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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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UMA CAIXA DE SAPATO

Carlos Peicy
Aluno do 1º período – Campus Méier

 

 

Certa noite eu estava saindo da faculdade Estácio de Sá e, como de costume, fui para o ponto de ônibus, assim que acabou a aula.

Ao entrar no ônibus, deparei-me com dois bancos vazios, um ao lado direito e o outro ao lado esquerdo; agradeci a Deus, pois iria sentado até a casa. Aproximando-me do banco direito… Um susto! Uma caixa de sapato! Sentei-me, então, do lado oposto, mas desde tal momento não nos desgrudamos um único segundo: eu a fitava e ela olhava-me enternecidamente. Logo percebi que não era o único a cortejá-la; na verdade todos no ônibus a queriam.

Terá alguém esquecido seu tênis no ônibus? Coitado desse pobre homem! Mas poderia ser de um homem rico; não! Dificilmente seria deste rico, andando de ônibus?!

Passei a namorá-la ainda mais e já tinha até ciúmes. Quem sabe? Estaria ali dentro o meu mais intrínseco momentâneo sonho burguês – um Nike doze molas, que queria tanto comprar, mas meu ínfimo salário de proletário nem permitia sonhar. Poderia ser uma brincadeira de mau gosto: cobras, escorpiões, baratas, ratos… Provavelmente seria dinheiro roubado em algum banco?

O ônibus adentrou no subúrbio carioca e parou em Piedade. Alguns estudantes da Gama Filho entraram e um atreveu-se a sentar ao lado da minha pequena caixinha. Era uma garota, não lembro muito bem suas características físicas, porém recordo que não era feia, não estava dentro desse padrão global de moda, mas era bonita e, apesar de estar no auge com meus hormônios, não dei importância àquela beleza humana: estava apaixonado mesmo por outra beleza mais apurada, pequena e encantadora.

Passamos todos a desejar uma só coisa que, com os tombos e solavancos do ônibus talvez ela caísse. Sim, ela iria cair: era só uma questão de tempo. Eu tinha que estar preparado para pegá-la e não deixaria que ninguém a tocasse, minha pobre caixinha.

De repente, ela caiu! De forma encantadora como uma bailarina… e estava simplesmente vazia.