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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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SAGITÁRIO – CRUZ E SOUZA

Adriano Andre Vilas Boas Siqueira
Professor de inglês e aluno do 5º período de Letras - Campus Rebouças

Período: 22 de novembro - 21 de dezembro
Regente: Júpiter
Elemento: Fogo
O fogo direcionado, ordenado. Expansividade. Busca pelo que está mais adiante. Visão do sentido das coisas. Espírito de inovação. O mundo da intuição e dos ideais.
Modo: Mutável

Símbolo: O arqueiro. Projeção de si mesmo, voltada para novos horizontes.
Simboliza a capacidade de entender as leis do universo. A cruz tem relação com o corpo e a matéria.

 

Cruz e Souza

Uma das características básicas do signo de Sagitário é a busca do conhecimento, em todas as direções. Sua vida gira em torno da disseminação de idéias. E assim foi, como típico sagitariano, o nosso "cisne negro", o poeta Cruz e Souza. Nascido no dia 24 de novembro de 1862, na cidade de Nossa Senhora do Desterro (hoje, Florianópolis), capital da então Província de Santa Catarina, o nosso poeta simbolista João da Cruz e Souza era filho de escravos, trazendo sangue africano sem mescla.

Com uma vida sofrida, senão trágica, foi contemplado pela família fidalga que o amparou e deu-lhe instrução: alforriado, foi acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Souza e sua esposa como o filho que não tiveram. Pobre, com a morte dos protetores, viu-se na contingência de largar os estudos e trabalhar.

Como sagitariano, sua tendência foi sempre a de seguir o alto. Não sem razão, se identificou com as construções simbolistas, tendo lido Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud e Verlaine, além de Edgar Allan Poe. A busca pelas coisas elevadas traduz-se na sua poesia, como se pode verificar no poema abaixo:

Caminho da Glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.
Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
É por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.
É por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminho,
Os seres virginais que vêm da Terra,
Ensangüentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.

E traduz-se na sua própria vida: tendo sofrido a discriminação racial de forma intensa, transformou a negatividade presente na nossa sociedade escravocrata em luta abolicionista, realizando palestras a favor da liberdade dos negros. Também fundou jornais e abraçou a defesa de uma nova tendência literária, em seus artigos:

Livre!

Livre! Ser livre da matéria escrava,
Arrancar os grilhões que nos flagelam
E livre, penetrar nos Dons que selam
A alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
Dos corações daninhos que regelam
Quando os nossos sentidos se rebelam
Contra a Infâmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
Mais junto à Natureza e mais seguro
Do seu amor, de todas as justiças.
Livre! para sentir a Natureza,
Para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

Como um bom sagitariano, sua poesia é, sem dúvida, manifestação de sua busca pela transcendência:

O Grande Sonho

Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmulas do vento
Chorar o teu mistério tenebroso.
Sobe dos astros ao clarão radioso,
Aos leves fluidos do luar nevoento,
Às urnas de cristal do firmamento,
Ó velho Sonho amargo e majestoso!
Sobe às estrelas rútilas e frias,
Brancas e virginais eucaristias
De onde uma luz de eterna paz escorre.
Nessa Amplidão das Amplidões austeras
Chora o Sonho profundo das Esferas
Que nas azuis Melancolias morre...

Cruz e Souza não poderia se ausentar da vida política, até mesmo por sua condição: mas a política não era um fim, porém um meio, pois seus interesses eram acentuadamente filosóficos, por natureza. Assim, o são os sagitarianos. Dentro desta característica, não se pode afirmar que a sua natureza sagitariana o levou à obstinada defesa da nova tendência, mas ela apresentava elementos que um sagitariano aprecia, tal como a combinação da matéria com o espírito (negando a tendência realista, para a qual toda a realidade é objetiva e deve ser trabalhada com precisão), como se pode verificar no poema abaixo:

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Por ter optado pela tendência simbolista, Cruz e Souza ainda acrescentou, às discriminações sofridas, mais uma dificuldade: a de aceitação de sua obra, criticada pela intelectualidade da época, que ainda se embalava nas tendências parnasianas. Por essa razão, sua obra só foi reconhecida após sua morte prematura.

Situações de vida o levaram mais rapidamente: a morte dos pais, a loucura de Gavita (sua mulher), bem como a morte de dois filhos abalam seu organismo e, em 1898, já tuberculoso, viaja para o balneário de Sítio, em Minas Gerais, em busca da cura. No entanto, três dias após a chegada a doença termina por vencê-lo e ele morre. Só após sua morte é que são editadas as poesias por ele deixadas, assim como textos em prosa. E só, postumamente, é que foi reconhecido como um dos maiores representantes do Simbolismo brasileiro.

Vida obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém Te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!



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