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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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O prisioneiro

José Ronaldo Siqueira Mendes
Formado em Letras, em 2002 – Campus Rebouças
Advogado e professor

     DIA 1     

Eu ainda não tinha assimilado bem ao certo aquela situação em que me encontrava. Era apenas um cômodo (parecia-me uma "suíte", pela simples presença do reservado), todo em branco, sem janelas: só uma pequena e estreita porta muito estranhamente localizada, justo no encontro reto dos ângulos de duas paredes, muito sem sentido para mim. Não possuía também nenhum móvel ou outro adereço que embelezasse as salas, ou quartos, como estamos acostumados a ver nossas mães ou esposas ou sogras se preocuparem a vida toda. Não. Nada, a não ser por um computador, que se localizava no chão, à outra margem da porta.

Tudo era maravilhosamente estranho para minha capacidade mental. Não compreendia, realmente, o sentido de me encontrar sozinho naquele quarto hermeticamente fechado, sem o alcance nem sequer da luz do sol, sem brisa, sem som, sem gosto... sem nada. Ainda tentava me condicionar àquele estado catatônico em sã consciência, quando surgiu a primeira mensagem:

– Senha e identificação!

Era uma mensagem enviada a mim através de um microcomputador, localizado num dos cantos da sala, posicionado no chão. Só o monitor, o teclado e o gabinete. Estranho! Não conseguia enxergar a tomada de energia. Não sabia do que ele estava falando. Nada havia feito.

– Senha e identificação... encarcerado!

Fiquei estático, sem entender o porquê daquele adjetivo. Nunca ofendi ou agredi ou transgredi qualquer regra ou norma ou fórmula ou lei que eu conhecesse ou desconhecesse. Nunca! Jamais me meti em encrencas, não só pelo fato de ser um covarde irremediável como por realmente não me interessar por qualquer tipo de complicação que me envolvesse diretamente com a Justiça, de qualquer forma. E justo agora me vejo aqui neste lugar sem sentido, nem tempo, nem espaço, me vem essa máquina e pergunta minha identificação? Como? Que ousadia é essa? Mas que raios de lugar é esse e que droga de terror, de tortura é essa?


     DIA 2     


Acordei. Nada de novo. O mesmo quarto branco, o mesmo nada. Olhei para minhas mãos (era a única parte do meu corpo que podia ver, já que não havia espelhos no cômodo para enxergar meu reflexo) e as achei um tanto enrugadas... mas vai que eram assim mesmo, pois, afinal de contas, era um grande profissional em minha área e não tinha tempo para ver o tempo passar em mim. Já estava quase me animando quando, de repente, vi a tela do computador. Estava limpa, desprovida de qualquer caráter, mensagem, função ou diretório. Na verdade, estava desligado, isso sim. Aquilo realmente foi, para mim, um grande alívio desde que aqui me encontro há uns... engraçado, não sei a quanto tempo me encontro aprisionado aqui neste quarto amaldiçoadamente branco! Aqui não se tem a sensação dos tempos, das eras trespassarem nosso corpo com sua ardida peçonha envenenada e nos sugar a vitalidade. Aqui não. Não se via esse fenômeno físico-químico acontecer.

Estava quase chegando a alguma conclusão e logo iria esquecer quando, para infelicidade minha, o cursor reapareceu piscando, como se fossem aquelas pequenas luzes que muitos predadores usam para hipnotizar suas presas, deixando-as paralisadas de pavor ou deleite. A luminescência verde ia e vinha, intermitentemente qual tortura chinesa, fazia minha cabeça entrar em pânico de tanta pressão. Enfim moveu-se na horizontal:

– Senha e identificação!

Novamente o pavor e a ira se apoderaram de meu mesquinho ser. Como eu, que nunca procurei encrencas com ninguém, precisava de identificação?! Que ousadia, que audácia era aquela? Como se eu fosse um reles criminoso, um ladrão de galinhas qualquer? Mas ao mesmo tempo me inquiria a respeito de infração grave que havia eu cometido (e, com razão, era muito grave, em decorrência das instalações em que me encontrava, uma quase solitária, se não fosse pela presença da máquina) para merecer tal infame punição?

– Senha e identificação... detento!

