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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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Entrevista com Thiago Picchi

Por Fábio Fabrício Fabretti
Pós-graduando em Jornalismo Cultural e formado em Letras, pela Estácio, em 2003 - Campus Rebouças
Escritor, professor e pesquisador.

Thiago Picchi é uma caixinha de surpresa. Esse sensível carioca de vinte e oito anos, ar enigmático e humor imprevisível, traz múltiplos talentos desde o berço. Integrado na nova geração que, em meio ao tumultuado novo século, vive, sonha e produz, ele brilha, seja interpretando sobre um palco ou diante das câmeras, tocando para uma platéia ou escrevendo solitariamente na teclas de um computador. É que a vida, para Thiago, pulsa e se sintetiza em uma só ordem: arte. É assim que ele capta e expressa o mundo dentro e fora de si.

REDE: Thiago, você é músico, ator e agora está lidando com o seu lado ficcionista. Acha que esses múltiplos talentos se dão por você proceder de uma família artística? Como é ter tantos talentos?

Sempre me senti inadequado ao mundo. Não conseguia me enquadrar em nenhuma "turma". Quando era pequeno passava as férias numa fazenda, sem ter amigos. Brincava de fazer discursos para as vacas (que me ouviam com atenção). Tinha vergonha da minha sensibilidade, do desejo louco de fazer música, de atuar. Estudei teatro e música para não enlouquecer. Não tenho múltiplos talentos, tenho múltiplas necessidades.

REDE: Depois de conquistar as demais carreiras, o que levou você a deixar aflorar sua verve literária?

Desde muito cedo queria ser escritor, antes da música e etc. Mas a minha relação com a escola foi traumática. Aos dezessete, perdido, fui fazer um teste vocacional, pois era época de vestibular. O resultado era claro, eu tinha vocação para as artes, sobretudo para as letras. Fiquei revoltado, como um péssimo aluno poderia ser escritor? Rasguei o teste...

REDE: Muitos compositores também eram escritores. De certa forma, você lida bem com isso?

A música é uma linguagem à parte. Já toquei com músicos maravilhosos que só sabiam falar de futebol. Sentia-me só, terrivelmente só. Tocava num bar a noite toda e, nos intervalos, me escondia para ler Cervantes. Mais tarde, tive a sorte de conhecer outros músicos que possuíam uma visão mais abrangente sobre as artes e a vida.

REDE: Poderia falar da sua carreira musical?

Comecei a tocar flauta doce aos sete anos. Aos dezessete, comprei meu primeiro sax e uma flauta transversa. Estudei saxofone com vários músicos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com dezoito anos já era um músico profissional, tocava na Rio Jazz Orquestra e dava aulas. Fui para os EUA me aprimorar e fiquei um ano em Los Angeles. Ao retornar, ingressei na Uni-Rio. Tive a sorte de ter sido acolhido por músicos que sempre admirei.

REDE: E ser ator?

Aos quinze anos fui morar com meu pai. Ele tinha muitos livros de teatro, de Eugenio Kusnet a Eugenio Barba. Fiquei encantado por esse universo. "Matava" aula para ir nas bibliotecas ler Dias Gomes, Plínio Marcos, Oscar Wilde, Sófocles, etc. Na época, a UERJ abriu um curso de teatro, eu e meu irmão Diogo participamos desse e de outros. Um dia, o Diogo me disse que haviam aberto vagas para a Oficina de Atores da Globo. Fiz a prova e passei, fiquei lá três meses e logo depois fui chamado para fazer novelas e afins. Novamente me senti inadequado, não me identificava com o que estava fazendo. Trabalhei em peças, leituras dramatizadas, cinema, rádio teatro e etc.

REDE: As palavras, de alguma forma, funcionam para você como as notas musicais? Ou seja, escrever é como tocar?

É um mistério. Acho que é o mesmo sentimento expresso de formas diferentes.

REDE: Quais são suas influências artísticas, tanto na música quanto nas letras?

São tantas... um dia vi um trator enorme arando a terra. Depois que ele passou, me aproximei e, em meio aquele "rastro de destruição", havia uma frágil joaninha que passou por debaixo daquelas rodas gigantescas e que curiosamente sobreviveu! Essa joaninha foi uma grande influência para mim.

REDE: Como você vê esse novo gênero do micro-conto que desponta no mercado editorial?

É um gênero, nem mais, nem menos. Isso me lembra uma pessoa que se gabava por ser poliglota, mas tinha a incrível capacidade de não conseguir dizer uma frase interessante, fosse qual fosse o idioma. Gosto é do conteúdo.

REDE: Como definiria arte?

Não consigo definir nem uma borra de café...

Endereço para correspondência:
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Blog do autor:
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