o mestre genebrino. E acrescenta: "Colocado num sintagma, um termo só adquire o seu valor porque se opõe ao que o precede ou ao que o segue, ou a ambos". [CLG p. 142]

Na lingüística saussuriana, "a noção de sintagma se aplica não só às palavras, mas aos grupos de palavras, às unidades complexas de toda dimensão e de toda espécie (palavras compostas, derivadas, membros de frase, frases inteiras)". [CLG, p. 143-144]

"Cumpre reconhecer, porém, que no domínio do sintagma não há limite categórico entre o fato de língua, testemunho de uso coletivo, e o fato de fala, que depende da liberdade individual." [CLG, p. 145]

Saussure observa que "a frase é o tipo por excelência de sintagma. Mas ela pertence à fala e não à língua". [CLG, p. 144]

No entanto, pertencem à língua, as frases feitas, as expressões fixadas pelo uso e as palavras que se caracterizam por anomalias morfológicas que se impõem por força do uso ("esses torneios não podem ser improvisados; são fornecidos pela tradição"). [CLG, p. 144] Também pertencem à língua os "sintagmas construídos sobre formas regulares". [CLG, p. 145]

Com respeito às relações paradigmáticas, Saussure ensina que "os grupos formados por associação mental não se limitam a aproximar os termos que apresentam algo em comum; o espírito capta também a natureza das relações que os unem em cada caso e cria com isso tantas séries associativas quantas relações diversas existam". [CLG, p. 145]

Saussure enumera relações paradigmáticas implicadas por radical, sufixo, significado, imagem acústica, etc., em séries associativas que se caracterizam por ser de ordem indeterminada e número indefinido. [CLG, p. 146]

"Entretanto", observa, "desses dois caracteres da série associativa, ordem indeterminada e número indefinido, somente o primeiro se verifica sempre; o segundo pode faltar. É o que acontece num tipo característico desse gênero de agrupamento, os paradigmas de flexão." [CLG, p. 147]

Segundo Saussure, a flexão é "uma forma típica da associaçcão das formas no espírito do falante"; enquanto a sintaxe, como "teoria dos agrupamentos de palavras, entra na sintagmática, pois esses agrupamentos supõem sempre pelo menos duas unidades distribuídas no espaço". [CLG, p. 158]

Saussure propõe reduzir "cada fato à sua ordem, sintagmática ou associativa, e coordenar toda a matéria da Gramática sobre esses dois eixos naturais". [CLG, p. 159]

A Arbitrariedade do Signo Lingüístico

"A arbitrariedade do signo" é o primeiro dos princípios gerais da língüística saussuriana. (O segundo é o caráter linear do significante.)

Saussure ensina que "o laço que une o significante ao significado é arbitrário ou então, visto que entendemos por signo o total resultante da associação de um significante com um significado, podemos dizer mais simplesmente: o signo lingüístico é arbitrário". [CLG, p. 81]

"Como prova", diz ele, "temos as diferenças entre as línguas e a própria existência de línguas diferentes". [CLG, p. 82]

Saussure considera inconveniente empregar a palavra símbolo para o signo lingüístico, porque "o símbolo tem como característica não ser jamais completamente arbitrário; ele não está vazio, existe um rudimento de vínculo natural entre o significante e o significado". [CLG, p. 82]

Mas a palavra arbitrário "não deve dar a idéia de que o significado dependa da livre escolha do que fala", adverte. Para explicar em seguida: "queremos dizer que o significante é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço natural na realidade". [CLG, p. 83]

Com respeito às onomatopéias, o mestre genebrino diz que "sua escolha é já , em certa medida, arbitrária, pois que não passam de imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos". E que, "uma vez introduzidas na língua, elas se engrenam mais ou menos na evolução fonética, morfológica, etc., que sofrem as outras palavras". Para ele, isso é a "prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para adquirir o do signo lingüístico em geral, que é imotivado". [CLG, p. 83]

O mesmo raciocínio vale para as exclamações: "Basta comparar duas línguas, sob esse aspecto, para ver o quanto tais expressões variam de uma para outra língua". [CLG, p. 83-84]

Discutindo a "imutabilidade e mutabilidade do signo", Saussure insiste no "caráter arbitrário do signo lingüístico". Ele diz que "a própria arbitrariedade do signo põe a língua ao abrigo de toda tentativa que vise a modificá-la". Isso porque, "para que uma coisa seja posta em questão, é necessário que se baseie numa norma razoável". Ele mostra que seria possível "discutir um sistema de símbolos, pois que o símbolo tem uma relação racional com o significado; mas para a língua, sistema de signos arbitrários, falta essa base, e com ela desaparece todo terreno sólido de discussão". [CLG, p. 87]

Concluindo: "Justamente porque o signo é arbitrário, não conhece outra lei senão a da tradição, e é por basear-se na tradição que pode ser arbitrário".[CLG, p. 88]

Mas, prosseguindo a discussão, ele vai observar mais adiante: "Uma língua é radicalmente incapaz de se defender dos fatores que deslocam, de minuto a minuto, a relação entre o significado e o significante. É uma das conseqüências da arbitrariedade do signo". [CLG, p. 90]

Saussure distingue "o arbitrário absoluto e o arbitrário relativo".

"O princípio fundamental da arbitrariedade do signo não impede distinguir, em cada língua, o que é radicalmente arbitrário, vale dizer, imotivado, daquilo que só o é relativamente. Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária; em outras, intervém um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimi-lo: o signo pode ser relativamente motivado." [CLG, p. 152]

É nesse sentido que ele se refere à "limitação do arbitrário": "todo o sistema da língua repousa no princípio irracional da arbitrariedade do signo que, aplicado sem restrições, conduziria à complicação suprema; o espírito. porém, logra introduzir um princípio de ordem e de regularidade em certas partes da massa dos signos, e esse é o papel do relativamente motivado". [CLG, p. 154]

O mestre genebrino observa que "os diversos idiomas encerram sempre elementos das duas ordens – radicalmente arbitrários e relativamente motivados –, mas em proporções as mais variadas". Concluindo: "as línguas em que a imotivação atinge o máximo são mais lexicológicas, e aquelas em que se reduz ao mínimo, mais gramaticais". [CLG, p. 154]

Exemplificando: o inglês seria lexicológico; o alemão, gramatical; o chinês, ultralexicológico; o indo-europeu e o sânscrito, ultragramaticais.

Para Saussure, "no interior de uma mesma língua, todo movimento da evolução pode ser assinalado por uma passagem contínua do motivado ao arbitrário e do arbitrário ao motivado". [CLG, pp. 154-155]

...

Esta obra revolucionou os estudos lingüísticos e projetou-se para além da lingüística, influenciando a corrente estruturalista nas ciências humanas, notadamente a semiologia de Roland Barthes, a psicanálise de Lacan, a etnologia de Lévi-Strauss, a filosofia de Derrida e o marxismo de Althusser.

Ref.: SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 24ª ed., São Paulo: Cultrix, 2002. [CLG]


Endereço para correspondência:
sergiogranja@hotmail.com