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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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ALGUNS DADOS SOBRE SCHOPENHAUER

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras, pela Estácio de Sá
Pós-graduando em Língua Portuguesa, pela UERJ

A CARREIRA

Em 1813, Schopenhauer obteve êxito na Universidade de Berlim, ao defender a tese de doutorado sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente. Em Weimar, nessa época, sua mãe se estabelecia, conquistando progressivo sucesso como novelista. Em decorrência do seu bom desempenho profissional, a senhora Johanna, viúva, começou a freqüentar os círculos mundanos abominados por seu filho. Ambos desenvolveram um grau de incompatibilidade que culminou em declarações públicas e infamantes sobre seus respectivos talentos: enquanto Johanna dizia que a tese de doutorado de Schopenhauer não passava de um tratado de farmácia, este afirmava que o futuro da mãe como romancista era incerto, e que ela só seria lembrada por ter sido a sua progenitora.

Não obstante as brigas que tiveram, Schopenhauer não se afastou totalmente do salão de Johanna e, ali, conheceu e tornou-se amigo de Goeth, que reconheceu o seu talento. Somente em 1814, aconteceu o rompimento familiar definitivo e, quatro anos após esse desfecho, a sua principal obra, O Mundo como Vontade e Representação, foi escrita. A publicação dos seus pensamentos filosóficos ocorreu em 1819, mas apenas cem exemplares foram vendidos. Entretanto, a situação em que se encontrava a Europa, vinte e nove anos decorridos desde aquele fracasso de vendas, promoveu o seu sucesso tardio:

"Uma Europa desiludida com os ideais e esforços de 1848, voltou-se quase com aclamações para essa filosofia, que interpretara o desespero de 1815. O ataque da ciência à teologia, a denúncia socialista da pobreza e da guerra, a tensão biológica na luta pela sobrevivência, – todos esses fatores contribuíram para que Schopenhauer atingisse finalmente a fama." (WILL DURANT, p. 29)

A VONTADE

Schopenhauer estudou cedo e com predileção as concepções de Platão e Emanuel Kant, que apresentam o mundo visível como aparência, ou seja, há sempre uma inconsistência naquilo que vemos e apontamos como realidade.

Partindo desses princípios, Schopenhauer elaborou novos conceitos, entre eles o da Vontade, cuja interpretação explica a nossa visão particular da realidade, do mundo e dos fenômenos que nele ocorrem.

Todas as manifestações da Vontade, segundo o filósofo, estão intrinsecamente ligadas à vontade de viver, que varia em cada indivíduo no grau de intensidade; contudo, apresenta-se sempre como uma força cega e incontrolável na vida de todos.

Podemos, assim, dizer que cada desejo que expressamos, cada sonho que nutrimos, todas as capacidades que desenvolvemos, inclusive as que são atribuídas ao intelecto; enfim, tudo está subjugado à Vontade apresentada na filosofia schopenhauriana:

"Num mundo que é inteiramente obra da vontade, do instinto de viver absoluto, gratuito, ignorando razões e juízos de valor, não poderia a inteligência necessariamente pretender senão segundo lugar." (THOMAS MANN, p. 180)

O propósito da nossa inteligência nada mais é do que servir de instrumento à Vontade num grau mais elevado que se traduz em racionalizar nossos instintos. No entanto, o intelecto não inviabiliza o sofrimento decorrente da nossa eterna luta para realizar e satisfazer os desígnios da Vontade. Ao contrário do que se espera, quanto mais o homem aprende, mais profundamente sente a dor de compreender as misérias do mundo e as suas causas. E Schopenhauer tudo enxerga sob a ótica do sofrimento, sendo considerado, portanto, um filósofo pessimista. Entretanto, apresenta-nos um caminho menos espinhoso, porém, não menos difícil, que se assemelha aos fundamentos teológicos de algumas religiões. Deveríamos lutar pela sublimação ou negação da Vontade e não pelas satisfações que logo se transformam em tédio. Todavia, independente da nossa conduta, ou seja, se sublimamos ou não a Vontade, contamos, ainda, com um paliativo para o nosso sofrer, proveniente do nosso estado de contemplação perante a Arte:

"O prazer estético seria puro, desinteressado, livre do querer; seria 'representação' no sentido mais forte e mais sereno, contemplação clara, imperturbada, cheia de calma." (THOMAS MANN, p. 183)

A REPRESENTAÇÃO

Baseando-se nos princípios elaborados por Kant, Schopenhauer concluiu que a representação que fazemos do mundo é o próprio mundo, visto que o mundo representado é uma síntese entre o subjetivo e o objetivo, entre a realidade exterior e a consciência humana.

