Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 13 13 de dezembro de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

A ORQUESTRA – PARTE II

Mauro Dellal
Aluno do 7º período de Letras – Campus Méier
É produtor artístico da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró Música

Na coluna anterior, começamos a falar sobre a orquestra, sua origem, seus objetivos e interesses. Nessa, vamos tratar desse organismo fantástico dentro de uma visão contemporânea de arte em um mundo consumidor; em uma época de cultura de massa.
A pergunta, pois, é: há futuro para esse organismo poderoso? Para tanto, precisaremos colocar na questão alguns aspectos referentes à massificação da cultura.

Diante da dinâmica social e da realidade cultural, a orquestra parece um móvel antigo, pesado, empoeirado e pretensioso. Essa imagem não é, absolutamente, completamente errônea, mas, ao mesmo tempo, vem carregada de uma irritante inversão de valores.

O ritual que envolve uma apresentação orquestral é carregado de elementos intimidadores, como por exemplo: silêncio absoluto, não aplaudir entre os movimentos e até vestir-se de maneira "adequada" à ocasião. Ou seja, falta um fator moderno essencial à orquestra: INTERATIVIDADE. Contudo, a orquestra sofre de uma padronização que a está levando para o perigoso terreno do kitsch. Ora, o ritual refere-se somente a apresentações ao vivo. Se a peça apresenta movimentos, é uma questão de aprendizado não aplaudi-los separadamente, pois o contraste entre eles tem relevância. O silêncio é indicador de que a linguagem é o que importa. O modo de se vestir é completamente questionável. Deixemos esse fator para os que querem aparecer mais do que a música.

É óbvio que nunca foi tão fácil ter acesso à música erudita: internet, CD, DVD, rádios, televisão, etc. Por que, então, o interesse pelo gênero vem, ao longo do século XX e nesse início do XXI, decrescendo cada vez mais? Antes do advento das gravações, a música precisava ser consumida ao vivo, com seus instrumentos acústicos. A massificação trouxe uma enxurrada de gravações eruditas, desde as sinfonias de Beethoven ou das obras de Bach até o momento romântico mais tangível com Debussy e Mahler que, mesmo para os conhecedores, acabam por engessar o gênero deixando-o a mercê de uma mesmice aparente. Se um dia essas obras foram perturbadoras, hoje, por conta do consumo, transformam-se em burocracia do espírito.

Por conta de um "isolamento" dinâmico-social, a orquestra parece tratar o ouvinte (agora consumidor) como um simples objeto a ser manipulado. Eis toda a questão: em um mundo interativo, não basta mais ser intérprete ou autor; é preciso compartilhar para além das fronteiras subjetivas; é preciso dar a ilusão (e às vezes não é) ao público de que ele controla a situação. É verdade que o acesso à música de concerto nunca foi tão intenso, como foi dito acima, mas a distância que existe entre escutar uma gravação de uma determinada peça e uma execução da mesma ao vivo é astronômica. Há elementos que importam e muito. Analogamente, seria como ler uma obra literária em e-book e a mesma em um livro normal. O contato, nesse caso, entre o tato (livro) e aquilo que está escrito, aproxima, sem dúvida, o leitor do conteúdo, do autor, do universo... enfim, é toda uma gama de ligações que não estão presentes num contato virtual. Assim é com a música. Há, hoje em dia, espetáculos realizados com orquestras virtuais ou sampleadas. Desse modo, parece que, cada vez mais, orquestras ao vivo serão um prazer cada vez mais raro.
Está claro que a orquestra precisa encontrar uma fórmula para se adequar ao ritmo moderno para que não pereça. Não deve, porém, ser tratada como um ser jurássico, incompreendida. Há que se movimentar os dois lados: a arte e o público. Aquela, deve desmistificar-se e este, deve procurar entendê-la além do simples entretenimento.

E-mails para a coluna:
m.dellal@terra.com.br