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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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Pra que querer quer um coração norma
(Recado ao Poeta - Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin)

Sergio Narcizo
Analista de sistemas e aluno do 5º período de Letras – Campus Méier


Foto: Mário Luiz Thompson
"O que quero dizer mesmo é que o homem nasceu sozinho, embora se junte, se agarre, mas nunca consegue escapar da solidão, são as solidões aglomeradas que se formam e se desfazem, porque na verdade a solidão é o nascimento, a vivência e a morte".
Paulo César Pinheiro

Como costuma acontecer, a maioria dos letristas não consegue que seus nomes sejam ligados aos seus sucessos, permanecendo na memória do público os intérpretes. Não é diferente com Paulo César Pinheiro autor de Viagem, Lá se vão meus anéis (conhecida pela interpretação do grupo Os originais do samba), Lapinha (conhecida na voz de Elis Regina)... Responsável por uma lista de mais de 1500 composições sendo que, mais de 700 gravadas.

Carioca, 55 anos, nascido no subúrbio, conheceu João Aquino no período em que morou em Angra dos Reis, e que veio a ser seu parceiro. Com ele escreveu Viagem no ano de 1964.

Viagem
(Paulo César Pinheiro e João de Aquino)

Oh! tristeza me desculpe, estou de malas/ prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro,
Já raiou o dia vamos viajar.
Vamos indo de carona na garupa leve
Do vento macio que vem caminhando,
Desde muito longe, lá do fim do mar.
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida querendo brincar.
Senta nesta nuvem clara, minha poesia,
Anda, se prepara, traz uma cantiga,
Vamos espalhando música no ar.
Olha quantas aves brancas, minha poesia, dançam nossa valsa pelo céu que o dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh! poesia me ajude, vou colher avencas,
Lírios, rosas, dálias pelos campos verdes,
Que você batiza de jardins do céu.
Mas pode ficar tranqüila, minha poesia,
Pois nós voltaremos numa estrela guia,
Num clarão de lua quando serenar.
Ou talvez, até quem sabe, nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar.

Um ano depois, em São Cristóvão, conheceu o primo de João de Aquino, Baden Powell, que o convida para ser parceiro em suas músicas. Essa longa parceria rendeu verdadeiras pérolas da MPB. Em 1968, venceram a I Bienal do Samba, da TV Record, com a música Lapinha; em 1969, concorreram no IV FIC com a música Sermão; e, ainda, em 1969, fizeram uma temporada de 15 dias em Paris; em 1972, venceram o festival de música da Espanha com a música Diálogo.

Espelho
(Paulo César Pinheiro e João Nogueira)

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que inda hoje faz
E eu me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu/ pai

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
E assim sem perceber eu era adulto já

Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

Não pararam por aí suas parcerias, Paulo César Pinheiro criou com os mais significativos artistas da MPB. Como alguns exemplos podemos citar João de Aquino, Baden Powell, Tom Jobin, Guinga, Dori Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Eduardo Gudin, Aldir Blanc, Moacir Luz, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Miltinho (MPB4), João Nogueira, entre outros.

Desde muito novo manifestou sua criatividade poética que, aliada as suas leituras de Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Drummond, Vinícius e Guimarães Rosa, mais as parcerias com os grandes nomes da MPB, foram responsáveis por uma inúmera produção de obras-primas da música brasileira. Uma de suas mais notadas influências literárias vem de Guimarães Rosa, expressada nas letras de Sagarana e Matita Perê, iniciada por Tom Jobim em homenagem a Guimarães Rosa, Mário Paumério e Drummond, e terminada por Paulo César Pinheiro.


Matita Perê
Pintura de Paulo Jobim, que serviu de capa central
do disco Matita Perê de Tom Jobim. Gravado em Nova Iorque, em 1973.


Matita Perê
(Antonio Carlos Jobim e Paulo César Pinheiro)

Homenagem a:
Guimarães Rosa
Carlos Drummond de Andrade
Mario Palmério

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, Ierê

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João
No clarão das águas
No deserto negro
A perder mais nada
Corajoso medo
Lá quero ver você

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração
Olerê, quero ver
Olerê

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João
No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Não pára por aí a produção desse poeta, sua obra inclui ainda:

12 músicas para a trilha sonora da novela O semideus, da TV Globo (1970)
Trilha sonora do filme A vingança dos doze, de Marcos Farias (1970)
Músicas para o filme Tati, a garota, de Bruno Barreto (1973)
Músicas para a peça A teoria na prática é outra, de Antônio Pedro (1973)
Trilha sonora do filme A batalha dos Guararapes, de Paulo Thiago (1978)
Música Pedrinho e Jabuticaba, para o programa Sítio do pica-pau amarelo, TV Globo (1978)
Trilha sonora do programa Castelo rá-tim-bum, TV Cultura (1978)
entre outros...

Obs.: Os trabalhos acima contaram com diversas parcerias.

Lançou os seguintes livros de poesia:

Canto brasileiro (1976)
Viola morena (1982)
Atabaques, violas e bambus (2000)

Discografia:

Tudo o que mais nos uniu, com Eduardo Gudin e Márcia (1996)
Parceria - João Nogueira e Paulo César Pinheiro (1994)
Afros e afoxés da Bahia (1989)
Poemas escolhidos (1983)
Paulo César Pinheiro (1980)
O importante é que a nossa emoção sobreviva nº 2, com Eduardo Gudin e Márcia (1976)
O importante é que a nossa emoção sobreviva nº 1, com Eduardo Gudin e Márcia (1975)
Paulo César Pinheiro (1974)

Foi ainda o vencedor do GRAMMY de melhor canção brasileira em 2002 e do Prêmio Shell de 2003.

Além de toda essa produção, contribuiu estando alerta, alertando e trazendo sempre uma palavra de esperança nos "anos de chumbo" da ditadura militar.

Pesadelo
(Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Quando o muro separa, uma ponte une
Se a vingança encara, o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua, ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem/ chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardião braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

Veja mais sobre Paulo César Pinheiro na internet:

http://www.releituras.com/pcpinheiro_videncia.asp
http://www.mpbnet.com.br/musicos/paulo.cesar.pinheiro/index.html
http://allbrazilianmusic.com/artistas/paulo-cesar-pinheiro.asp
http://www.dicionariompb.com.br/

E-mails para a coluna:
snarcizo@yahoo.com.br