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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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A fome no Brasil: questão de solidariedade e/ou de vontade política?

Raimundo Lopes Cavalcante Jr.
Aluno do 2º período de Letras – Campus Méier
Analista de sistemas

Não é de hoje que paro nos sinais de trânsito e vejo pessoas vendendo balas, biscoitos ou capas para aparelhos celulares. Também já há algum tempo que tenho observado o crescente número de meninos malabaristas, que rapidamente invadiram as nossas esquinas. Essas crianças me fazem lembrar de uma estória escrita por Franz Kafka, autor judeu do início de século passado, famoso por obras que retratam as injustiças das sociedades em que vivemos. Em Um artista da fome, Kafka escreveu sobre um jejuador que era admirado pelo público em suas demonstrações profissionais de abstinência alimentar. O público admirava sua capacidade, ao mesmo tempo em que duvidava que o enjaulado pudesse ficar tanto tempo sem comer. Insinuavam que ele pudesse estar trapaceando, embora estivesse preso e vigiado. O show fazia grande sucesso; entretanto, com o tempo, o público foi perdendo o interesse e deixando de se admirar com o jejuador. Ignoravam-no por completo, num jejum interminável que culminou com a morte do artista e ele, em suas últimas palavras, sussurrou a confissão de que, se houvesse conhecido a boa alimentação, não teria optado por tal profissão.

Relembro ainda minha infância quando, pelas mãos de meu pai, fui levado a conhecer as populações miseráveis de Rio Branco, capital do estado do Acre. Ali, em palafitas, crianças e adultos se equilibravam para não cair num esgoto que, de tão volumoso, se assemelhava a uma grande lagoa. Talvez tenham sido aqueles os primeiros artistas da fome que conheci. Foi naquela época, ainda cedo, que aprendi que não se pode apenas matar a fome de comida: é preciso, acima de tudo, resgatar a dignidade e a esperança daqueles brasileiros, esquecidos por todas as políticas públicas, somente lembrados em épocas de eleição. Desde pequeno trago a informação de que para combater a miséria são necessárias ações emergenciais, num primeiro momento, dando o peixe, para mais adiante ensinar a pescar. Somente ações de cunho assistencialista nunca irão resolver o problema da fome e da miséria em nosso país. De pouco valem ações isoladas de arrecadação de alimentos para o Natal dos pobres... A "generosidade" do Natal deveria acontecer todos os dias.

A sociedade brasileira não pode ser igual ao público que naturalizou o sofrimento do jejuador, se fez indiferente e deixou de se indignar. É preciso não somente que o povo brasileiro participe de mutirões de solidariedade, mas, principalmente, se engaje em um processo muito mais amplo, de conscientização política: que aprendamos a cobrar, de nossos governantes, ações de inclusão social verdadeiras e não somente aceitarmos, passíveis, suas falácias que nada constroem.

A fome no Brasil, país com a oitava economia mundial, não é somente uma questão de solidariedade, mas, sobretudo, de vontade política e de redistribuição de renda; do contrário, ações isoladas somente ajudarão a substituir os artistas, mas o espetáculo será o mesmo: malabaristas e equilibristas da fome, da miséria e do descaso, fazendo das ruas o palco de suas vidas.

Endereço para correspondência:
rlopescjr@terra.com.br