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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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O POETA ALÉM DOS MANUAIS

Luiz Horácio Pinto Rodrigues
Aluno do 1º período – Campus Méier
Roteirista, autor e colaborador do jornal Rascunho e
do site www.resenhando.com para o qual escreve sobre literatura e teatro.

Enquanto os dias passam, o tempo arranha a fúria da existência, deixando à mostra o desamparo da maltratada poesia brasileira, receptáculo de primárias catarses ou paralisantes devaneios filosóficos, que ainda exala os perfumes mais ricos graças ao elixir da simplicidade, ministrado por poetas da magnitude de Carlos Nejar.

Em seu livro mais recente, A espuma do fogo (Ateliê Editorial), poema único de quase três mil versos de grande apuro formal, comedimento emocional e condensação imagética, sem que isso resulte em hermetismos, proporcionando uma comunicação efetiva com o leitor, Nejar deu ao tempo o papel de protagonista.

"O tempo é uma inteligência que transluz, quando pergunta. E é ciência para o mistério de o destino ficar tempo e o tempo virar destino".

E o tempo que corre no pampa não guarda parentesco com nenhum outro tempo, quer da metrópole, quer da floresta: é um tempo exigente, que obriga aos olhares nenhuma pressa e aos ouvidos a intimidade com o silêncio. Como autêntico pampeano, o poeta presta reverência ao seu avô, um mensageiro do tempo, e apresenta sua terra, seus conterrâneos e suas tradições, sem apelar para patéticos estereótipos ou carnavalescos arquétipos. A ESPUMA DO FOGO traz o calor vivo, fruto da união da fantasia com a audácia.

Um dia, que já vai distante, minha filha, referindo-se ao seu avô, dizia estar com saudade do seu "pai antigo": talvez em sua inocência de começo de vida ela tenha encontrado a expressão correta e Carlos Nejar, ao guardar seu avô Miguel nos escaninhos de sua infância, lhe concede a imortalidade enquanto sabiamente conclui que o que forma, informa, transforma e..."velho é o tempo".

O poeta conhece como poucos os disfarces do tempo, dos ventos e as artimanhas da nostalgia, sabe que o tempo não costuma emprestar, mas tem enorme prazer em cobrar; e se a angústia não chega a ser uma coxilha intransponível, tampouco o pampa transpira o orvalho acre do avesso da liberdade. Só mesmo a amplitude pampeana pode conceder o espaço e conceber as coxilhas da angústia, da nostalgia, do fogo, da espiritualidade e do amor.

A espuma do fogo é uma vasta janela onde se vislumbra a imensidão do pampa e as origens gauchescas amalgamadas; a universalidade do poeta, legitimada na diversidade dos registros lingüísticos em plena harmonia com a linguagem mais coloquial, a vasculhar os rincões da memória, deixando a certeza inconteste de que cultivamos lembranças que nos farão menos solitários na hora da morte.

"No coice da estrela d'alva, ao amanhecer com as vinhas, eu fico. A morte é sozinha, por vezes, adolescente. Mas o pampa sabe sempre, com presteza o que ela sente".

Simbolismos e heroísmos na medida exata fazem de A espuma do fogo algo fora do comum no ambiente literário: em se tratando de poesia, não resta a menor dúvida que estamos diante de uma obra prima que permitirá aos desavisados, e infelizmente não são poucos, olhar para Carlos Nejar como se este fosse um peixe fora d'água quando, na verdade, esse poeta imortal é água cristalina a dessedentar o tempo e os ventos. É vida.

E justamente da arbitrariedade da vida vem à tona seu subproduto mais valioso, a aventura humana comovente e cruel, onde a liberdade é o prêmio único no embate de cartas marcadas e, sendo assim, o que fazer nesse interregno onde a angústia, fruto da consciência, transcende o devaneio? Poderá a morte ensinar mais do que a vida? A resposta está na incessante busca.

O poeta pampeano não se acomoda tampouco se acovarda – impõe movimento e, em sua sofisticada simplicidade, busca a natureza, o lirismo de suas raízes, sem cair nas teias luminosas do escapismo, e verseja na intenção de encontrar Deus.

Nejar guarda um misticismo sutil que, ao aflorar, permite ao poeta forjar palavras e expressões de uma sonoridade pouco usual, atestando sua vitalidade e precisão das imagens, sinais que o individualizam como um pintor de cuja palheta saltam cores de um aço cortante, manifestando seu amor à terra, aos seus familiares a sua Elza, ao tempo, ao vento....

"Deito com meu avô Miguel na terra. E quem te ama, Elza, é pampa, este vaso de oliveira e almas. Parras labaredas que a lareira abrasa, os rostos queimando, sem queimar a sarça. E deito-me, Elza, contigo no poema".

Tristes, muito tristes, os tempos que nos suportam e ao mesmo tempo nos permitem resistir à cruel banalização da literatura brasileira, em particular a poesia, onde a erudição passou a ser obstáculo intransponível aos novos leitores, menos mal que Carlos Nejar não dá folga a sua preocupação espiritual e como Vallejo, Guillén e Neruda está entre nós conversando, pés na terra, com a natureza. Dialogando com a mais cristalina de todas as artes, a honestidade.

"Eu sou aquele que a infância faz saber quando é despida, quando nos multa, a esperança. E talvez a vida é tanta, que nem a morte suporta".

E em busca de Deus, o poeta pampeano consegue se encontrar. Por acaso. Sem sustos. Como um grande amor.

 

Endereço para correspondência:
Lhoracio57@uol.com.br