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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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É Santo André, oba!

Ana Paula Tibério Smolka
Ex-aluna de Letras – Campus Rebouças

Quando eu tinha oito ou nove anos, meu pai nos levava, a mim e a meus irmãos, ao Estádio Bruno José Daniel para assistir aos jogos de futebol. Para quem não sabe, este é o estádio de Santo André, cidade onde nasci. Eu, meu irmão mais novo e meu pai torcíamos frenética e apaixonadamente pelo time até a mais completa rouquidão, aos gritos de "É Santo André, oba! É Santo André, oba!", nas arquibancadas do velho Brunão. Na verdade, apesar de ser uma criança tão tímida e franzina, que sempre falava baixo e não pronunciava sequer um palavrão, minha especialidade era xingar o juiz. Até os mais experientes torcedores ficavam boquiabertos, ouvindo tamanhas barbaridades na boca daquela delicada menininha. Minha irmã, que devia ter uns onze ou doze anos e sempre foi do contra, gostava de torcer pelos times que tinham jogadores bonitos, como o Grêmio, onde jogava o Renato Gaúcho: coisas de pré-adolescente, que, na época, eu ainda não entendia. Reflexo da incompreensão dos demais torcedores andreenses eram as dezenas de copos descartáveis, cheios de cascas de amendoim e água, que desabavam sobre nossas cabeças, por culpa dela.

Qual não é minha surpresa ao ver que, depois de tanta torcida e de tantos anos, o time da cidade, o Santo André, seria o campeão da Copa do Brasil. Essa vitória justamente sobre o Flamengo (olha a rixa paulistas x cariocas aí!...), no dia 30 de junho, despertou recordações deliciosas da minha infância. Apesar de achar que meu pai ficará furioso, eu vou contar uma das minhas preferidas, vou arriscar: assistíamos a um jogo, não me lembro contra quem – eu, meu irmão e meu pai. Gritávamos desesperadamente o nosso já citado e, reconheço, ridículo, grito de guerra andreense, quando, de repente, ZUM! Algo passa voando na minha frente e cai em algum lugar, entre os torcedores. Meu pai, com a mão na boca, olhando para baixo e empurrando as pessoas, procurava afobado alguma coisa. Ele dizia o que procurava, mas o som era abafado pela mão que lhe tapava a boca e pelos gritos da torcida. Foi quando ele olhou para mim, tirou a mão da boca e disse: "Minha dentadura! Caiu no ralo!" Eu e meu irmão nos contorcíamos de rir, olhando para o chão e para a boca desdentada. Alguns desconhecidos, solidários com a tragédia particular de meu pai, tentavam, com toda a força, retirar a grade que cobria o ralo, o que era bastante difícil.

Pelo que me lembro, conseguiram "pescar" a dentadura com um palito de churrasco. O mais engraçado foi a cara satisfeita do meu pai, pegando sua dentadura, colocando novamente na boca, abrindo um enorme e satisfeito sorriso e recomeçando, um pouco mais cauteloso: "É Santo André, oba!". Que nojo!

Em nome dos velhos tempos de fiel torcedora, dedico este texto ao Santo André e o parabenizo pelo título conquistado. "Conquistado" não é a palavra correta, já que foi praticamente arrancado das mãos dos flamenguistas, que já consideravam o título ganho. Parafraseando, com algumas alterações, nosso querido Vinícius de Moraes: os cariocas que me perdoem, mas em matéria de futebol, ser paulista é fundamental.

E-mails para a coluna:
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