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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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ADRIANA LISBOA

Por Francisco Carlos Malta
Graduado em 2004/1 – Campus Rebouças
Ator

Adriana Lisboa


Nasceu em 1970, no Rio de Janeiro, onde vive. Adriana Lisboa cresceu entre a cidade e a fazenda de sua família, no interior do Estado, tendo, ainda, morado em Brasília, Paris e Avignon. Estudou Música (foi flautista, cantora e professora) e há algum tempo se dedica exclusivamente à literatura, sendo pós-graduada em Letras. Trabalha também como tradutora de obras estrangeiras – é sua a tradução do recém-lançado dicionário O pequeno rebelde, da francesa Claudine Desmarteau. Publicou os romances Os fios da memória (1999) e Sinfonia em branco (2001) e Um beijo de colombina – todos pela Rocco. É casada com o escritor Flávio Carneiro e mãe de Gabriel.

Adriana é hoje considerada por muitos como uma revelação no campo da escrita, ao ter sido agraciada com o Prêmio Literário José Saramago com o seu Sinfonia em branco, em 2003. Participou, em 2004, da Festa Literária Internacional de Paraty.


REDE DE LETRAS
: Tanto na música, como no cinema, na pintura e na literatura, os artistas não conseguem estabelecer um diálogo com a sociedade contemporânea. A que se deve isso?

Por incrível que pareça, na minha opinião isso se deve a um excesso de fala. Desaprendeu-se a arte do silêncio. O escritor Gustavo Bernardo diz que "valorizar a palavra depende, simplesmente, de saber fazer silêncio, bem como de aprender a ouvir o silêncio dos outros". Isso, naturalmente, não é válido apenas para a literatura. É preciso menos quantidade e mais qualidade. Menos ruído branco, menos estática, e "falas" mais conscientes e intensas. Talvez os artistas estejam monologando, voltados para o próprio umbigo, em vez de dialogar. Octavio Paz dizia, nos anos 60, que já não estamos mais sós no mundo, e que se verifica uma espécie de "multiplicação cancerosa do eu". Estabelecer diálogo significa redescobrir o outro, o que só se dá se recuperarmos a nossa solidão ancestral.

REDE DE LETRAS: Há os que afirmam que a grande crise do nosso tempo é a do desejo. Ninguém deseja mais. Somos carentes de sentido humano e conteúdo poético. O que aconteceu com os ideais nos dias de hoje?

Deseja-se muito, nos nossos dias: um carro, um emprego, uma viagem, uma prótese de silicone, o encontro sexual rápido que se consome como fogos de artifício. Mais uma vez, estamos diante do drama da contemporaneidade: a quantidade em detrimento da qualidade. Os ideais se perderam quando se perdeu a crença em que o menos pode ser mais. Só tem experiência poética em sua vida aquele que recupera o desejo pela própria vida, pelo que ela tem de inalcançável, de mágico, de nebuloso. Recuperar o sentido humano e poético é, para mim, reconquistar o silêncio e a solidão, agir menos, falar menos e, desse modo, intensificar o vivido.

REDE DE LETRAS: O homem é fruto do meio, ou ele já traz em si forças que fazem superar as circunstâncias ambientais?

O homem é fruto do meio, que é fruto do homem, que é fruto do meio. Não existe causa, se não existe conseqüência e vice-versa. Temos o poder de modificar o meio em que vivemos a partir das ferramentas que esse próprio meio nos deu. Porque, felizmente, também temos uma dádiva chamada imaginação.

REDE DE LETRAS: Quando se fala em cultura para o povo, ele reclama: nós queremos é comida. Hoje se justifica a crise cultural pela crise econômica. Os jovens não lêem porque o livro é caro e eles não têm tempo para ler. Fica ridículo falar que nem só de pão vive o homem, pois hoje o pão está faltando. O que você acha disso?

A arte é fundamental para o homem desde a idade da pedra. A arte está na esfera do mágico, do simbólico, da experiência que ultrapassa o mero nascer-crescer-reproduzir-morrer. Ou, em outras palavras: a mera, ainda que urgente e trágica, necessidade de pão. A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte, como sintetizaram tão bem os Titãs. Se o livro está caro (está mesmo? E o CD, não está?), há as bibliotecas públicas: que os poderosos as ampliem, divulguem, tornem atraentes. A educação está na base de tudo. Que desde cedo se faça da arte e da cultura bens tão necessários quanto a casa, a saúde e o pão, porque precisamos formar indivíduos sensíveis e pensantes, e não meros bichos humanos, alimentados e mudos.

REDE DE LETRAS: Quais os autores que mais marcaram a sua formação literária?

