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EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
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A BOA MÚSICA

Mauro Dellal da Silva
Produtor artístico da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró-Música e aluno do 6º período de Letras – Campus Rebouças

 

Um dia, minha irmã disse-me: "Mauro, você é um chato. Vê defeito em tudo quanto é tipo de música. Só gosta de música erudita." Minha irmãzinha, na sua estreita visão, confundia chatice com sinceridade. É óbvio que eu devo e posso ser apreciador de um gênero. Preferir este àquele, e por aí vai. Mas a minha irmã foi radical demais. Resumo, então, a minha filosofia. Eu gosto de música boa, seja ela erudita, rock, pop, samba... O que me deixa doente são as músicas de apelo comercial, de melodias sem letra e de letras sem melodia. Sendo assim, são músicas incompletas, obras capengas e sem utilidade, lógico, para mim.

Mas a frase maldosa de minha irmã foi dita já há algum tempo. Isso fez-me lembrar dos sons da minha juventude. Sons, alguns, que não ouço mais; porém, quanto sentido faziam para mim; sons de segurança como o apito do guarda noturno a anunciar mais uma noite calma; sons de alegria, como o chacoalhar de um estranhíssimo instrumento (não sei o nome) do vendedor de pirulitos caramelados e de biscoitos canudo (esses eu ainda vejo, os biscoitos); sons de uma rua silenciosa em meio a uma das maiores cidades do Brasil; sons de músicas infringidoras de um regime militar incapaz de perceber as sutilezas da língua camufladas nas letras inteligentes de geniais transgressores, como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso; sons da guitarra alucinante de Jimi Hendrix (quem não ouviu, não viveu); sons da rouca voz de Janis Joplin (nada açucarado como as primas-donas eletrônicas de corpinho sarado); sons de uma progressão sinfônica de um Yes, de um Led Zeppelin ou de um Pink Floyd. Enfim, sons... sons que faziam sentido, que têm o poder de nos modificar, de nos fazer pensar.

Nós, seres humanos, quando muito jovens, somos assim: achamos que a arte das gerações anteriores nada valem; achamos que a música de nosso tempo, a literatura de nosso tempo, a moda de nosso tempo são as que valem e as que se perpetuarão. Ledo engano. Quando começamos a perceber melhor, ainda escutamos músicas antigas, lemos textos antigos e remexemos nosso guarda-roupa em busca de uma moda que nem sequer sonhamos já ter feito a cabeça (e todo o corpo) de gerações anteriores a de nossos avós. Pois o que é bem feito e de valor, se perpetua independente de nossa vontade, seja popular ou erudito.

E-mails para a coluna:
m.dellal@terra.com.br