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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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Apenas um dia como outro qualquer

Marcelo de Andrade Gomes
Aluno do 5º período de Letras – Campus Méier
Professor de inglês

O calor castigava a cidade, tornando sufocante aquela ordinária tarde de intenso verão. As pessoas passeavam pelo calçadão; as ondas estouravam na praia. O homem parou em frente ao prédio, acendeu um cigarro e esperou encostado ao poste.

Um carro verde parou de repente. Era um Astra. Saltou o motorista e dirigiu-se à entrada do prédio para, logo em seguida, sumir, engolido pelo espaçoso elevador. O homem, calmamente, terminou seu cigarro; mentalmente, ensaiava cada cena do planejado ato. Não poderia falhar. Chegara o ansiado momento; afinal de contas, trabalhara exaustivamente cada detalhe desse plano.

Subitamente, algo lhe chamou a atenção; do outro lado da calçada uma prostituta oferecia seus serviços a um distinto cavalheiro. Observou-a atentamente; alguma coisa nela era-lhe, de certa forma, familiar. Seu sorriso e a sua frieza, sua destreza ao parlar; a perfeita representação do predador, prestes a capturar sua indefesa vítima. Onde havia visto semelhante coisa anteriormente?

Voltou a atenção do homem para o prédio em frente, especificamente para o apartamento 214, onde estavam Rose e seu visitante. Seu pensamento dava voltas e voltas. "O que faço?", pensou. Pôs a mão no bolso; a pistola calmamente ali repousava. Pensou em sua vida, nos anos felizes anteriormente vividos; pensou nos meninos, neste exato momento na escola, inocentes, sem a mínima idéia a respeito do que lhes reservava o futuro.

Acendeu mais um cigarro; quem sabe essa maldita coragem não esmorece? O coração aceleradamente batia; o corpo cada vez mais tremia. Apagou o cigarro. Dirigiu-se decididamente à portaria. Passou sem cumprimentar o porteiro; subiu as escadas e parou diante do apartamento. "Deus, que estou eu a fazer?", disse a si mesmo. Tarde demais. Quando percebeu, já havia disparado o maldito gatilho. Os corpos candidamente repousavam nos lençóis banhados em sangue; ainda mostravam-se quentes, como a testemunhar a intensa atividade ali mantida antes do terrível incidente.

Em seguida dirigiu-se à escola e pegou as crianças. No carro, olhou para os meninos e disse-lhes: "Bem, que tal um sorvete para começar a noite?". Os meninos adoraram a idéia. Afinal, uma oportunidade assim não acontece todos os dias. Além do mais, não era o pai tão exigente em relação aos já tradicionais saudáveis hábitos alimentares, como o era a diligente mãe.

Calmamente afastou-se o carro; a perfeita representação do predador, prestes a devorar suas indefesas vítimas.

Endereço para correspondência:
instantes_letras@yahoo.com.br