Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 13 13 de dezembro de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

UM APELO SEMIÓTICO EM "COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE"

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras, pela Estácio de Sá
Pós-graduando em Língua Portuguesa, pela UERJ

Utilizando a Semiótica, como instrumento de análise, ficamos mais aptos para perceber as técnicas empregadas no filme Como água para chocolate, ou seja, notar os seus componentes artísticos e cinematográficos, que nos induzem à observação de mensagens menos óbvias do que a história que se desenvolve, revelando os costumes, as regras e os padrões moduladores da família da protagonista.

A primeira que desejamos destacar, após a descoberta de um encaminhamento metafórico na seqüência das cenas, é a alternância de imagens claras e escuras.

Do ponto de vista semiótico, esse recurso de iluminar, precariamente, o cenário e os atores remete-nos à existência de "entrelinhas" no desenrolar dos acontecimentos e dos diálogos. Mediante tal expediente, depreendemos que diversas interpretações podem resultar do jogo "claro-escuro", visto que a mudança de luminosidade funciona como um índice, apontando para direções outras que não se revelam aos espectadores imediatistas ou desatentos. Portanto, aqueles que buscam um entendimento mais significativo e maduro da arte são submetidos, a bem dizer, a um esforço contínuo de enxergar na penumbra da imagem, se quiserem desvelar o que ali se esconde.

Ao denunciar, igualmente, os padrões ditatoriais de uma sociedade conservadora e hipócrita, a iluminação também se apresenta como indício de que só fazemos às claras o que é lícito aos olhares dos que aceitamos como nossos juízes. Temos, assim, que as cenas do sexo matrimonial – sexo esperado e permitido – aparecem bem mais iluminadas do que as da relação adúltera em que Tita se encontra, permitindo-se não ser vítima do amor platônico.

Se Como água para chocolate corresponde ao nosso adágio "como a água para o vinho", podemos, a partir do título da película, analisar a estrutura familiar daquelas personagens, na qual a individualidade é bem marcada.

Quatro mulheres interagem numa atmosfera de intensa simbologia, que se vincula aos quatro distintos elementos da natureza, fazendo-nos refletir sobre o papel do homem no mundo em que habita, pois, como ser natural, é, por vezes, vítima de instintos animalescos, embora seja dotado da racionalidade que o distingue dos demais seres vivos.

Se o ser humano é o ícone da racionalidade, é de se esperar que dela provenha a ruptura dos modelos obsoletos e a transformação dos padrões comportamentais opressores e inflexíveis. E, partindo do exemplo da filha mais jovem, que não pode casar-se, a fim de cuidar da mãe na velhice, podemos atingir níveis mais elevados de reflexão, visto que, se adotarmos uma visão macrocósmica e política em relação a esse tipo de ideologia, perceberemos que é a mesma que visava manter países colonizados como escravos de grandes impérios decadentes.

No entanto, concentrando-nos um pouco mais na Semiótica como ferramenta analítica da obra em questão, encontramos, a exemplo de enriquecedoras construções e desconstruções de metáforas, outros elementos de relevante importância para a sua interpretação. Por conseguinte, deparamo-nos com a metáfora da colcha, que pode ser acolhida como representação de um processo psicológico de frustração, que remete ao tecer o véu de um casamento impossível, mas que, ao ganhar tempo como Penélope, busca outras vias de realização.

O fogo é um outro elemento metafórico magistralmente explorado dentre vários que incrementam o trabalho artístico, porquanto foi usado de modo explícito e implícito, como instrumento purificador, por exemplo, ao queimar a certidão de nascimento de Gertrudes, produto de um adultério inesquecível, caloroso e guardado a sete chaves. Gertrudes, a que se deixa consumir pelo fogo existencial, combustível que leva o homem a se entregar ao destino decorrente da satisfação de desejos e vontades.

Finalizando a nossa breve dissertação embasada por princípios semióticos, observamos que a metafísica é um vetor característico das cenas de Como água para chocolate, que percorre a trilha da culinária, canal de projeção do poderoso inconsciente humano a produzir efeitos e transformações na vida e na psicologia das personagens, e a fazer dos fantasmas – ora protetores, ora inquisidores – um verdadeiro signo de libertação. No desfecho, a liberdade: seja na vitória contra a opressão, representada por um gozo prazeroso e pleno, ou ainda por intermédio da morte fatídica e inevitável dos que a perseguem.

Endereço para correspondência:
usc.rj@globo.com