Segundo Schopenhauer, a existência do mundo, por mais maciço e imenso que este seja, está condicionada, em qualquer momento, somente a um único e delgadíssimo fio: a consciência em que aparece. A realidade exterior, portanto, depende do modo que a nossa consciência a percebe, estando essa consciência sempre influenciada por diversos fatores, entre eles o da Vontade: só enxergamos o que queremos ver. Vejamos, então, Schopenhauer dizer que um único indivíduo é capaz de realizar a representação do mundo com perfeição:

"O mundo como representação, isto é, unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é objeto; suas formas são o espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação, tão perfeitamente quanto todos os milhões de seres semelhantes que existem: mas, também, se esse ser desaparece, o mundo como representação não existe mais." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 2000, 8)

Somente o homem, por intermédio da consciência e do intelecto, é capaz de testemunhar a existência do mundo e das coisas que nele existem. Aquilo que a nossa mente apregoa como realidade é apenas uma representação do que a Vontade nos permite elaborar em decorrência das nossas percepções.

O BEM E O MAL

Toda vida humana, segundo a filosofia schopenhauriana, se analisada em seu conjunto, expõe as propriedades de uma tragédia, quando prestamos atenção à série de esperanças frustradas, tentativas fracassadas, remorsos, culpas e perdas que experimentamos ao longo das nossas existências. No entanto, Schopenhauer acredita que o bem e o mal constituem conceitos que se entrelaçam durante a vida e, ainda que viver signifique sofrer, o filósofo crê numa ética que permeia o caos do mundo:

"Que o mundo possui apenas uma significação física, e nenhuma moral, constitui o maior, o mais condenável, e o mais fundamental erro, a própria perversidade da mentalidade, e provavelmente forma no fundo aquilo que a fé personificou como o anticristo." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 2000, 243)

Afirma, igualmente, que o nosso comportamento, as nossas ações e tudo aquilo que envolvemos em nossos atos e atitudes, consciente ou inconscientemente, têm origem na Vontade que nos governa e que, na grande maioria das vezes, não nos apercebemos dela. Encontramos, assim, nos dizeres do filósofo, considerações a respeito do bem e do mal, quando pensamos nas injustiças que sofremos e que também somos capazes de praticar:

"Ações injustas ou perversas são, com respeito àquele que as realiza, indícios da força de sua afirmação do querer-viver, e, portanto, da distância à sua frente em que ainda se situa a verdadeira salvação, a negação da mesma, e portanto a redenção do mundo, e assim também do longo aprendizado do conhecimento e do sofrimento, que ainda há que suportar, até atingir o fim. Com respeito àquele que sofre por causa dessas ações, estas, embora constituam fisicamente um mal, são metafisicamente um bem e no fundo uma bem-aventurança, já que contribuem para conduzi-lo em direção à verdadeira salvação." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 2000, 298)

Todavia, não devemos confundir a filosofia schopenhauriana com a doutrina cristã, visto que o próprio filósofo se via contrário aos objetivos da Igreja:

"Deus, na nova filosofia, representa o papel dos últimos reis francos com os seus mordomos-mores; é um nome que se conserva para subir com maior proveito na sociedade." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 1974, 134)

O EGOÍSMO

Se a Vontade nos direciona, mesmo quando pensamos que somos donos do nosso próprio destino, não seria prudente ignorarmos que alimentamos, diariamente, ainda que não percebamos, o nosso egoísmo. Tendemos a enxergá-lo, quando este se apresenta num grau em que todos notam e criticam. Por outro lado, somos inclinados, de maneira semelhante, a detectar o egoísmo alheio em contraposição à auto-indulgência com que nos avaliamos.

