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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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GRANDES NOMES DA ITÁLIA - LEONARDO DA VINCI

PERSONALIDADE DO ARTISTA

Profª Gilda Korff Dieguez
Professora titular e coordenadora do projeto Rede de Letras

"Nessuna cosa si può amare nè odiare, se prima non si há cognition de quella"
Leonardo da Vinci - "Trattato della Pintura"

Leonardo da Vinci era um pessoa sui generis, de personalidade muito própria. Conhecido por seu obsessivo perfeccionismo e compulsão pela pintura, ou pelo desenho, que o levaram a deixar muitas obras inacabadas.

Em famoso e longo estudo sobre o artista, Sigmund Freud (o "pai" da Psicanálise) – talvez pela admiração pelo trabalho artístico – procura explicar os motivos, através dos muitos depoimentos de época, que declaravam a indiferença de Leonardo diante da obra acabada e de seu destino. Assim, uma obra prima, para esse gênio, seria apenas uma "insatisfatória encarnação de seus propósitos" – estes, sim, bem mais próximos da perfeição que o trabalho pronto. Assim, diante do perfeccionismo inatingido, o artista entraria em desespero, preferindo abandonar o trabalho. Conta Vasari que, moribundo, Leonardo da Vinci se auto-reprovava por haver ofendido aos homens e a Deus, por não haver cumprido o seu dever na arte.


Esboço cabeça madonna

Madonna das pedras


Leda

Leda e o cisne

Um fato parece ser verdadeiro: Leonardo da Vinci trabalhava com lentidão, realizando inúmeros estudos antes de partir para a confecção de uma pintura. Um relato de um jovem monge, Matteo Bandelli, que acompanhou os trabalhos do artista quando da feitura de A última ceia, dão conta de que havia dia em que o pintor começava a trabalhar cedinho pela manhã e não soltava o pincel até a noite, esquecendo-se de comer e beber. No entanto, transcorriam dias em que nem colocava as mãos na obra. Em outras ocasiões, ficava horas a olhar a pintura, examinando e pensando. Ainda havia situações em que, realizando um outro trabalho, abandonava tudo e ia dar umas pinceladas em um rosto, abandonando em seguida.

Assim ocorreu com a famosa e emblemática Mona Lisa: o retrato, encomendado pelo florentino Francesco del Giocondo sobre sua esposa, levou quatro anos para ser realizado: nem conseguiu acabá-lo, nem pode entregar a quem o havia encomendado. Guardou-o consigo, quando seguiu para França, tendo sido ele adquirido pelo rei Francisco I – razão para permanecer no Museu do Louvre até hoje, sendo uma de suas mais valiosas peças. Ainda que várias hipóteses sejam levantadas sobre a identidade da "Gioconda", e muito se tenha falado sobre o sorriso enigmático, parece que Leonardo da Vinci tinha uma grande predileção por essa obra, tendo viajado por diversas vezes com ela.

Suas elocubrações sobre anatomia, sobre temas científicos e técnicos eram registrados por Leonardo da Vinci com minúcias. Por ser canhoto, Leonardo da Vinci costumava fazer a "escrita em espelho", isto é, escrevia da direita para a esquerda, invertida, de modo que para ser lido o texto apenas seria possível no espelho. Essa astúcia provinha de um certo afã pela criptografia, mas permitia-lhe manter em segredo as suas pesquisas e descobertas. O artista nunca publicou o conteúdo de seus manuscritos, que permaneceram ocultos até o século XIX. Mas, por causa de seus estudos, muitos o consideram o primeiro engenheiro moderno.

Seus detalhados estudos sobre anatomia, algumas vezes, impressionam mais que os trabalhos artísticos: nada escapa a seu olhar astuto: homem, pássaros, o vôo, o movimento, a natureza.

Com uma personalidade complexa, Leonardo da Vinci – apesar de assim não parecer – era benévolo, pacífico e calmo, evitando discussões e brigas. Não comia carne, por considerar ilícito tirar a vida dos animais e sentia um gosto particular em comprar pássaros no mercado, para soltá-los quando chegasse à casa. Mas essa mesma sensibilidade não o impedia de acompanhar os criminosos ao cadafalso, para estudar os gestos de angústia, que registrava no caderno de desenhos. No entanto, era contra as guerras e condenava o derramamento de sangue, fazendo com que acreditasse ser o homem o pior dos animais.

