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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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Freud: o movimento de um pensamento

Cristiano Feliciano de Oliveira
Aluno do 5º período de Letras – Campus Rebouças

MONZANI, Luiz Roberto. Freud: o movimento de um pensamento. 2ª ed., Campinas: UNICAMPI, 1989, 340p.

Fruto de uma tese de doutorado defendida em 1982 e orientada pela Profª Marilena Chauí, temos no livro um conjunto de textos reunidos, por Luiz Roberto Monzani, sobre os estudos freudianos, organizados sistematicamente com o propósito de compará-los e, se possível, apontar suas divergências a respeito de algumas propostas defendidas por vários autores sobre a obra freudiana. O autor busca, nas obras de vários estudiosos, inspiração para suas reflexões, tendo sempre como base a obra de Freud na sua forma original e, com essa comparação, ter um confronto de idéias que resultará em novas possibilidades, conclusões abertas para discussões construtivas que busquem, cada vez mais, fazer evoluir os estudos psicanalíticos.

Monzani faz uma abordagem inicial, dedicando um longo capítulo do livro ao conflito existente a respeito da "teoria da sedução", quando Freud abandona os alicerces da sua teoria das neuroses. Esse abandono representa, segundo o próprio autor, um avanço capital na constituição do discurso psicanalítico, possibilitando a emergência de certos conceitos fundamentais. Mas, por outro lado, esse episódio vai constituir um dos capítulos mais complexos, à medida que ocorre uma série de hesitações de Freud no decorrer de sua obra.

Toda essa história começa em setembro de 1897, quando em um texto relativamente curto – a carta 69, endereçada a Flies –, Freud enumera um série de razões para justificar o abandono de sua neurótica. Monzani relata o episódio no livro com o propósito de envolver o leitor no seu discurso, inteirando-o na história.

O fator etiológico principal na constituição das neuroses seria uma sedução ocorrida na infância do paciente, onde um adulto (geralmente um parente próximo) cometeria uma série de abusos sexuais com a criança. Para os historiadores oficiais da psicanálise, com o abandono de Freud dessa teoria surgem três noções-chave, que vão possibilitar a articulação no discurso psicanalítico. São elas:

1. A sexualidade infantil

2. O complexo de Édipo

3. O papel preponderante da fantasia como fator etiológico na formação das neuroses.

A partir dessa leitura, tem-se a impressão que esse abandono foi definitivo e irreversível: um verdadeiro ponto de ruptura no discurso freudiano. Mas o autor, buscando integrar o leitor cada vez mais aos acontecimentos da época, tenta esclarecer dúvidas, partindo do ponto de que a opinião popular tem idéias muito precisas a respeito da natureza e das características da pulsão sexual, onde Freud questiona toda concepção montada pela biologia e pela psiquiatria do século passado. Manzoni vai de encontro à argumentação de que quem deve ler Freud é aquele que participa da relação analítica da psicanálise. Freud, segundo o autor, insistiu em afirmar que a psicanálise é também uma ciência e enquanto tal não pode ser reduzida à relação analítica, sendo passível de uma leitura e de uma interpretação que, de direito, qualquer um pode realizar.

Retomando ao abandono de Freud da teoria da sedução, o autor nos mostra duas ordens de explicações:

1. Probabilistas / fatuais:
a) Os fracassos da análise
b) A extrema improbabilidade da universal perversão adulta

2. Teóricas:
a) No inconsciente não há como distinguir o real da fantasia
b) As vivências infantis são inacessíveis

Porém, como já citado anteriormente, essa teoria não foi abandonada totalmente e dá origem posterior aos três conceitos-chave que constituem o eixo e o centro da psicanálise, fazendo ainda com que se estruture definitivamente como disciplina autônoma, com objeto próprio. Nada foi abandonado, mas sim redefinido, repensado, retificado. As noções de sedução e fantasia estão intimamente ligadas a um movimento complexo, enumerado pelo autor no seguinte esquema:

1. Ausência da sexualidade infantil:
a) Papel fundamental da sedução
b) Constituição de uma cena primária

2. Descobrimento da sexualidade infantil:
a) Papel preponderante da fantasia
b) Negação da sedução enquanto cena original

3. Redefinição e reconceituação:
Tornando possível repensar o papel e a função da sedução e da fantasia.

Temos, no livro escrito por Luiz Roberto Monzani, a oportunidade de conhecer parte da obra de Freud, com uma abordagem de forma clara, que faz o leitor buscar ainda mais respostas à medida que os questionamentos vão surgindo.

Endereço para correspondência:
cristianofeliciano@yahoo.com.br