Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

O MECANISMO DA FLEXÃO PORTUGUESA

Ulisses Soares de Carvalho
Formado em Letras, pela Estácio de Sá
Pós-graduando em Língua Portuguesa, pela UERJ

FLEXÃO E DERIVAÇÃO

Na língua portuguesa, a flexão apresenta-se como sufixos ou segmentos fônicos pospostos ao radical. Esses sufixos que mencionamos são os chamados sufixos flexionais, ou desinenciais, cuja função difere daquela atribuída aos sufixos derivacionais, que se destinam à criação de novos vocábulos.

Segundo Varrão, gramático latino que viveu entre 116 aC e 26 aC, podemos relacionar os sufixos flexionais a uma derivação natural, isto é, a que acompanha a natureza da frase; e os sufixos derivacionais, que não se submetem a uma pauta sistemática e obrigatória para toda uma classe homogênea do léxico, a uma derivação voluntária.

Vejamos, no quadro seguinte, um resumo das diferenças entre flexão e derivação:

FLEXÃO DERIVAÇÃO
Sufixos flexionais Sufixos derivacionais
Uso diferente do vocábulo Criação de um novo vocábulo
Caráter obrigatório (natural) Caráter fortuito (voluntário)
Sistematização coerente Não há sistematização.

Quando desejamos pôr em prática os conceitos de Varrão a respeito da derivação, utilizamos alguns verbos da primeira conjugação para exemplificá-los e, assim, obtivemos uma imediata comprovação, ao constatarmos que o verbo cantarolar é um vocábulo formado pelo acréscimo de um sufixo derivacional ao verbo cantar. No entanto, como se pode perceber, não podemos repetir o processo com os verbos falar e gritar. Conclui-se, portanto, que os morfemas gramaticais de derivação não constituem um quadro regular, coerente e preciso. Por outro lado, se observarmos a flexão dos verbos citados no pretérito perfeito do indicativo, ou em qualquer outro tempo e modo verbal, acharemos a regularidade, a coerência e a precisão que faltam ao processo derivacional:

PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO

Cantar Falar Gritar
Radical V.T. Desinências Radical V.T. Desinências Radical V.T. Desinências
Cant E I Fal E I Grit E I
Cant A STE Fal A STE Grit A STE
Cant O U Fal O U Grit O U
Cant A MOS Fal A MOS Grit A MOS
Cant A STES Fal A STES Grit A STES
Cant A RAM Fal A RAM Grit A RAM

Seria oportuno destacarmos que, no exemplo da tabela acima, há uma padronização tão intensa, que poderíamos elaborar regras, como a que segue, a título de ilustração:

Os alomorfes da vogal temática dos verbos de 1ª conjugação ocorrem, no pretérito perfeito do indicativo, sempre nas 1ª e 3ª pessoas do singular, onde o "-a", vogal temática, é substituído respectivamente por "-e" e "-o".

Se concordarmos com Mattoso Câmara, quando afirma que é a natureza da frase a responsável pela adoção de um substantivo no plural, ou um verbo na 1ª pessoa do pretérito imperfeito, encontraremos, com grande facilidade, exemplos que comprovam a sua teoria no registro culto ou padrão da língua:

Os meninos, quando jogavam bola, faziam muito barulho.
Sempre que não chovia, eu soltava pipa.

Podemos, então, depreender que os morfemas flexionais concatenam-se em paradigmas coesos que não apresentam grande margem de variação.

O paradigma dos verbos da 1ª conjugação no pretérito imperfeito fornece-nos os seguintes dados:

Vogal temática = -a
Desinência modo-temporal = -va e -ve (alomorfe na 2ª pessoa do plural)
Desinência número-pessoal = 0 (1ª e 3ª pessoas do singular), -s (2ª pessoa do singular), -mos (1ª pessoa do plural), -is (2ª pessoa do plural) e -m (3ª pessoa do plural)

Pessoa Radical do verbo V.T. D.M.T D.N.P
Singular a va -
a va s
a va -
Plural á va mos
á ve is
a va m

Devemos, ainda, considerar que a concordância apresenta-se como outro traço característico para os morfemas flexionais na língua portuguesa:

TIPOS DE CONCORDÂNCIA EXEMPLO
De número (singular e plural) o gato/os gatos
De gênero (masculino e feminino) o menino/a menina
Entre o substantivo e o seu adjetivo a aluna estudiosa
De pessoa gramatical (entre o sujeito e o verbo) eles trabalham

A RELAÇÃO ABERTA NO PROCESSO DE DERIVAÇÃO

Mattoso Câmara adota o princípio de que o processo de derivação, formador de novos vocábulos, estabelece, de acordo com a teoria de Halliday, relações abertas entre os vocábulos derivados, contrapondo as relações fechadas existentes na gramática de uma língua:

Entre eles e os demais vocábulos similares derivados há esse tipo de "relações abertas", que segundo Halliday, caracteriza o léxico de uma língua em face da sua gramática. Nesta, o que se estabelece são "relações fechadas" (MATTOSO CÂMARA: 1970, 82).