O fato é que havia um abismo entre Leonardo da Vinci e seus contemporâneos, que não eram tocados pela sua sede de conhecimento e por sua exaustiva busca da perfeição. Quanto mais a idade avançava, menos ele pintava e menor seu interesse pelo destino de suas peças, muitas das quais inconclusas – o que era reprovado por seus contemporâneos, que viam essa relação com a arte como enigmática.

Dotado de uma aguda capacidade de observação, tinha como objetivo transformar seus escritos numa grande enciclopédia – o que nunca conseguiu realizar. Não sem razão, Leonardo da Vinci já foi chamado de "Fausto italiano", por seu infatigável esforço de investigação.


Dama na corte de Milão

São João Batista

Algumas curiosidades:

Em 1502, Leonardo da Vinci projetou uma ponte de 240m, que era parte de um projeto de construção para o Sulão Bajazet II, de Constantinopla. A obra jamais foi realizada. Mas, em 2001, a idéia ressurgiu para a construção de uma ponte na Noruega, baseada no desenho do artista.

Leonardo da Vinci é conhecido por sua obra pictórica: chegaram, até nossos dias, 70 pinturas, mas nenhuma de suas esculturas.

Suas anotações contêm esboços de numerosas invenções, tais como um porjeto de máquina para voar (considerado o embrião do helicóptero), paraquedas, um submarino, máquina de calcular, armas de fogo e tanques armados. No dia 3 de janeiro de 1496, experimentou uma de suas máquinas de voar, sem êxito.

Em 1994, o norte-americano Bill Gates adquiriu um de seus manuscritos por 25 milhões de dólares.

Em 2004, o nome de Da Vinci voltou a circular, graças à obra O código Da Vinci, de Dan Brown. Trata-se de uma controvertida obra de ficção, em que o artista assume papel importante. Nessa obra, Dan Brown nos concede duas instigantes interpretações dos trabalhos de Leonardo da Vinci: O Homem Vetruviano e a Mona Lisa. Quanto ao Homem Vetruviano, estaria ligado ao pentagrama e à "Divina Proporção, representada pelo PHI (1,618), e aos números de Fibonacci. Quanto à Mona Lisa, Mona Lisa não é homem nem mulher. Traz uma mensagem sutil de androginia". Nesse aspecto, ela estaria ligada à harmonia entre o masculino e o feminino e à fertilidade. Na interpretação do autor, portanto, o nome do quadro seria um anagrama de AMON L'ISA (o deus Amon e a deusa Ísis, símbolos da fertilidade desde a mais remota antigüidade egípcia).

Leonardo da Vinci, ao que tudo indica, não manteve relações com nenhuma mulher – diferentemente de Michelangelo, com Vittoria Colonna.

Leonardo da Vinci sempre defendeu a superioridade da pintura perante as demais artes, por ser ela indispensável à exploração científica da natureza.

Segundo Freud, Ser Piero da Vinci, pai de Leonardo, era um homem de grande força vital. Casou-se quatro vezes: as duas primeiras mulheres faleceram sem filhos; apenas a terceira teve um filho homem, legítimo, em 1476 (quando Leonardo já estava com 24 anos de idade); a quarta e última esposa, com quem casou já cinqüentão, deu-lhe nove filhos homens e duas filhas.

A propósito, no belo estudo sobre Leonardo da Vinci, chamado Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci, Freud analisa sua vida e a associa a várias de suas obras, concentrando-se especialmente na Mona Lisa e na tela Sant'Anna, a Virgen e o filho (1502-1516). Nessa obra, Freud, em interessante processo de análise, percebe a presença do abutre, que havia sido registrado nos apontamentos de Da Vinci, como uma recordação de infância, ao tempo em que também entende estarem as relações de infância nela representadas: ele próprio, simbolicamente representado na figura da criança, a avó (representada por Sant'Anna), que o criou a partir dos 5 anos de idade, e a mãe, de quem se separou ainda criança, para ser criado pela família do pai. A título de curiosidade, trazemos aquilo que Freud desvendou no quadro, como sendo a presença do abutre:

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