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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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A Biblioteca de Alexandria: um pouco de sua história

Da redação

A descoberta do local onde se encontrava a Biblioteca de Alexandria, recentemente, através da pesquisa de uma equipe de arqueólogos egípcios e poloneses, reavivou a memória daquela que foi, talvez, a mais significativa de todas as bibliotecas do mundo, através dos tempos. Mesmo com a inauguração da nova biblioteca, em 2002, a antiga é que exerce todo o fascínio, pelo que representou como acervo de conhecimento, já que continha a maior coleção de escritos da Antigüidade.

Ninguém pode afirmar categoricamente o momento de fundação da Biblioteca. São várias as versões, porém a mais comum atribui a Ptolomeu I o mérito, sem que se possa saber exatamente a data. Um dado, porém, é certo: foi Demétrios de Phalère quem a organizou. Segundo consta, ele agrupou livros que atingiram o espantoso número de cerca de setecentos mil livros: inicialmente, mandou vir da Grécia e paulatinamente foi ampliando, com livros comprados com o dinheiro real1.

Ptolomeu II continuou a obra de seu antecessor, manifestando interesse pela biblioteca; para suceder Demétrios, nomeou como bibliotecário a Zenodotus de Éfeso. Com o passar do tempo, veio uma sucessão de bibliotecários, sempre aumentando o acervo da biblioteca, acumulando pergaminhos, papiros, gravuras e mesmo livros impressos, segundo algumas versões.

A Biblioteca de Alexandria não foi a única no mundo antigo: na Síria, na Mesopotâmia e na Pérsia também existiram locais de reunião e consulta pública de obras. Essas instituições caracterizavam-se pela preservação da cultura regional: a distinção da de Alexandria é a de que ela se caracterizou por amealhar obras do mundo conhecido na época, assumindo um caráter universal, em que o saber não tinha fronteiras.

O acesso à Biblioteca era restrito, até porque a maior parte da população não sabia ler. No entanto, ela era freqüentada por grandes sábios, vindo a tornar-se uma das três grandes escolas de Matemática da Antigüidade, junto com a Academia de Platão e a escola pitagórica. Na verdade, ela foi o maior referencial científico e cultural do Mundo Antigo. Vários nomes ilustres por ela passaram, mas talvez o mais conhecido seja Arquimedes2. Uma outra freqüentadora da Biblioteca foi Cleópatra, que para lá ia quase diariamente.

A primeira destruição da Biblioteca foi empreendida por César. Embora ele costumasse freqüentá-la, acompanhando Cleópatra – e talvez porque tivesse ficado impressionado com o acervo, consta ter ele pilhado, tendo querido carregar inúmeras obras. No entanto, envolvendo-se numa disputa com a rainha do Egito, César mandou incendiar a esquadra egípcia e o fogo chegou ao cais, onde estariam cerca de 70.000 livros (alguns mencionam 500.000 rolos), pergaminhos e papiros (o número, de fato, ninguém sabe ao certo). Numa outra versão, César teria mandado atear fogo à Biblioteca, que ficava ao lado do palácio real. A verdade é que, para qualquer das duas possibilidades, parte do acervo foi perdido, embora a destruição não tenha sido total.

A segunda destruição veio com a Imperatriz Zenóbia e o Imperador Diocleciano (284-305 d.C.), quando do cerco a Alexandria (295 d.C.). Além das pilhagens sucessivas, vários livros importantes desapareceram, já que o novo imperador mandou queimar os livros de alquimia. Consta que, nesse ataque à Biblioteca desapareceram os livros de Pitágoras.

O terceiro ataque à Biblioteca – definitivo – foi empreendido pelo califa Omar, que se opunha a toda e qualquer obra que não fosse o Alcorão. Assim, em 646 d.C. mandou que todo o acervo fosse destruído pelo general Amr ibn-el-As.

O desaparecimento da Biblioteca de Alexandria talvez tenha sido o maior crime contra a cultura e o conhecimento, em todos os tempos da História da humanidade. Contendo documentos inestimáveis, ela resistiu durante sete séculos. A nova biblioteca, recentemente inaugurada no local onde se calcula haver sido o prédio original, vem para lembrar o que um dia foi o centro do conhecimento do mundo.

1 Demétrios de Phalère, nasceu em 348 a.C. Seu nome surgiu em 324 a.C., como orador público; em 317 foi eleito governador de Atenas e governou-a durante dez anos. Depois foi banido de seu governo e partiu para Tebas. Em 297 a.C., o faraó Ptolomeu persuadiu Demétrios a instalar-se em Alexandria. Fundou, então, a biblioteca, incentivando Ptolomeu a montar uma academia similar à de Platão. Quando Ptolomeu I morreu, em 283 a.C., seu filho Ptolomeu II o exilou em Busiris, no Egito. Lá, Demétrios foi mordido por uma serpente venenosa e morreu. Demétrios tornou-se célebre no Egito como mecenas das ciências e das artes, em nome do Rei Ptolomeu I.

2 Os matemáticos mais conhecidos que estudaram na Biblioteca de Alexandria foram: Euclides de Alexandria, Eratóstenes de Cirene, Apolônio de Perga, Aristarco de Samos, Hipsicles, Heron de Alexandria, Menelau de Alexandria, Ptolomeu de Alexandria, Diofanto de Alexandria, Papus de Alexandria, Theon de Alexandria, Hipácia de Alexandria e Proclus Diádoco.