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EDIÇÃO 12 10 de setembro de 2004
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As várias vozes da poesia na França (II)

Maria Amelia Ferreira dos Santos
Jornalista e aluna do 6º período de Letras – Campus Rebouças

Na esteira da amostragem de algumas vozes mais significativas da França deste recém terminado século XX e incipiente século XXI, selecionadas pelo poeta e tradutor Mário Laranjeira em seu livro Poetas de França hoje 1945-1995, homenageado na edição número 11 deste Jornal, necessário faz-se destacar a questão da fragmentação que atravessa a poesia moderna. Assim é que a poesia francesa que se manifestou até a primeira metade do século XX, com as vanguardas, que vão do Futurismo até o Surrealismo, a partir da década de 60 dos anos 1900, produz-se alheia a princípios centralizadores. A poesia está em toda França e não mais só em Paris. Há uma variedade de forma, de tema, de tratamento da linguagem, advindos dos reclamos da modernidade.

Dentro dessa poesia moderna francesa, destacamos uma entre outras tendências – que ainda vamos apreciar em próximas edições –, a da "estética do fragmento e da concentração". Nesse particular, o escritor Mário Laranjeira destaca a poética construída sob o apagamento da subjetividade, do transbordamento dando lugar à reflexão, do repúdio ao lirismo, da validade dos lugares e coisas que é a validade do próprio discurso.

Dentro dessa vertente, que abriga nomes como os de "Michel Deguy", "Henri Meschonnic", "Denis Roche", "Olivier Cadiot", "Henry Deluy", entre outros muitos, trazemos o de "André Du Bouchet" (1924-2001), poeta de extrema importância dentro da poesia moderna francesa. Du Bouchet, que também era tradutor, verteu para o francês obras de Shakespeare, Paul Celan, Hölderlin, entre outros. De sua poesia, Mário Laranjeira diz exibir uma "sobrevivência da experiência mallarméana" e o "prenúncio da poesia minimalista", marcas, que vão levar, nos anos 70, a uma poética do fragmento, apartada do discurso, da narrativa, da história, e que se debruça sobre o espaço da própria página e da paisagem, perseguindo um despedaçamento da seqüência verbal, investigando o nascer da palavra.

DU BORD DE LA FAUX

I

L'aridité qui découvre le jour.
De long en large, pendant que l'orage
va de long en large.
Sur une voie qui demeure sèche malgré la pluie.
La terre immense se déverse, et rien n'est perdu.
A la déchirure dans le ciel, l'épaisseur du sol.
J'anime le lien des routes.

II

La montagne,
la terre bue par le jour, sans
que le mur bouge.

La montagne
Comme une faille dans le souffle

le corps du glacier.

Les nuées volant bas, au ras de la route,
illuminant le papier.

Je ne parle pas avant ce ciel,
la déchirure,
comme
une maison rendue au souffle.

J'ai vu le jour ébranlé, sans que le mur ne bouge.

III

Le jour écorche les chevilles.
Veillant, volets tirés, dans la blancheur de la pièce.
La blancheur des choses apparaît tard.
Je vais droit au jour turbulant.

DA BORDA DA FOICE

I

A aridez vai descobrindo o dia.
De fora a fora, enquanto a tempestade
Vai de fora a fora.
Por uma via que ainda fica seca apesar da chuva.
A terra imensa se derrama e nada está perdido.
No rasgo pelo céu, a espessura do solo.
Animo os laços das estradas.

II

A montanha,
a terra bebida pelo dia, sem
que o muro se mova.

A montanha
como uma falha no sopro

O corpo da geleira.

As nuvens voando baixo, rente à estrada,
iluminando o papel.

Não falo antes deste céu,
o rasgo,
como
uma casa entregue ao sopro.

Vi o dia abalado, sem que o muro se mova.

III

O dia esfola os tornozelos.
Vigiando, pelas frestas, no brancor da sala.
O brancor das coisas aparece tarde.
Vou reto ao dia turbulento.

(Poema in: "Dans la chaleur vacante", Paris, Mercure de France, 1961)
(Tradução de Mário Laranjeira)

Endereço para correspondência:
amelia.fer@globo.com