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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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CAPRICÓRNIO - CASIMIRO DE ABREU

Adriano Andre Vilas Boas Siqueira
Professor de inglês e aluno do 5º período de Letras - Campus Rebouças

Período: 22 de dezembro - 19 de janeiro
Regente: Saturno
Elemento: Terra
A terra despojada. Visão realista do mundo. Determinação e precaução. Consciência da passagem do tempo. Busca do sucesso. O mundo da disciplina e das realizações.
Modo: Cardeal

 

Símbolo: Combina os chifres do bode com a cauda do peixe. É o desenho que servia para simbolizar Cronos.

 

Casimiro de Abreu

Nascido no dia 4 de janeiro de 1837, em Barra de São João (cidade que hoje tem o seu nome), no Estado do Rio de Janeiro, Casimiro José Marques de Abreu era filho do abastado comerciante português José Joaquim Marques Abreu. A família nunca viu a sua plenitude: o pai nunca residiu de modo permanente com a mãe, o que veio a lhe gerar algumas humilhações. Mas foi com a mãe, Luísa Joaquina das Neves, que passou boa parte da infância, na fazenda da Prata, em Correntezas. Apesar de ter recebido em casa a formação primária, com 11 anos, foi estudar no Colégio Freeze, em Nova Friburgo. Ainda com pouca idade, foi para o Rio de Janeiro para praticar comércio, atendendo as exigências do pai, embora sua vocação fosse literária. Não foi feliz – o que deixou patente em seus versos.

Como bom capricorniano, Casimiro de Abreu apegou-se ao tempo: afinal, tempo e eternidade são os meios e fins pelos quais se pauta um nascido sob esse signo. Não sem razão, é o tempo que está envolvido no mais conhecido de seus poemas:

Meus Oito Anos

Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores!
V. Hugo

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! Dias da minha infância!
Oh! Meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

De fato, o animal que representa o signo é fabuloso: metade cabra, metade peixe: de um lado a tenacidade do cabrito, que cava a terra buscando o alimento em terreno árido e resiste às situações mais árduas – como foi a sua relação com o pai e a busca de superação do impedimento de seguir o que desejava: a literatura. De outro, ele tem ligação com as águas do sentimento ancestral, levando às divagações e sonhos.

Desejo

Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d'inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d'harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
– A vida, o céu, a razão!

O signo de Capricórnio parece estar presente em outros traços do poeta. Afinal, o regido por esse signo tem como característica a organização e a ordem, para ascender a pontos mais altos; no entanto, acuado pelo poder, impede o crescimento do novo, pois confia apenas no que já foi testado. Assim, Casimiro de Abreu demonstrou esse traço por várias vias: diante do poder inibidor paterno, a sua poesia voltou-se para o saudosismo, com um "ar infantil" – próprio até de quem não só foi colocado numa situação de dependência, como de falta de amadurecimento, já que a vida o levou precocemente. Faltou-lhe o tempo da reflexão, pois seus poemas demonstram uma sensibilidade ainda em estado primitivo. Por essa razão, é tido como um poeta menor, dentro da geração romântica brasileira. Tais traços são perceptíveis no poema a seguir:

Amor e Medo

Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"—Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!...

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
– Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

Oh! Não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...

Mesmo assim, Casimiro de Abreu trouxe a sua contribuição inovadora, como o é o poema "A valsa", em que o ritmo dos versos acompanha o ritmo das valsas:

A Valsa

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;

Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
(...)

Como capricorniano, Casimiro de Abreu perseguiu o alto, tornando-se pouco propenso a perceber o que se passava com seu corpo – já que a corporeidade é, para os nascidos nesse signo, uma verdadeira prisão. Assim, cometeu exageros, que lhe trouxeram uma tuberculose, vindo a falecer em Idaiaçu, no dia 18 de outubro de 1860, faltando três meses para completar vinte e dois anos.

Sua poesia é de gosto popular. Nela o poeta pôde retratar, de forma meiga, a vida burguesa brasileira, estreitada pelas chácaras e jardins, nos quais vivia. Seu estilo é espontâneo e ingênuo, de um universo emocional simples. Ele é, hoje, o patrono da cadeira 6, da Academia Brasileira de Letras.


Cartas para a coluna:
aboas@terra.com.br