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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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O CÂNONE MODERNISTA: MACUNAÍMA

Beatriz Dias Menezes Bastos
Aluna do 7º período - Campus Méier

O batizado de Macunaíma - Tarsila do Amaral


O texto de Mario de Andrade carrega consigo os traços que marcaram o movimento modernista em sua primeira fase, ou seja, década de 20.

Entender a dinâmica do pensamento Modernista ocorrido no Brasil, na segunda década do século XX, pressupõe compreender a experiência estética produzida pelos artistas da época.

Macunaíma exemplifica de forma global o movimento ocorrido na literatura, pois aponta para fatores que inquietavam o gênio artístico no momento. Apesar da possibilidade de influência cultural externa na corrente modernista brasileira, a questão da identidade nacional move novamente o sentimento do artífice.

É possível, através da obra, destacar a visão do artista sobre o "tipo" brasileiro na sua mais transparente versão. O herói é o capiau, o matuto, o sertanejo e o pescador, é até o "doutor"; é, acima de tudo, o representante antropológico e mítico da origem latina. Nesse sentido, a discussão central do texto é a caracterização do procedimento social desse homem. Estudado dessa maneira, o texto é de um profundo realismo, porque denota, a partir da proximidade lingüística doravante re-apresentada através da experiência Modernista com a leitura de mundo exercida pelo próprio cidadão brasileiro, o compromisso assumido com aquilo que existe de fato no discurso que é a marca de sua identidade. Na verdade, o narrador "conta histórias" como qualquer contador de histórias em língua "brasileira".

(...) "Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente". (p. 226)

Baseados no modo como o autor utiliza o registro lingüístico coloquial na tarefa final, percebemos a criação de imagens poéticas em uma língua pesquisada e trabalhada na produção literária, todavia não se expresse de forma costumeira nesta variedade, nem tão pouco seus leitores, porém, acima desse fato, exista a concretização da comunicação.

Pensar Modernismo é questionar-se acerca do título do livro: "herói sem caráter". É mesmo sem caráter esse herói? O que o narrador nos aponta de mau caráter que compõe o perfil psicológico do herói? Se voltarmos nossa reflexão para o herói grego, vamos verificar que ele representava o povo em sua luta: povo, herói e poder estavam no mesmo nível de demanda, o herói lutava em nome de seus iguais. Daí podermos aproximar Macunaíma do arquétipo grego, uma vez que seu epíteto nos permite essa interpretação. A personagem é símbolo da memória da nação e, para manter a tradição que defende, ele é fiel e principalmente ético com aquilo que retrata.

Estamos diante de um clássico, empregando a definição do Prof. Ítalo Calvino, Macunaíma trata-se de obra inaugural, representante concreta da escola Modernista brasileira, palavras que devem ser lidas por aqueles que desejem formar conhecimento com as fronteiras do pensamento do Brasil.

Mário de Andrade

 

Endereço para correspondência:
bemeba@bol.com.br