Schopenhauer, afirmando que o egoísmo tem raízes profundas na alma humana, considera:

"Dirigida tôda a sua inteligência para a satisfação de suas aspirações, não compreende o indivíduo a necessidade do sacrifício nem se submete a ela quando é preciso que aja e se imole em benefício da espécie." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 1974, 19)

Segundo o filósofo, todo homem se considera o centro do mundo e avalia os acontecimentos de acordo com o próprio interesse. E se vivemos em um mundo, onde o sofrimento prevalece em detrimento da alegria e do prazer, compreendemos, com grande facilidade, estes dizeres da filosofia schopenhauriana:

"O egoísmo, por natureza, é infinito; o homem deseja acima de tudo conservar sua vida livre de tôda a dôr e de tôda contrariedade, desejando o maior bem-estar possível e a posse de todos os prazeres existentes, que se esforça por variar incessantemente." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 1974, 115)

Quando lemos os seus aforismos, percebemos quão pouco o homem foi capaz de desenvolver, ao longo dos séculos que percorreram a história da humanidade, atributos que amenizariam o fardo de qualquer existência. Infelizmente, somos obrigados a enxergar a atualidade no seu pensamento:

"Chega a ser cômica, a convicção de tanta gente proceder como se só eles existissem na realidade, e os seus semelhantes não fossem mais que sombras e fantasmas." (ARTHUR SCHOPENHAUER:1974,116)

O AMOR

Schopenhauer foi chamado de o filósofo do pessimismo e da Vontade. E como não poderia deixar de ser, de acordo com as suas concepções, o amor, o sentimento que mais nos serviria de consolo perante as vicissitudes que enfrentamos, não passa de uma ilusão provocada pela natureza em favor da continuidade da espécie. Os conceitos de Schopenhauer podem contrariar os nossos, mas devemos ser imparciais, racionais e maduros a fim de aproveitarmos as verdades que surgem nas suas ponderações:

"Sem nenhuma paixão subjetiva, sem desejos e impulsos físicos, somente por pura reflexão e fria intencionalidade, colocar uma pessoa no mundo, para que ali esteja, isto seria uma atitude moralmente duvidosa, que provavelmente somente poucos realizariam." (ARTHUR SCHOPENHAUER:2000,296)

Visando eliminar qualquer problema de fundo moral ou provocado pelo egoísmo humano, a natureza, segundo Schopenhauer, usa de artifícios para que o seu projeto se cumpra. E como sabemos que o pensamento e a inteligência de que dispomos são ferramentas para a Vontade que se impõe, sem sequer se revelar, temos, ainda, os que condenam qualquer empecilho à procriação.

Torna-se aprazível concordar com a maioria, já que compartilhamos daquilo que se crê, mesmo quando não enxergamos o que se oculta naquela crença. No entanto, Schopenhauer não ignorou o fato de que nem sempre a natureza obtém sucesso com seus logros:

"Sobre o fundamento inverso repousa a condenação de todas as satisfações sexuais contrárias à natureza; porque por meio destas se atendeu ao instinto, e portanto se afirmou o querer-viver, mas se ausenta a propagação, única a manter em aberto a possibilidade da negação da vontade. Por aqui há que explicar por que somente com o surgimento do cristianismo, cuja tendência é ascética, a pederastia foi reconhecida como grave pecado." (ARTHUR SCHOPENHAUER: 2000, 296)

Seja como for, as palavras do predecessor de Sigmund Freud abriram portas para o assunto da libido, que permeia os estudos da psicanálise. Portanto, ainda que não seja o homem vítima da própria Vontade e dos embustes da natureza, resta-nos, finalmente, afirmar, apesar de uma certa conivência com o que expomos, que a ideologia do amor, alicerce social, cuja manutenção atende a interesses nem sempre nobres e puros, é a via mais prudente àquele que prefere a paz a dedicar-se à divulgação de qualquer sistema de idéias contrário, no qual se facilita um destino mais infeliz e doloroso para a raça humana.

Endereço para correspondência:
usc.rj@globo.com