É preciso muito cuidado para não ser pretensiosa ao responder a essa pergunta, Francisco. Vou citar alguns autores que não sei até onde me marcaram/ influenciaram como escritora, mas que tiveram peso inegável na minha vida de leitora. Eu me lembro, sobretudo, da experiência divisora de águas que foi para mim ler, aos 14 anos, o livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Antes disso, quando criança, eu convivia com o mundo mágico da Lygia Bojunga, que ainda amo, e que leio para o meu filho hoje em dia. Depois vieram, aos 18, 20 anos, os livros do Saramago, sobretudo Memorial do convento, e do Guimarães Rosa. Além deles, eu citaria, como leitura recorrente, Borges, Cortázar, Manuel Bandeira, Marguerite Yourcenar e, mais recentemente, a poesia do mestre japonês Bashô. Mas repito: será que me influenciei por eles? Não é querer demais?

REDE DE LETRAS: A literatura, como a arte em geral, é uma forma de fugir da realidade?

Sim e não. A literatura e a arte fazem, ou deveriam fazer, como eu disse lá atrás, parte da nossa realidade humana, ainda que num nível diferente. Elas nos complementam, nos enriquecem, nos dão a experiência do sonho, da magia, do encantamento. E, simultaneamente, são uma forma de realizar aquilo que não é passível de ser realizado na "vida real" – mais ou menos como os sonhos, em que é possível voar, respirar debaixo d'água, rever os mortos. Eu confesso que me escondo muitas vezes no que escrevo, recorro à literatura para calafetar lacunas da minha própria vida, mas quando faço isso estou, paradoxalmente, vivendo, e muito.

REDE DE LETRAS: Será que a realidade é apenas um alicerce para os nossos sonhos?

Há uma história famosa do sábio taoísta Chuang Tzu, que sonhou ser uma borboleta e se perguntou, ao acordar: será que eu era Chuang Tzu sonhando ser uma borboleta, ou será que agora sou uma borboleta sonhando ser Chuang Tzu? A realidade está transpassada pelo sonho. Nossa imaginação, nossa capacidade de sonhar, é o que nos salva da mediocridade.

REDE DE LETRAS: Muito já foi falado da originalidade de seus livros.Como manter o equilíbrio dessas forças de modo que a influência não sufoque a voz própria da autora?

Não sei se acredito na idéia da originalidade. Só sou escritora porque sou leitora, e o que há em tudo o que eu escrevo é ressonância de leituras prévias. Claro que para reverberar essas leituras surge a necessidade de uma voz própria, que eu tento cultivar através da humildade e da coragem – duas palavrinhas de que gosto muito e que são difíceis à beça de manter na ativa. Sobretudo, acho que é preciso calma com o que se escreve, paciência maternal, mas ao mesmo tempo um olhar crítico bem consciente de que escrever é quebrar pedra também. Ou seja: que não existe uma "inspiração divina" que desce dos céus, mas o trabalho, que deve se valer da tensão e do relaxamento em doses equilibradas.

REDE DE LETRAS: Você acha que o que difere o bom escritor dos demais é o discernimento na hora de escrever?

Em parte sim, Francisco, embora haja, como exceções a confirmar a regra, excelentes escritores absolutamente intuitivos. Acho que o que alça um escritor à categoria de "bom escritor" é a forma como ele negocia com sua própria imaginação e a de seu leitor, mas existe também uma parte técnica, como em toda arte. Pelo fato de as palavras fazerem parte do nosso cotidiano, servirem para a comunicação, a gente se esquece disso. Mas a palavra literária não é idêntica à palavra do uso pragmático. Gosto de imaginar um escritor tendo de manejar a palavra como um violoncelista maneja seu instrumento, ou como um pintor maneja seus pincéis. Não basta chegar e sair fazendo – é preciso intimidade com o que se faz, conhecimento do que se faz e autocrítica. Ainda assim, existe um dado imponderável, talvez aquilo a que costumamos nos referir como "talento". Mas o que diabos é o talento?

REDE DE LETRAS: T.S.Eliot dizia que os poetas, antes de se lançarem em edições individuais, deviam fazer parte de antologias, onde ficariam conhecidos ao lado de outros poetas jovens da mesma geração.Qual a sua opinião sobre os
movimentos literários atual no Brasil de hoje?

Eliot falava de uma época em que os movimentos literários eram necessários, historicamente falando. Hoje em dia não são mais. Quando ouço autores contemporâneos querendo-se parte de movimentos, me vem a desconfortável sensação de estar diante de algo ultrapassado, algo que não se justifica mais. Aliás, essa multiplicidade saudável vem sendo atestada por certas antologias de contos e poesia, por exemplo, que em vez de revelar uma unidade deixam patente a polifonia. Para mim, já não há mais geração nem movimento. Ainda bem.