E chega, portanto, à conclusão de que há sempre a existência potencial de uma derivação, ou a possibilidade de se criar um novo vocábulo mediante tal processo. Além disso, concordando com as ponderações de Halliday sobre o assunto, afirma que a lista dos derivados de um vocábulo não é nem exclusiva nem exaustiva, características atribuídas à lista dos vocábulos flexionados.

Expostas as devidas diferenças entre as duas listas, Mattoso acrescenta finalmente que "a aplicação rigorosa desse critério só pode concorrer para trazer coerência e nitidez na descrição lingüística" (MATTOSO CÂMARA: 1970, 82).

UM ERRO DAS GRAMÁTICAS: A FLEXÃO DE GRAU

Por intermédio de um morfema gramatical adicional, os adjetivos portugueses comumente apresentam uma possibilidade de denotarem o alto grau de qualidade que exprimem. Encontramos, assim, entre outros vocábulos, humílimo ou humilíssimo para humilde e macérrimo ou magríssimo para magro1. No entanto, não se pode considerá-los flexões, porquanto não há obrigatoriedade no uso desses adjetivos que apresentam os sufixos de superlativo ou grau intenso. Antes, devemos observar que se trata de uma questão de estilo ou de preferência pessoal, cuja utilização deve ser cautelosa e parcimoniosa.

Nota-se, outrossim, que não há uma sistematização coerente para a formação desses adjetivos, visto que temos nigérrimo mas não branquérrimo ou alvérrimo. Entretanto, podemos observar a referida sistematização nas flexões de plural e de feminino dos que terminam em -o: negros, brancos, alvos, negras, brancas, alvas.

Não há, tampouco, na suposta e equivocada flexão de grau, nenhum jogo de concordância, como ocorre com as flexões de número e gênero e entre o substantivo e o adjetivo. O que acontece, na realidade, é que uma possível derivação em muitos adjetivos determina a formação dos superlativos.

Finalmente, vemos Mattoso explicar, de forma mais sucinta, a inexistência de flexão de grau na língua portuguesa:

Em outros termos. A expressão de grau não é um processo flexional em português, porque não é um mecanismo obrigatório e coerente, e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si (MATTOSO CÂMARA: 1970, 83).

Observemos, então, uma definição mais atualizada e de acordo com o nosso estudo, na qual não há referências ao grau:

Os adjetivos são as palavras que atribuem características mais peculiares (no contexto da enunciação) a seres, objetos ou conceitos representados pelos substantivos. Tais características podem ser uma qualificação, um estado, uma aparência. São termos determinantes dos substantivos, concordando com estes em gênero e número (salvo exceções de adjetivos uniformes, que não se flexionam de acordo com o gênero do substantivo, como por exemplo: o gosto ruim, a coisa ruim, o gesto simples, a questão simples, o copo frágil, a caixa frágil).

O GRAU EM LATIM

Em latim, a expressão de grau dos adjetivos era marcada por um processo flexional no qual os sufixos -issimus e -ior eram utilizados, obrigatoriamente, quando se estabelecia, na frase, a necessidade de indicar a dimensão ou a intensidade do termo marcado pelo sufixo em relação a outro:

LATIM PORTUGUÊS
Homo felicier Lupo O homem é mais feliz do que o lobo.
Homo felicissimus animalium O homem é o mais feliz dos animais.

Constatamos, portanto, que o adjetivo marcado por um dos morfemas flexionais decorria dessa obrigatoriedade, que caracterizava um processo determinado pela natureza da frase e denominado por Varrão derivatio naturalis2.

Na transposição desse aspecto da gramática latina para o português, conservou-se a tradição de se considerar, equivocadamente, a noção de grau um caso de flexão e não de derivação. Na realidade, o que se tem, em português, é "um mecanismo sintático, fora da morfologia vocabular." (MATTOSO CÂMARA: 1973, 83).

Com base nos exemplos da tabela anterior, depreendemos que, em português, o processo é distinto. A noção de grau é expressa por uma construção sintática, na qual utilizamos os quantitativos mais e menos, ou seja, trata-se de uma construção analítica. Nos casos em que o grau seria expresso mediante os sufixos -íssimo, -imo ou -rimo, esses sufixos não representam um processo obrigatório e coerente. De uso esporádico, não apresentam, igualmente, a mesma distribuição entre os adjetivos. Temos tristíssimo para triste, porém, para frágil e negro, fragílimo e nigérrimo respectivamente.

NOTAS

1 De acordo com o dicionário eletrônico Dicionário Aurélio – Século XXI, apesar de muito comum, é anormal o superlativo absoluto sintético magérrimo.

2 Obtida, em 21/09/03, data da última consulta ao endereço:
http://www.enciclopedia.com.br/MED2000/pedia98a/a40069f.htm


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Vozes, 1970.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Eletrônico - Século XXI. Versão 3.0, CD-ROM. Rio de Janeiro: Nova Fronteira & Lexicon, 1999.

Enciclopédia Digital Master On-line. Adjetivo. Disponível na Internet via:
http://www.enciclopedia.com.br/MED2000/pedia98a/a40069f.htm

Endereço para correspondência:
mvaldivia@ig.com.br