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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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GRANDES NOMES DA ITÁLIA - LEONARDO DA VINCI

BIOGRAFIA - LEONARDO DI SER PIERO DA VINCI

Profª Gilda Korff Dieguez
Professora titular e coordenadora do projeto Rede de Letras

Quando se pensa no Renascimento, como movimento nas artes e na cultura, um dos primeiros nomes – senão o primeiro – que ocorre na mente de todos é, sem dúvida, o do gênio Leonardo da Vinci, autor do emblemático quadro La Gioconda. Sua arte influencia toda a história da pintura a seguir, pois, descartando-se dos valores medievais (marcados pelo caráter religioso), coloca o homem no centro da criação. Seu amor profundo pelo conhecimento, pela pesquisa e investigação (sobretudo nos campos da ótica, anatomia e hidráulica) marcou suas obras tanto artísticas como científicas.

Pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, cientista, inventor e escritor, Leonardo da Vinci nasceu em um sábado, no dia 15 de abril de 1452 (alguns afirmam ter nascido em 25 de abril) no povoado toscano de Vinci, perto de Florença (localidade entre Empoli e Pistóia), sendo, ao que tudo indica, filho ilegítimo de Ser Pero da Vinci (na época com 25 anos) que era, segundo diversas fontes, artista ou escrivão – mas todos são unânimes em afirmar ter sido ele rico e com algum poder – e a mãe a jovem camponesa chamada Catarina. Há quem sugira ter sido Catarina natural da cidade de Anchiano, outros, ter sido uma escrava do Oriente Médio, propriedade de Piero, mas tal versão não é confirmada. Por tal razão, isto é, por ser filho ilegítimo, Leonardo da Vinci jamais empregou o nome do pai em seus trabalhos, preferindo assinar como "Leonardo" simplesmente, ou como "Eu Leonardo" ("Yo Leonardo").

Leonardo cresceu na casa paterna, em Vinci. Em meados da década de 1460, a família se instalou em Florença, após o falecimento do avô Antonio, onde Leonardo recebeu uma esmerada educação, o que o marcou com traços de elegância, persuasão e sensibilidade, que sempre demonstrou no trato com os demais. Teve, assim, através da educação, a oportunidade de conhecer a tradição de muitos anos da cidade de Vinci e da portentosa Florença. Foi também através dessa iniciação que se desenvolveu como músico e improvisador.

Graças a uma precocidade artística e uma aguda inteligência, em 1466, tornou-se aprendiz do renomado pintor, escultor e maestro florentino Andréa del Verrocchio, permanecendo nessa condição por 10 anos. Foi nesse tempo que Leonardo se iniciou em diversas atividades, desde a pintura até a elaboração de grandes projetos de escultura em mármore e bronze. Em 1472, passou a tomar parte do grêmio de pintores de Florença e, em 1476, já é mencionado como "ajudante de Verrocchio", tendo participado, junto com o mestre, da obra O batismo de Cristo (1470, Uffizi - Florença): pintou o anjo à esquerda na tela e a paisagem de matizes neblinosos.

Foi em 1476, quando ainda era discípulo de Verrocchio, que Leonardo da Vinci foi acusado, juntamente com outros três jovens, de relações homossexuais com um jovem modelo de 17 anos, chamado Jacobo Slatarelli, bastante conhecido em Florença por sua vida licensiosa. Absolvido por falta de provas, ele teve de suportar, durante algum tempo, a vigilância dos "Serenos" – uma espécie de polícia renascentista antivício.

Com 20 anos, em 1477, torna-se mestre independente, interessando-se por novas técnicas de trabalhar na pintura a óleo. Mas, ainda assim, manteve-se ligado ao escultor Verrocchio até sua partida de Florença: sua reputação crescia e seus encargos aumentavam. O primeiro trabalho solicitado foi na capela do Palácio Vecchio, porém não chegou a executá-lo. Mas também são dessa fase juvenil a denominada Madonna Benois (1478), o retrato de Ginebra de Benci (1474) e o inacabado São Jerônimo (1481).


Madonna Benois

Retrato de Ginebra de Benci

São Jerônimo

Em 1480, já fazendo parte da Academia de Giardino di San Marco, sob o patrocínio de Lourenço, o Magnífico, é quando, pela primeira vez, Leonardo da Vinci se aproxima da escultura. Em 1482, após uma embaixada de Florença em Milão, muda-se para a cidade, vindo a oferecer os seus serviços a Ludovico Sforza, Duque de Milão. A sua condição de embaixador de Florença devia-se ao plano dos Médici de difusão da arte florentina como motivo de prestígio e instrumento de propaganda cultural.

Buscando novos desafios e, principalmente, dinheiro, Leonardo da Vinci aceitou servir ao Duque de Milão, razão para haver abandonado a sua primeira comissão em Florença – "A adoração dos Magos", para a igreja de São Giovanni Scopeto (Uffizi) – que ficou inacabada. Sua carta de apresentação é uma espécie de curriculum, na qual descreve-se como um engenheiro civil e construtor de máquinas bélicas, além de pintor, escultor, arquiteto, dizendo-se capaz de construir pontes portáteis, além de conhecer as técnicas de realizar bombardeio com canhão, e poderia construir navios encouraçados, entre outros prodígios. Nessa cidade, permaneceu durante 17 anos, trabalhando em diversos projetos, de toda ordem, tanto artísticos como científicos. Mesmo assim, ia freqüentemente a Florença, onde recebia encargos ocasionais, que geralmente deixava inacabados.