Oh não! Agora foi confirmado! Estou realmente enjaulado por algum delito que desconheço haver praticado! Como fui estúpido a ponto de realizar tal ato que me tolhesse a única coisa preciosa que ainda tenho comigo! Como fui idiota! Já não bastasse perder mulher, filhos, trabalho, casa, tudo! Agora essa! Perco a liberdade também!... Como você é imbecil, camarada!

     DIA 3     

Olhava um canto, aleatório, uma vez que tudo era branco e tudo era o mesmo e tudo era igual, na esperança de me lembrar de uma cena que me viesse a completar a mente, a fim de que não ensandecesse por completo. Eu era assim: extremista de todo. Comigo não havia esse meio termo, tão elogiado pelos pacifistas e afins. Não, ou era ou não era, ou tinha ou não tinha, ou morre ou não morre. Ora, pois havia de ser diferente? Haveriam de, os grandes doutores das leis, me julgar de outra maneira? A conclusão desta minha trágica narrativa não seria de outro jeito que não a pronunciação de minha sentença e o tramite promulgado julgado. Não, não haveria apelação de forma alguma.

Já me habituara à idéia de ser réu de algo que não cometi. Não só réu, como cumpridor de pena executada pela "caixa" (era assim que eu denominava o computador de agora em diante), mas o mais trágico para mim era saber que só a "caixa" sabia o que me aprisionou ali.

Para que não ficasse completamente louco, comecei a correlacionar países e suas capitais, só por distração: Albânia-Tirana, Alemanha-Berlim, Angola-Luanda, e, à medida que prosseguia com esse joguete infantil, me invadiam a mente, a alma, lembranças de viagens feitas e não feitas, como daquela vez em que viajei com minha esposa para o país de sua origem, onde visitamos o legado de sua gente, sua história, sua cultura, seu passado e onde, pela primeira vez, me dei conta que eu mesmo não sabia de nada disso a meu respeito! Nada do meu passado, nada da minha gente, nada do meu povo, nada de nada! E, por isso, por não saber minha própria identidade, por desconhecer minha aculturalidade, comecei a perceber que não precisava me importar com a dos outros também. Olhei-a como nunca a havia encarado antes. Beijei-a um beijo que eu mesmo nunca dera em ninguém, um beijo de despedida, um beijo no verdugo, antes de cair no cadafalso e tornar-me frio, introspectivo e solitário. A partir deste dia, comecei a morrer para os outros e para mim mesmo. Eles até que suportaram muito: eu mesmo já teria me mandado ao inferno há muito tempo... Chipre-Nicósia, Colômbia-Bogotá, Comores-Moroni... Ah! Essa brincadeira já cansou!

– Senha e identificação!

Oh! Não! De novo esta maldita e irritante máquina vem me exigir isso! Não sei até quando vou tolerar essa situação contínua e espiralante!

– Senha e identificação... cativo!

     DIA 4     

Na minha retina, na minha mente, na minha alma, tudo é branco, tal qual a maldita cor desta sala de torturas. Essa é a melhor definição para esse aposento tétrico e mórbido: uma sala de torturas. Só faltava aqui uma dama de ferro e uma parede cheia de grilhões. Não consigo pensar em mais nada que não seja o próprio branco em si mesmo. Em argüir sua utilidade e sua inutilidade, em compará-lo com meu passado, verdadeiro branco de idéias, atos e sentimentos, sem se preocupar com ninguém, só com meu universo particular. E por que eu deveria me incomodar com os outros? Alguma vez já o fizeram por mim? Provavelmente já; eu é que não me apercebi... como nunca notei nada de bom que os outros tivessem feito para mim em toda a minha hipócrita existência – não fazem mais que a obrigação deles! – era assim que eu retorquia. Enfim vejo o traste de gente que sou... ha ha ha ha!... e tudo isso graças a esta maldita sala branca dos Infernos... ha ha ha ha!

O pior de tudo é que já estou me acostumando a este ambiente. Aqui não se sente Cronos deteriorar a sua carne, fustigar os ossos, senilizar seu intelecto (se é que se tem algum), surrupiar sua memória. Aqui, não! Ele não toca: é como se você soubesse que nunca será afetado por Ele, nem molestado, nem agastado, nem apagado. Pode até ser que um dia Ele venha a cobrar com juros o que negamos a pagá-lo, estando aqui. Talvez Ele até entre por aquela estreita porta, ali, e ordene que se envelheça, mas é só um talvez tolo pensamento, sem fundamentos.

