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EDIÇÃO 14 1º de março de 2005
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OLGA

Francisco Carlos Malta
Ator, formado em Letras, em 2004 – Campus Rebouças

 

 

Adaptar uma obra literária para cinema, teatro ou TV é uma tarefa que exige cuidado, sensibilidade e muita informação a respeito do que se propõe. Olga, romance reportagem de Fernando Morais, não foge à regra. O livro foi lançado em 1985 e vendeu mais de 600 mil exemplares no Brasil. O feito de levar às telas a história da militante comunista alemã e companheira do líder Luis Carlos Prestes levou quase vinte anos e deve-se à roteirista Rita Buzzar, que batalhou pelo projeto e o entregou ao consagrado diretor Jayme Monjardim.

Como é de praxe, tudo que faz sucesso incomoda e no Brasil não é nada diferente. O filme vai representar o Brasil no Oscar, mas isso não impediu que a imprensa especializada e alguns "formadores de opinião" atacassem a película de Monjardim. É aquilo: falar mal é fácil, difícil é ter coragem de pegar e fazer.

A crítica cinematográfica ficou incomodada, alguns jornais chegaram ao limite de não recomendar o filme. Agrediram Rita Buzzar e Jayme Monjardim. Vamos abrir um parênteses – quanto "lixo" hollywoodiano nos é sugerido diariamente nos jornais? Cada um deve expressar sua opinião ou mesmo desenvolver sua crítica, mas procurando apontar caminhos. Criticar por criticar é burrice. É o momento de parar de falar mal dos produtos nacionais e tentar unir forças.

Seguindo a cartilha que deu certo em suas novelas e minisséries, como Terra Nostra e A Casa das Sete Mulheres, Monjardim opta pela estética televisiva. São closes, planos fechados e música ditando as emoções do momento. É possível que Olga incomode também porque é uma produção de ótima qualidade, apesar de procurar fugir dos cacoetes de estilo norte-americano, a que tanto nos acostumamos nos cinemas. A escolha de Camila Morgado para viver a militante é um acerto total. Cria de teatro, a bela atriz dá um banho de interpretação. Camila não interpretou Olga: ela vivenciou a personagem como de fato fazem as grandes atrizes.

 

"Olga incomoda porque conta a história pessoal de dois revolucionários. Incomoda saber que militantes comunistas são seres humanos, que amam, que sofrem, que são felizes, que se identificam profundamente com as causas pelas quais lutam, que não buscam nenhuma vantagem pessoal, mas sim a justiça e a solidariedade. Olga incomoda porque recorda as brutalidades repressivas que se cometeram contra os comunistas, aqui e na Alemanha. Incomoda porque a Alemanha – país ocidental, branco, protestante, anglo-saxão, capitalista – foi poupada por Hollywood, apesar de ter feito a pior 'limpeza étnica' da história, contra judeus, comunistas e ciganos (e quando Chaplin fez O grande ditador, teve de sair dos EUA antes mesmo de o filme ser lançado)." Faço do escritor Fernando Martins minhas palavras.

O filme de Rita Buzar e Monjardim nos faz lembrar o papel que a Alemanha, como potência imperialista, desempenhou no nazismo. Olga incomoda talvez por mostrar Fernanda Montenegro, nossa principal atriz, dando vida à mãe de Luis Carlos Prestes, o mais conhecido dirigente comunista brasileiro, como afirma a leitora Arlete Duarte.

Mas, sobretudo, Olga incomoda porque é um filme que toma posição: é de esquerda. E Olga, além do mais, é um belo filme, humanista, que não poupa os carrascos, que diz as coisas pelos nomes que as coisas têm. Olga incomoda e é bom que incomode, em tempos que parecem pedir a todos que já não se incomodem com nada.

FICHA TÉCNICA

Título original: Olga

Gênero: Drama

Tempo de duração: 141 minutos

Ano de lançamento (Brasil): 2004

Site oficial: www.olgaofilme.com.br

Estúdio: Globo Filmes, Nexus Cinema e Vídeo, Europa Filmes e Lumière

Distribuição: Lumière

Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Rita Buzzar, baseado em livro de Fernando Morais

Produção: Rita Buzzar

Música: Marcus Vianna

Fotografia: Ricardo della Rosa

Direção de arte: Tiza de Oliveira

Figurino: Paulo Lois

Edição: Pedro Amorim


Elenco:
Camila Morgado (Olga Benário)
Caco Ciocler (Luís Carlos Prestes)
Fernanda Montenegro (D. Leocádia Prestes)
Luís Mello (Leo Benário)
Eliane Giardini (Eugénie Benário)
Jandira Martini (Sarah)
Mariana Lima (Lígia Prestes)
Renata Jesion (Elise Ewert Sabo)
Werner Schünemann (Arthur Ewert)
Guilherme Weber (Otto Braun)
Osmar Prado (Getúlio Vargas)
Floriano Peixoto (Filinto Müller)
Murilo Rosa (Estevan)
José Dumont (Manuel)
Milena Toscano (Hannah)
Oscar Simch (Herr Fischer)
Odilon Wagner (Capitão do navio)
Eliana Guttman (Enfermeira-Chefe)
Paschoal da Conceição (Dimitri Manuilski)
Sabrina Greve (Elza Colônio)
Ranieri Gonzales (Miranda)
Raul Serrador (Rodolfo Ghioldi)
Bruno Dayrrel (Victor Barron)
Anderson Muller (Paul Gruber)
Gilles Gzwidek (Leon Julles Valee)
Maria Clara Fernandes (Carmem)
Leona Cavali (Maria)
Eduardo Semerjian (Galvão)
Telmo Fernandes (Bangu)
Helio Ribeiro (Padre Leopoldo)
Edgard Amorim (Agildo Barata)
Zé Carlos Machado (Ministro da Guerra)

Sinopse:
Olga Benário (Camila Morgado) é uma militante comunista desde jovem, perseguida pela polícia e foge para Moscou, onde faz treinamento militar. Lá ela é encarregada de acompanhar Luís Carlos Prestes (Caco Ciocler) ao Brasil para liderar a Intentona Comunista de 1935, se apaixonando por ele na viagem. Com o fracasso da Revolução, Olga é presa com Prestes. Grávida de 7 meses, é deportada pelo governo Vargas para a Alemanha nazista e tem sua filha Anita Leocádia na prisão. Afastada da filha, Olga é então enviada para o campo de concentração de Ravensbrück.

FOTOS DO FILME

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franciscomalta@hotmail.com