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EDIÇÃO 13 13 de dezembro de 2004
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A ÚLTIMA CRÔNICA DO HOMEM NU

Por Marcelo de Andrade Gomes
Aluno do 5º período – Campus Méier
Professor de Inglês


Fernando Sabino
(12/10/1923 - 11/10/2004)

(...) A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. (A Última Crônica)

O cobrador da televisão baterá à porta; mas, dessa vez ninguém a abrirá.

O embrulho do pão, como em todas as manhãs, lá estará; mas, dessa vez não haverá ninguém para ir apanhá-lo.

A velha do apartamento vizinho abrirá a porta; mas, dessa vez ali não mais estará o padeiro nu em pêlo.

A moringa naquela janela continuará; mas, dessa vez o jornalista mineiro não mais deixará a redação todas as noites para lhe dirigir aquele singelo aceno.

O cachorro "mala" continuará pulando no sofá, procurando uma perna para fuçar e um rosto para encostar seu focinho molhado; mas, dessa vez o assento estará vazio.

A planta estará estendida na prancheta, junto com a velha régua e o lápis; mas, dessa vez nenhum paletó estará pendurado no cabide, e mais vinte quilômetros de estrada deixarão de ser construídos.

Em qualquer botequim da cidade, talvez ainda haja um humilde casal a comemorar mais um ano de vida de sua filha, uma pobre menina negra de três anos, toda arrumadinha em um vestido pobre, com um laço na cabeça; mas, dessa vez não haverá ninguém no balcão para testemunhar a simplória celebração, regada a uma simples fatia triangular de bolo amarelo-escuro e uma garrafa de Coca-Cola; e apagadas permanecerão as velinhas.

Em todo tempo, sempre haverá leitores; e sempre estarão ali as belas palavras; prosa em poesia, poesia em prosa, inteiros fragmentos de uma bela aventura do cotidiano...

Endereços de algumas entrevistas concedidas pelo escritor:

http://medei.sites.uol.com.br/penazul/geral/entrevis/sabino.htm

http://www.lainsignia.org/2004/octubre/cul_027.htm

http://www.lainsignia.org/2004/octubre/cul_027.htm

http://www.estadao.com.br/especial/sabino.htm

Endereço para correspondência:
ficcionista@terra.com.br

Blog do autor:
www.ficcionista.blogger.com.br