Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 13 13 de dezembro de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

A PRIMAVERA

Ulisses Soares de Carvalho
Formado Letras em 2002 – Campus Méier
Pós-Graduando em Língua Portuguesa – UERJ

Enquanto as flores desabrocham nos mais belos jardins, e um novo ar parece penetrar nos pulmões arejados pela promessa romântica da nova estação, atos maléficos unem-se como gafanhotos numa nuvem, que pretende devorar qualquer expectativa de uma estação colorida e harmoniosa.

Nos jornais, as páginas, num movimento manipulado, sopram qual hélices a alimentar o fogo e a fumaça disseminadores de poluentes, cuja primeira análise de componentes já demonstra o seu destino de compor, com a nuvem de insetos voadores, o quadro de vilões inimigos das flores. Pobres flores!... Há os que dela nem falam mais, porque inalaram muita fumaça e estão cansados de fugir do fogo; diversas vezes, um fogo cruzado...

Não se sabe por que razão, mas também as imagens televisivas, em suas telas ilustrativas do circo de horror, não exibem, por exemplo, flores no Iraque. Nem flor de cacto se vê, e a nova estação esta aí, convocando a todos para o banquete de aromas e tons diversos, que a natureza brasileira pode proporcionar. Não se deve, porém, pensar que as flores são o antídoto do mal, visto que tanto aqui, quanto nos Estados Unidos encontramo-las como sublimes e débeis apelos, que sugerem a paz e apontam para o amor.

À noite, há flores que se fecham, acompanhando o ciclo rotineiro dos pobres mortais que, ao cerrarem os olhos para dormir, nem sempre sonham com o cenário bucólico a que têm direito. Os jornais e a televisão incutem-lhes tão sombria realidade, que somente os que se abstêm do realismo concreto e funéreo, conseguem talvez usufruir de um sonho reparador das energias gastas na luta selvagem pela sobrevivência. No entanto, nem a imprensa nem a mídia devem carregar o pesado fardo da culpa pelo que divulgam; pior seria se omitissem os fatos, favorecendo mutações genéticas que, em pouco tempo, entregariam ao mundo verdadeiras flores antropofágicas.

Por outro lado, a natureza parece ressentir-se da falta que fazem aquela paz e aquele amor de primavera, dando asas às imaginações esotéricas, ao propiciar shows fúnebres de tufões, vendavais e vulcões ativos. Facilmente, concebe-se e explica-se que o inconsciente coletivo está em sintonia com o mundo metafísico, cujas turbulências e pressões se manifestam como símbolos em ação nos devastadores fenômenos naturais. Arranca-se, assim, as flores que existem, e tolhe-se a vida das que ainda estão por florescer.

A despeito de tudo contrário à sua beleza e delicadeza, desejaria a primavera então dizer aos homens que, apesar de todo o mal, ainda há flores. Há flores de mudanças que as greves almejam alcançar, há flores vindouras que os votos podem arrasar, há flores do bem que o ser humano pode desejar e pôr em prática, se assim o quiser... De fato, a natureza é como uma obra literária, na qual se pode encontrar caminhos diversos para a sua análise e interpretação e no capítulo primaveril das quatro estações, haverá sempre um pouco de inspiração para os poetas, um quê de romance para os sonhadores, muitas pétalas de arte existencial e abundantes flores nos canteiros de quem não semeou o mal.


A primavera, de Botticelli

E-mails para o autor:
usc.rj@globo.com