Clique!

Já ligou. Estou tão interiorizado comigo mesmo que consegui apurar meus instintos, meus sentidos. A caixa ligou-se:

– Senha e identificação!

Já não sei o que pensar para respondê-la. O engraçado disto tudo é que ainda não tive coragem sequer de encostar no teclado ou no mouse para, por tentativa aleatória, descobrir o que me é pedido. Não tenho forças, falta-me pulso para fazê-lo. Simplesmente não consigo.

– Senha e identificação... preso!

Agora eu entendo: não me restam mais esperanças mesmo; ficarei o resto da eternidade a vagar neste pequeno pedaço do limbo, sem ter expectativa de voltar para lá. Mas de onde eu vim realmente? De que lugar escuro eu sai? Não me refiro ao ventre de minha mãe, não: quero saber agora de que mundo eu fugi, do que eu quero me refugiar? Por que essa maldita sensação de que nunca vai dar certo, de que nunca vai ser certo, de que nunca acerto... e o que é essa droga de certo, então!!! Não seria essa medida uma invenção pavorosa, a pior das torturas que nos passam de geração a geração, como se fosse um conto de fadas inocente, ou um El Dourado ou uma Xangri-la incrustada numa grande utopia, mas que na verdade é uma indução subliminar para que sempre queiramos acertar? Fico sem respostas e fico em silêncio, maquinando, matutando para desvendar esse vicioso jogo de perguntas e respostas filosóficas, que não nos oferecem nenhuma perspectiva de crescimento a curto prazo. Mesmo assim insisto nelas.


     DIA 5     

Estou esgotado. Já nem penso mais em nada. Nem em branco me vem as idéias. Já me são transparentes. Olho ao meu redor e não vejo saída. Conformei-me que serei incorporado a esse maldito branco, numa espécie de simbiose em que um precisa do outro, e os dois acabarão por se aniquilarem: serei brancamente absorvido pelas paredes, eu, camaleão sem opção de matizes, alvo, alvo. Será assim meu fim. Eu já não me comando mais, não detenho o controle de mim. Não sou mais eu; agora sou o fantoche do titereiro, sou o brinquedo do outro, posso até ser o outro. Não! Nunca serei o outro, no máximo seu reflexo no espelho d'água de suas lágrimas, ao me ver abduzido pelo branco sideral deste recinto. Engraçado o sonho que tive esta noite. Sonhei que era uma enorme figueira, destas à beira de estrada. Sonhei que sabia ter sido uma grande árvore, mas agora só me restavam os troncos gastos, secos, duros e velhos. A copa desnuda de vegetação, as raízes expostas – sinônimo de que meu tempo já se ia. E, no chão, ao meu redor, todos os meus restos vegetais estavam ali depositados. O asilo das raízes, o cemitério das folhas e o paraíso dos vermes que rastejavam por sobre a relva fresca e juvenil à caça do sumo já apodrecido dos frutos que já passaram. Mesmo assim, renovava-se a natureza, por baixo deste entulho orgânico. Observei, muito singelo, muito tênue, muito frágil, um pequeno broto de esperança verde despontar rumo ao sol. Quando acordei, encontrei-me sereno como nunca houvera de ser. Acho que entendi minha sina.

De repente, como se o cataclismo apocalíptico houvesse finalmente despertado, a porta se abriu. Sem explicação, assim, num estalar de dedos. Não me espanto, já esperava por isso. Levanto-me e saio por ela, sabendo que agora todo um mundo novo se espreitava por trás de suas dobradiças. Um mundo que eu desconheci sempre e que agora tenho que aceitar e incorporar. Não só um mundo, mas um novo eu também brotara das entranhas daquela sala de partos. Houve tempos em que nasciam homens de verdade desta maneira, no isolamento, na auto-reflexão, nos retiros pelo deserto d'alma.

Ao sair, ainda ouvi um último clique, mas já estava sem alento de suportar aquela sala. Deixei a última mensagem para o próximo que chegasse:

– Senha e identificação... você!

E-mails para a coluna:
zeromendes@hotmail.com