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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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FUGA

Enivan Gomes de Amorim
Aluno do 4º período – Campus Rebouças

Depois de ajeitar os cabelos com delicadeza, quis dizer alguma coisa e, como se sentisse uma terrível indecisão, arriscou algo que provavelmente me agradaria. Terminara de ler Van Gogh e agora lia Picasso. Enganou-se! Aquele não era o assunto que eu queria naquele momento. Assenti sem palavras; ela insistiu: "Por que todo artista tinha uma vida tão complexa e cheia de angústias?" Eu não era artista; vivia uma angústia profunda e pressentia uma grande complexidade se aproximando. Pensei; mas senti que agora teria que dizer alguma coisa. Veio em minha mente um texto de Hegel sobre estética; entretanto tive o bom senso de lembrar-me que Filosofia não era o meu forte; além do mais, perderia preciosos minutos em divagações que não ajudariam o meu propósito; se é que a Filosofia ajuda o propósito de alguém.

Eu podia sentir com precisão cada veia que pulsava em meu corpo. A mão ansiosa esboçava a todo instante um ato que poderia ser irreversível. Sempre tive medo dessas situações em que o corpo não obedece a mente. A sensação que tinha é que ela não havia chegado em minha vida, já estava em algum canto adormecida e despertou num dado momento, assim como um vento intempestivo, que numa pacata tarde de verão surge do nada e para o nada se vai, deixando um rastro de destruição e medo. Ela me causava medo! De repente, coragem, às vezes, vulnerabilidade; tristeza? Não! Talvez apreensão, mas o conjunto de tudo isso era um sentimento de alívio, uma sensação de bem estar que com o tempo eu aprendi a chamar de felicidade. Não conseguia mais imaginar minha vida sem ela. Lembro-me que antes dessa "enfermidade", sem qualquer intenção, falei-lhe de uma obra de Van Gogh que me deixara grande impressão, uma lavoura de trigo que ele tornou a pintar pouco antes de sua morte. A conturbada vida do artista a interessou, assim como outros artistas os quais eram também motivo de nossas conversas que acabaram de nos colocar naquele labirinto.

Seu marido chegaria a qualquer momento e ela o amava... Eu poderia encher cada intervalo da nossa conversa com infinitas histórias, fantasias, porém ficava preso em seus pequenos gestos e aproveitava cada fenda de sua respiração para iludir-me que ela diria aquilo que eu tanto queria ouvir. O marido chegaria dali a pouco. Pelo que me dizia ultimamente, deduzi que ele já conhecia minhas intenções. Precisávamos falar sobre alguma coisa. Ela sempre tomava a iniciativa. "Seu casamento havia sido uma cerimônia para poucas pessoas, os dois acharam por bem um conjunto de cordas que tocava música barroca". Nunca tinha observado como soava mal essa palavra; "barroca"! Tivera uma dúvida cruel quanto à escolha, mas definitivamente se apaixonara por Bach. A partir daquele instante passei a odiá-lo. "O que eu achava de Vivaldi?" Pro inferno Bach, Vivaldi ou Van Gogh! Esses infelizes poderiam até saber dizer o que eu estava sentindo, mas não tinham para mim nenhuma solução. Os minutos tinham pressa, aquela certamente seria minha última oportunidade e eu sequer ordenara minhas idéias. O que acontecia dentro de mim devia estar de alguma maneira estampado no meu rosto e ela nada dizia que pudesse tirar-me daquela agonia. E se ele aparecesse e a levasse para sempre? Eu não conseguiria viver com aquela dúvida (o que ela sentia por mim?), levaria meus dias a acusar-me daquela inércia, acabaria decepando uma de minhas orelhas!

Eu nada consegui dizer, ele chegou e tratou-me como eu merecia, como merecem todos que se acovardam diante da única chance de sua vida. Levou minha última esperança, o ponto de fuga que eu usava como escudo. Aquela tênue ilusão, que me fizera um dia pintar minha vida de cores calmas e serenas, agora, deixava com sua partida um pincel de cores quentes, angustiantes e eu, com dificuldade para manuseá-lo, fazia traços imprecisos na tela da minha existência. Colocava ali uma mente em desordem e um coração que sangrava.

Revendo minha vida, essa história parecia que acontecia em círculos, cada episódio emendava-se em outro fazendo volutas infinitas. Naquele momento talvez fosse conveniente uma música de Bach.

Rio de Janeiro, outubro de 2004.