Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

Dos descansos da janela (ou porque continuamos parados enquanto a vida segue seu curso)

Melissa de Moraes Poyares
Bacharel em Direito, revisora ortográfica e aluna do 4º período de Letras – Campus Méier

Passadas onze edições, necessário se faz um breve descanso (ou mesmo uma pequena licença poética) da janela e de seu burburinho eletrônico. Assim, com o slogan "desligue a TV e vá ler um livro" retinindo em meus ouvidos, fui além: desliguei a "máquina de fazer bobos", livros e afins e observei o céu cinza de julho, me perdendo entre as parcas estrelas (parcas e resistentes como o Rede).

Ao contrário da ausência imaginada, da síndrome de abstinência eventualmente pensada, sobrevivi. Atravessei o mês findo, deixando que a vida seguisse ao sabor do vento. Logo, aviso aos desavisados de plantão: ao contrário do que se pode supor, este artigo possui certo cunho metalingüístico, mas não acerca da sobrevida dos meses posteriores e, sim, um pequeno manual de instruções sobre o mês de descanso na alma.

A quem faz Letras; aos que esculpem palavras e reinventam sílabas (poetas, cancioneiros, compositores e prosadores) ou àqueles que lêem, não por obrigação, mas por deleite (ou, até mesmo, porque ainda não são vendidos tickets para a Lua), necessário se faz não apenas ver e, tampouco, sobreviver. Imperioso torna-se resistir e viver, impedindo que nossos poucos neurônios anestesiados amputem seus dendritos.

Por sopros de vida em xícaras de chá e sorver em grandes goles três vezes ao dia, como se cada gole fosse o último (de um último momento que não se sabe ao certo quando virá, mesmo porque ninguém lembra de seu prazo de validade) e sair em campo sem redes ou instrumentos para colher amostras (digo, apenas dois instrumentos são permitidos: papel – no máximo um pequeno caderninho – e caneta) são meios eficazes para transformar literatura em vida. Se a vida pode ser definida como um grande compêndio de contos entremeados por atores precários, melhor seria largarmos a pena, sairmos da janela e andarmos a esmo.

Como andar a esmo requer método e ritmo, segue uma bula de recomendações:

1) Do relógio: tendo em vista o irônico do tempo passado e "saído" em função do relógio, recomenda-se aposentá-lo por breves 30 dias. Não apenas o de bolso ou o da cozinha; tal recomendação é aplicável a todo e qualquer instrumento quantificador de tempo. Se possível, rasgue os calendários. Se sobrevivermos ao funesto agosto, poderemos gerenciar o que resta.

2) Do celular: antes que dispositivos de telefonia móvel venham a reivindicar seus direitos trabalhistas, por que não lhe conceder férias? Afinal, se você é humano e falível, para o celular falta muito pouco para alcançar a condição humana.

3) Da "máquina de enganar trouxa": se todo o tempo gasto sentado nos "dias de poltrona" pudesse ser contado, perceberíamos o óbvio: deterioramos em frente às nossas belas "caixinhas com nada", viciados no nada ou talvez na luz azulada que emana de suas telas. Então, como todo vício merece medidas enérgicas, arranque o fio da tomada e nem olhe para trás. Em caso de síndrome de abstinência, administrar o seguinte paliativo: assista a algo sem cunho "de"formativo ou desesperador. Pois, de mazelas, já bastam as transmitidas pelas "vitrines da desgraça" nos outros 335 (ou 336) dias do ano. Todo HD precisa de eventuais faxinas. Desse modo, nada mais justo que ocupá-lo com coisas aprazíveis (leitura, somente se te for essencial, música ou qualquer outro afago no espírito).

4) Dos pequenos excessos: coma com prazer. Beba com paixão. Experimente novos fatos e acontecimentos. Reinvente-se. Sonhe, principalmente. Durma regiamente (esqueça o despertador; só, por favor, não ronque. Por razões óbvias, a razão do seu afeto pode ser avessa a tal prática).

De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2ª ed, Nova Fronteira, 1986, p. 770), as férias podem ser conceituadas como: "(...)2. Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes, etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades". Na mais poética das acepções, sempre é boa a companhia dos Mestres. Logo, segue um trechinho de Drummond, em seu "Tira férias":

"A noção de férias está ligada a figuras de viagem, esporte, aplicações intensivas do corpo; quase nada a descanso. (...) de tal sorte que não há férias, no sentido religioso e romano de suspensão de atividades".

Matutando nisso, resolvi tirar férias e gozá-las como devem ser gozadas: sem esforço para torná-las amenas. (...) Tudo aboli e fiz a experiência das férias propriamente ditas, que, como eliminação das atividades ordinárias e exteriores, pode parecer estado contemplativo ou exercício de ioga. Não é nada disso. Exatamente porque abrem mão de tudo, as boas férias não devem tender à concentração espiritual nem à concentração da vontade.

São antes um deixar-se estar, sem petrificação. Levantar-se mais tarde? Se não fizer calor; um direito nem sempre é um prazer. Ir ao Arpoador? Se ele nos chama realmente, não porque a manhã e a água estão livres. O mesmo quanto a diversões, muitas vezes menos divertidas do que a noção que temos delas. Divertir-se é desviar-se. E não convém que nos desviemos das férias, enchendo o tempo com programas de férias.

Deixemos que ele passe, o sutil; não o ajudemos a passar. Há uma doçura imprevista em sentir-se flutuar na correnteza das horas, em sentir-se folha, reflexo, coisa levada; coisa que se sabe tal, coisa sabida mas preguiçosa". Diante de tal argumento, resta fazer um prelúdio acerca da preparação da maratona das férias: descanse na primeira e última semanas. Entre no ritmo e livre-se dos excessos cometidos em plena euforia.

Se a grade midiática faz vida com o que a teledramaturgia oferece, porque não fazer vida com aquilo que a pretensa arte fornece? Máxima inquietante, a postos seguimos em frente rumo ao front da literatura dolorosa da vida. Então, desligue a TV, largue o computador, feche o livro. A primeira "in"forma, o segundo "de"forma. Aos defensores dos alfarrábios fica o comentário: de que adianta um punhado de palavras honestas, boas (ou não) e vazias, acerca de um tema qualquer, sem um leitor que anime suas páginas? Ainda que tal afirmação tenha soado estranha e inusitada, fica registrado o protesto de quem defende o direito a neurônios saudáveis, posto que HD algum precisa de sobrecarga de informações, entradas duplicadas e dados obsoletos. Especialmente o seu.

Até a próxima!

E-mails para a coluna:
melmoyares@bol.com.br