REDE DE LETRAS: Baudelaire afirmava que a crítica para sua razão de ser, deve ser parcial, apaixonada e política. E você como se relaciona com a crítica?

Sérgio Milliet dizia não haver livros melhores ou piores, "mas apenas obras que merecem discussão e obras que devem ser entregues a nosso amigo, o tempo". Paralelamente, toda crítica é parcial, porque o gosto do crítico sempre entra em cena. Acredito que a crítica faça uma mediação importante entre artista e público, mas, como escrevi certa vez num artigo, essa mediação precisa ser uma estrada de mão dupla, e não um juízo de valor tão arrogante quanto arbitrário, e unilateral. Prefiro as críticas capazes de situar um livro, de contextualizá-lo, de descrevê-lo com inteligência e simpatia àquelas que taxam-no de "bom" ou "ruim". Filosoficamente falando, seria a diferença entre o cético, que apenas pergunta, duvidando sempre e investigando sempre, e o dogmático, que já tem todas as respostas prontas e com isso dá o atestado de óbito ao pensamento.

REDE DE LETRAS: Você trabalha com roteiro. Como vê os roteiros do atual momento no cinema nacional?

Francisco, tive uma única experiência como roteirista para o novo filme do André Sturm, que ainda está em fase de captação de recursos, e portanto não dá para avaliar o resultado. Confesso que me sinto insegura, quanto à parte que me cabe, ou coube, justamente por não ser roteirista. Temos tido excelentes roteiros no cinema brasileiro, mas muitas vezes os roteiristas decidem escrever romances, e o resultado nem sempre é tão bom. As linguagens são totalmente diferentes.

REDE DE LETRAS: A leitura de roteiros consagrados facilita o aprendizado?

Para roteiristas, sim, não há a menor dúvida. Se bem que há que se fugir do pernicioso modelo enlatado norte-americano, não é mesmo?

REDE DE LETRAS: Com freqüência, você lança luzes sobre os chamados "autores estrangeiros". Essa é outra vertente sua, o ofício de tradutora. Fale dessa experiência.

Trabalho ininterruptamente como tradutora há quatro anos, praticamente sem férias. No momento estou tão cansada que em 2005 vou tirar pelo menos seis meses sem traduzir nada. Mas há que reconhecer: é, em primeiro lugar, uma lição de humildade, porque nos vemos obrigados, para fazer uma boa tradução, a respeitar o texto do outro, que nem sempre aprovamos. Ao mesmo tempo, é um ótimo exercício para treinar o ouvido. Hoje identifico bem mais facilmente cacófatos, rimas internas, aliterações. Isso me ajuda a escrever minha ficção.

REDE DE LETRAS: O escritor reúne fragmentos da realidade, reconstrói os trechos em outra seqüência e faz literatura. A vivência dessa reconstrução através da leitura vale como se fosse uma experiência da própria realidade, ou é outra coisa?

Disse Fernando Pessoa que a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta. A vida não é suficiente e não será nunca. Por isso, a inutilidade de se correr atrás de mais: depois do mais, haverá o mais ainda, e nós sempre com aquele buraco na alma. Escrever é uma forma de intensificar o vivido e criar o que não foi vivido. Para mim, as duas coisas se intercomunicam muito. Como na história do sonho de Chuang Tzu.

REDE DE LETRAS: O que significou para você o prêmio Saramago de literatura?

Muita coisa. Bom, para começar eu paguei umas contas, o que foi ótimo! Mas falando sério, em primeiro lugar o prêmio me deu a oportunidade de conhecer o Saramago, o que por si só já foi um prêmio para esta escritorazinha provinciana e tiete que sou. Depois, é inegável que outras oportunidades surgiram. Fui publicada em Portugal, acabei assinando um contrato com a mesma agente literária do Saramago (a alemã Ray-Güde Mertin), que no momento está negociando os direitos de tradução dos meus livros para outros países – o primeiro com que fechamos, veja só, foi a Suécia. Tudo isso, não há dúvidas, devo ao prêmio.

REDE DE LETRAS: O que você aconselharia a um estudante de Letras, que deseja iniciar na arte da escrita?

Além de fazer daquelas duas palavrinhas, humildade e coragem, sua religião, eu aconselharia muita, muita leitura. Só aprendemos a escrever se aprendemos primeiro a ler.

Leia textos da autora nos endereços abaixo:
http://www.releituras.com/adrilisboa_menu.asp
http://www.releituras.com/adrilisboa_primavera.asp
http://veraoazul.weblog.com.pt/arquivo/048329.html

Endereço para correspondência:
franciscomalta@hotmail.com

 

Blog do autor:
www.ficcionista.blogger.com.br