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EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
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A ITÁLIA DOS PRÍNCIPES E DA CORTE

Profª Gilda Korff Dieguez
Coordenadora do projeto Rede de Letras

A Itália dos "Quattrocento" caracteriza-se pelo crescimento de regimes monárquicos, que se desenvolvem em quase toda a Península. Os novos príncipes constroem Estados regionais em Milão, Nápoles e Florença. Em Milão, Francesco Sforza e, depois, Ludovico, o Mouro, reinam sobre vasto território, com mais de um milhão de habitantes. Nesse Principado, floresce a economia, a agricultura se moderniza e ainda começa uma indústria têxtil, além da manufatura de armas. Já em Nápoles, Afonso de Aragão, que assume o poder em 1442, revela-se um monarca autoritário, e seu sucessor, Ferrante, enfrenta e sufoca uma revolta dos senhores feudais e, além disso, tenta limitar os privilégios do clero, mas fomenta um desenvolvimento econômico em seu domínio. Enquanto isso, em Roma, com o Papado já ali instalado em 1443, há uma reorganização administrativa e a imposição da autoridade religiosa sobre as grandes famílias locais.


Francesco
Sforza

Ludovico,
o Mouro

Em Florença, o mercador Cosme de Medici, que havia enriquecido e fora banido em 1443 pelos rivais da alta burguesia, volta triunfante em 1444. Firmando cada vez mais seu domínio sobre o Estado, fortalece a polícia política, utiliza a tributação contra os opositores e controla os conselhos tradicionais, pela criação de novas assembléias, cada vez em menor número. A sucessão vai mantendo os Medici no poder: depois de Cosme vem seu filho, Pedro, que governa de 1464 a 1469, seguindo-se o neto (filho de Pedro), Lourenço. Educado para a tarefa de reger o Estado, ele reprime ainda mais os rivais, que, inclusive, tentaram assassiná-lo. Lourenço esforça-se para manter a paz e, politicamente, tenta construir um equilíbrio com os demais Estados da Península, reforçando cada vez mais seu poder pessoal.


Cosme de Médici

Político hábil, Lourenço de Medici, Il Magnifico, não apenas se esforça em controlar o Estado, mas em manter a tradição familiar, orientando a vida cultural florentina. Assim, dá prosseguimento às iniciativas do avô, Cosme, amparando os artistas florentinos: concede proteção aos escritores, amplia a biblioteca e sustenta financeiramente expedições que vão à procura de textos antigos, além de abrir ao público a sua coleção de manuscritos e obras de arte. Ele próprio torna-se escritor, com inúmeras e diversas obras escritas. Em retribuição, Lourenço recebe manifestações vivas de gratidão, por parte dos intelectuais, vindo a constituir a chamada "idade de ouro" de Florença.

Vários nomes foram amparados por Lourenço de Médici, Il Magnifico, dentre eles Michelangelo, a quem foi permitido estudar o corpo humano – proibido nessa época, pela Igreja. Mas também outros artistas e intelectuais.


Lourenço de Medici

Em torno de Lourenço gravitava um grande número de escritores, em ambiente cortês. Entre eles, os mais célebres foram Marsilio Ficino, Landino, Poliziano, Pico della Mirandola, os irmãos Luca e Luigi Pulci. É esse último um poeta que consegue algum renome, embora sua escrita tenha sido mais "primitiva". Sua obra prima, Morgante maggiore, é composta de 23 cantari (cantos), em oitavas, e versa em torno de Carlos Magno e seus paladinos – Orlando (Rolando), Uliviero (Olivier, cunhado de Rolando), Rinaldo (Reinaldo), Arnolfo, Riccirardetto (irmão de Reinaldo), Uggiero (Oger), além do traidor Gano (Ganelon), que pactua com os pagãos. O poema de cavalaria, escolhido por motivos cortesãos, e também por razões literárias (como ainda não havia sido codificado, dava enorme liberdade a seu criador), faz sucesso relativo, dado o gosto pela ação dinâmica e pelo riso dessacralizador.


Luigi Pulci

"Morgante"

Paralelamente, no mesmo período dos "Quattrocento", verifica-se o aparecimento de atividades literárias importantes, fora de Florença. Em Milão, Francesco Sforza e Ludovico, o Mouro, protegem humanistas e literatos (dentre eles, Leonardo da Vinci), permitindo o florescimento da literatura. Em Roma, os Papas reativam também a política cultural e atraem eruditos, arqueólogos e humanistas, em torno dos monumentos históricos. São estabelecidos grupos de debates sobre as artes, notadamente as do período clássico. Enquanto isso cresce o número de historiadores, que se espalham pela Península, tendo suas ramificações também em Veneza.


Leonardo da Vinci
na corte de Ludovico, o Mouro

Em Ferrara, Hércules d'Este dá suporte financeiro para traduções dos clássicos grego e romano, permitindo que se desenvolva uma poesia de caráter petrarquizante. Ao mesmo tempo, são incentivados espetáculos na Corte, fazendo renascer o teatro. É nesse clima de intensificação cultural que surge Matteo Maria Boiardo (1441-1494), descendente de família nobre, portador do estilo humanista, que comporá a sua obra-prima, Orlando innamorato ("Orlando apaixonado"), em três livros, dando prolongamento à obra de Pulci, com uma sofisticação bem mais acentuada.


Boiardo

Orlando enamorado

Além do uso de numerosas fontes e um número bem maior de personagens, Orlando innamorato é muito superior em imaginação e criatividade a Morgante. Cultor dos clássicos, na obra Boiardo tempera uma intensa aventura com um ideal cortês. Mesmo assim, o autor se descarta da religiosidade, fazendo uma opção pelo sobrenatural, pelo mágico, numa mistura de sonho e realidade.


Carlos VIII

Em 1494, porém, o exército francês, sob o comando de Carlos VIII (*), invade a Península: é o momento em que França e Espanha disputam o território italiano, que se torna um grande palco de conflitos. São inúmeros os transtornos políticos e as mudanças de poder, vindo a acarretar problemas econômicos, causados igualmente por saques e destruições. Nesse quadro, os intelectuais sofrem os efeitos da ruptura em relação à "idade de ouro", até porque, para fazerem frente às invasões, as monarquias se fortalecem belicamente, deixando em segundo plano os intelectuais e a burguesia.

Em um quadro complexo e confuso, os escritores perdem prestígio, restringindo seus trabalhos praticamente à corte, única destinatária da produção. Por efeito desse quadro, há uma mudança no plano das preferências, que, agora, passam a ser os poemas ou novelas de cavalaria, a comédia, a tragédia e a poesia. Além disso, os salários são baixos e os Príncipes já não prestigiam os intelectuais, que se tornam marginalizados. É nesse contexto que Ludovico Ariosto escreve a sua obra, resgatando o ambiente cultural que Ferrara já experimentara.


Ariosto

(*) Carlos VIII (1470 - 1498), Rei da França, filho e sucessor de Luis XI e Carlota de Saboya, subiu ao trono em 1483. Casou-se com a Duquesa Ana da Bretanha, para anexar a Bretanha. Ocupou Nápoles em 1495 – território também cobiçado por Fernando, o Católico e Maximiliano I. Com isso se formou a Liga Santa, entre Veneza, Aragão e o Papa Alexandre VI e Ludovico, o Mouro, para lutar contra os franceses, que foram derrotados e expulsos da Itália em 1497.

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