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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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UMA FAMÍLIA DAQUELAS

Raimundo Lopes Cavalcante Jr.
Aluno do 2º período – Campus Méier
Analista de sistema

 

Lá vem subindo Maria, com uma enorme trouxa de roupas para passar.

Ela, como tantas outras, é dona Maria... também é Aparecida, como a Virgem que protege a parede do seu cômodo de dormir, o terceiro e último cômodo de um barraco num desses morros cariocas. Dona Maria Aparecida é passadeira e trabalha num programa da associação de moradores que atende a outras Marias, as da classe média, que não têm tempo para esse tipo de serviço.

Aparecida, como a conhecem, é mãe solteira. Seus filhos, Jéferson o caçula, tem quinze anos, e Daiane, dezesseis. O pai? Sumiu. Como ela mesma diz: "– É melhor nem procurar, senão a gente acha". E conclui : "– Cansei de apanhar da vida. Chega!"

Daiane sonha em ser modelo, faz um cursinho no Senac que a madrinha ajuda a pagar. Daiane quer ser famosa, aparecer na TV, virar celebridade e tirar a família da favela: só não consegue passar de ano... faz a sétima pela terceira vez. Ela diz que não consegue dormir direito, porque toda noite tem barulho na laje. São os caras passando. De manhã, não consegue se concentrar nas aulas...

Jeferson quer trabalhar com informática, mas aceita qualquer serviço. Sempre fez biscates e desde os onze anos ajuda a mãe com algum trocado. Agora ele entrega revistas para os assinantes. Pega a bicicleta do primo emprestada e vai fazendo as entregas de porta em porta. Ele quer voltar a estudar, mas como diz "tem vergonha de entrar na quinta série e encontrar aquele monte de criança pequena e ele ser o maior".

O pesadelo de dona Aparecida é o de ver Jéferson saindo para as festas e voltando tarde dos bailes. "– Tem muita gente ruim nesse mundo", diz ela. "– Eles só querem uma chance pra fazer maldade e viciar os filhos da gente", complementa. Dona Aparecida sabe que o perigo existe; afinal, por mais boa índole que seu filho tenha, um dia pode cansar de batalhar e resolver aceitar o convite dos malandros. Volta e meia o crime passa na porta de dona Aparecida. Ele é magrela, assustado, de arma na mão; geralmente pede licença e passa correndo.

"– E se a polícia vier atrás e confundir meu Jéferson com bandido... Nem sei... Acho que morro junto".
"– E se Daiane se engraça por um desses caras... nem pensar! Eu mato ela!", esbraveja, repelindo o mau pensamento.

Para se proteger, todo sábado à noite dona Aparecida vai ao culto junto com a vizinha Cleonice e ora pelos filhos e para melhorar de vida. Ela acha o pastor simpático, embora goste mesmo é da umbanda, pois as músicas são melhores, como costuma dizer : "– É mais animado, tem um pagode melhor".

Lá vai descendo Maria, levando a trouxa já passada e rezando, "pra" Nossa Senhora.

Endereço para correspondência:
rlopescjr@terra.com.br