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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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UM CERTO ESTADO DE ESPÍRITO

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em 2002/2– Campus Méier
Pós-Graduação - UERJ em Língua Portuguesa

 

O dia amanheceu azul. Uma quantidade enorme de algodão parece ter sido desfiada para quebrar a monotonia do espaço celestial. O sol brilha num tímido ar de outono, que promete amarelar as folhas da amendoeira, sentinela constante do portão de entrada. Porém, apesar de o cenário predizer que ventos alísios soprarão suavemente, há na atmosfera o arrepio de um gato, que se encolhe e procura um canto qualquer da casa para ficar sozinho.

Não há nada de estranho acontecendo senão uma estranheza interior, perambulando pelos cômodos da alma inquieta e calma, como se aquela preocupaçãozinha fosse tomar a forma de um gigante descuidado, que esmaga todas as belezas naturais sob pés que pisam sem ver o que pisam.

No quarto, a cama arrumada: o lençol encontra-se esticado como quem se espreguiça e se congela no ato de espreguiçar, e a colcha fecha o quadro de organização inerte e temporária, porquanto, a qualquer momento, o movimento do pincel descobrirá o lençol e transformará a paisagem num leito, onde o corpo cansado amassará a fronha e desalinhará toda lisura – em pleno descanso, há movimento, há sonho, pesadelo, alegria e tormento.

Na sala, flores trazem vida para o interior, mas o interior permanece desértico. Uma abelha solitária voa e revoa ao redor das flores e, em sua despedida de trabalhadora que sai para alimentar a colméia, passa em frente aos quadros, mostrando que há outras flores: flores rotineiras, joviais, intocadas, cheias de vitalidade e preservadas por um outro pincel; flores mui apreciadas, mas que não satisfazem, não preenchem a necessidade do tato, do olfato e da visão.

Em qualquer lugar da casa, as janelas estão abertas. Umas revelam apenas a luminosidade do dia, outras deixam passar com a brisa os raios de sol, peneirados por cortinas de renda, que balançam como se imitassem o vai-vem das ondas de um mar preguiçoso e lânguido. E os bichos parecem solidários: o gato refugiado, o passarinho mudo e os peixes lentos, quase parados, também esperam o retorno de algo que se fazia mais agradável. Não há um cômodo da casa nem da alma que justifique aquela estranheza ou o comportamento dos animais. No entanto, as horas passam, os astros movimentam-se e, na transformação das horas e dos aspectos, tudo voltará ao normal – se é que havia alguma anormalidade nos momentos anteriores do dia... Enquanto isso, é melhor que a solidão dê o braço à estranheza e que cada uma cumpra a sua função psíquica-metafísica.

Quando essas coisas acontecem, até os amigos mais íntimos soam como velada ameaça a algo indefinível, tão indefinível quanto a ameaça que não existe. O jeito é imitar os bichos e aguardar pacientemente. Os olhos do cão-de-guarda serão abertos por uma força invisível, e uma eletricidade percorrerá a sua cauda num abanar frenético, agitando a vida e o ambiente, e tudo voltará ao normal. O que era estranho partirá como a abelha, zunindo silenciosa, ao deixar os cômodos da alma e da casa em paz e feliz.

Endereço para correspondência:
usc.rj@globo.com