Adoração dos Magos

De 1482 a 1499, Leonardo da Vinci trabalhou para o Duque de Milão, mantendo o seu próprio atelier, no qual trabalhavam vários aprendizes, para os quais provavelmente escreveu os textos que mais tarde agruparia sob o título de Tratado de pintura (Trattato della Pittura, publicado em 1651). Desse período milanês destacam-se as seguintes obras: A Madonna das pedras (1483-1495), na qual aplica um esquema de composição triangular, onde aparecem a Virgem, o Filho, São João e o anjo. Além dessa obra, alguns retratos femininos, como A Dama com o arminho. Também é de salientar-se o monumento eqüestre de Francesco Sforza (pai de Ludovico) no pátio do castelo Sforzesco – estátua que ficou inacabada e, posteriormente, destruída pelos arqueiros franceses; e também, principalmente, sua conhecida A Última Ceia, uma pintura mural para o refeitório do mosteiro de Santa Maria delle Grazie, Milão – obra em que trabalhou de 1495 a 1497. Também serviu ao Duque como engenheiro, nos empreendimentos militares, e como arquiteto, no projeto urbanístico da cidade, com rede de canais e sistema de abastecimento de água e esgotos, e projetou inúmeros modelos para a cúpula da Catedral de Milão. Além disso, ajudou o matemático italiano Luca Pacioli, em sua célebre obra A divina proporção. O período ainda lhe serviu para estudar ótica, perspectiva, proporções e anatomia.


A Última Ceia


Madonna das pedras

Dama com arminho

Quando a cidade de Milão foi invadida pelas tropas francesas de Luis XII, trazendo conseqüentemente a queda de Ludovico Sforza, Leonardo da Vinci regressou a Florença, para trabalhar como engenheiro militar e arquiteto, a serviço de César Borgia, Duque da Romana e filho do Papa Alexandre VI. Na qualidade de arquiteto e engenheiro maior do Duque, Leonardo supervisionou as obras nas fortalezas dos territórios papais do centro da Itália. Em 1503, já em Florença, foi membro da Comissão de artistas encarregados de decidir sobre o local adequado para o "David", de Michelangelo (1501-1504), e também como engenheiro na guerra contra Pisa. Ao final desse ano, começou a planejar a decoração para o grande salão do Palácio da Signoria, com o tema da batalha de Anghiari – vitória florentina na guerra contra Pisa. Mas esse trabalho também ficou inconcluso, devido ao obsessivo requinte técnico e experimental.


Batalha de Anghiari

Durante esse período foi que Leonardo da Vinci alcançou a maturidade nos campos científico e artístico, pintando, esculpindo, criando cenografias para peças teatrais e desenhando armas – foi nesse período que desenhou armas avançadas, incluindo-se tanques e outros veículos de guerra e submarinos, edifícios, maquinarias. Assim, pôde realizar trabalhos em muitas áreas, aperfeiçoando também o conhecimento da anatomia. Em Florença, recebeu o encargo de decorar a sala da Câmara do Conselho, trabalho que também ficou inacabado. É desse período a sua obra mais famosa: La Gioconda, mais conhecida como "Mona Lisa" (1503 - 1506).

Durante sua permanência em Florença, viajou a Roma, entre 1513 e 1516, cidade em que trabalhavam Rafael e Michelangelo, mas manteve pouco contato com esses renomados artistas. Ainda em Roma, se envolveu em intrigas do Vaticano. Consciente de que não poderia competir com Michelangelo, aceitou o convite de Francisco I, da França, no palácio Real Amboise, e para lá se mudou, falecendo no castelo de Cloux (perto de Amboise), em 1519, no dia 2 de maio.

Foi no ano de 1519 que Leonardo da Vinci redigiu o seu testamento, deixando todos os seus bens para Francesco Melzi, um rapaz a quem já conhecia por 15 anos. A sua sepultura, na Igreja de São Fiorentino ad Amboise, foi profanada na guerra religiosa do século XVI e seus restos mortais desapareceram, desde então.

A 23 de abril de 1519, estabeleceu o seu testamento, nomeando herdeiro dos seus desenhos, manuscritos e instrumentos, o seu discípulo Francesco Melzi, assim como o serviçal Salai, os seus "irmãos" florentinos e os pobres e igrejas de Amboise. A 2 de maio de 1519, em Cloux, falecia Leonardo, tendo sido sepultado no claustro da igreja de São Florentino o corpo do "noble millanois et premier peintre er ingénieur du Roy, meschanischien d'estat et anchien directeur de peinture du duc de Milan".

Leonardo declarou-se, entre a ironia e o conhecimento das suas próprias limitações e interesses, um "uomo senza lettere" (homem sem estudos); um contra-senso para aquele que é considerado o inventor das ciências modernas fundamentadas no método que se basearia na experiência e nas matemáticas, a par de pintor extraordinário, em última análise, um diletante em matérias culturais e científicas.

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